Eu Sempre Tive um Pouco de Medo das Noites sem Lua.

April 9, 2013 § 14 Comments

Eu sempre tive um pouco de medo das noites sem lua, sabe? Não sei dizer porque. É desde criança.

A primeira coisa que eu me lembro foi quando eu ouvi um gato chorando como um bebê. Já ouviu um gato chorando como bebê? É horrível. Começa como uma porta rangendo ou uma dobradiça muito enferrujada. E segue crescendo, como uma sinfonia, uma sinfonia de choro, tocada num violino, num violino de cordas vocais.

Era numa noite sem lua.

Conforme fui crescendo, o medo foi crescendo, como um buraco, sabe? Um buraco de escuro, um buraco num tecido, um tecido que se estica e se deforma e se alarga muito esticado e que você sabe, você sabe, simplesmente sabe, okey?, que nunca vai voltar pro tamanho certo.

Obviamente eu nunca perdi o controle. Não, isso nunca, isso nunca. O mais estranho que podia acontecer eram recusas a bons convites. “Tô passando meio mal.” “Já tenho um encontro.” “Acordo cedo amanhã.” Sabe essas desculpas? Essas desculpas que todo mundo usa? Então, eu usava pra me esconder, pra me esconder das noites sem lua.

Era uma alergia. Uma alergia mental. Uma alergia mensal. Se sou alérgico a abelhas, fujo de abelhas. Se sou alérgico a gatos, me escondo de gatos. Eu me escondia das noites sem lua.

Sim, é verdade: noites sem lua nunca me deixaram com o nariz escorrendo. Mas eu sabia, entende?, EU SABIA que alguma coisa ruim ia acontecer se eu não me escondesse, se eu não me escondesse das noites sem lua.

E eu me escondia.

Mas aí ela aconteceu.

Era inverno e eu estava correndo para chegar em casa. No inverno fica tarde mais cedo. É desesperador. Eu passei na padaria. Para comprar leite e pão e queijo e, meu deus, e mais alguma coisa, mais alguma comida, mais qualquer coisa para ficar em casa na noite sem lua.

E ela apareceu. No início da noite sem lua. Toda de branco. Linda. Eu a vi e ela viu que eu a vi. E nos vimos. E ela sorriu. Um sorriso de pequenas luas brancas, simétricas e úmidas, protegidas por lábios. Não um sorriso de falsa tímida. Nem um sorriso de sedutora pretensiosa. Sorriu. Me deu um sorriso crescente e eu, com pressa, respondi com um aceno minguado.

Tenta entender, tenta entender: eu não sou tímido. E nem inseguro. Era culpa da noite. Da noite sem lua. Eu tinha que correr. Tinha que voltar pra casa. E eu corri. E esqueci o celular no caixa.

Quando cheguei em casa, liguei pro meu celular. Ela atendeu. E ela tinha a voz. A voz da lua que faltava. A voz da lua que ME faltava naquela noite. Toda de branco. Linda. E me disse que estava na padaria me esperando. Me devolveria o celular. Se eu tomasse um café com ela. Ela me convidou. ELA!

Eu nunca me perdoaria se eu não fosse. Eu tinha que ir. Não haveria noite sem lua naquela noite. Não haveria noite sem lua nunca mais! NUNCA MAIS, entende? Ela seria minha lua. Se eu conseguisse fazer isso, eu não teria mais que fugir.

E eu voltei. Não correndo. Não fugindo. Caminhando. Caminhando numa estrada de estrelas que me levaria pra lua. Pra minha lua.

Mas quando eu cheguei lá. Quando eu cheguei, meu deus, quando eu cheguei. Eu não entendi direito. Era uma mistura de vermelho e azul, girando e girando. Me falaram alguma coisa sobre um trombadinha, sobre um celular e sobre uma faca e sobre um não, um me dá, um não, um quer morrer, um socorro e um tarde demais. Um tarde demais.

E eu fugi, eu fugi, eu fugi da noite sem lua e da lua caída no chão, toda de branco, linda, escorrendo vermelho e me convidando para um café. Corri para as minhas portas e trancas e chaves e fechaduras e pra me proteger da noite sem lua.

A noite sem lua que fez isso. Que me fez esquecer o celular. E fez ela me esperar. E me desafiou a andar devagar. Eu não podia saber. Foi sem querer. Eu juro que foi sem querer. Não foi minha culpa esquecer o celular. Não foi minha culpa andar devagar. Foi culpa da noite. Da noite sem lua.

§ 14 Responses to Eu Sempre Tive um Pouco de Medo das Noites sem Lua.

  • Fy says:

    Awesome ! – It was you who wrote this ?

    [ It remind me of the same scare. When my dad got tired of opening windows and showing me they were cats and not babies. ]

    Numa levada bem Poe , mil temas nas entrelinhas , super litania contra o medo .

    E como deixamos a importância das coisas ficar escondida e só no desmundo que o medo cria.

    Não existem noites sem lua .

    Bj – super post !

    – for your post, for the fear, for the cats :

    Fy

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    • Lívia Ludovico says:

      Não existem noites sem lua, Fy? Claro q há!

      São as noites escuras…

      Ocorre q é no escuro q os olhos (de gato) brilham. ;)

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      • Anarcoplayba says:

        Ahhhh… as noites sem lua são as noites de lua negra… Hécate, a mais velha das luas…

        O engraçado é que lua Nova não é uma lua negra… é só uma lua que está no lugar errado… no dia.

        Em algum lugar a lua brilha… talvez não pra gente, mas brilha.

        bjus, Manoa!

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    • Anarcoplayba says:

      Texto meu sim, Fy! Escrito sob encomenda pra um amigo que queria um monólogo pra declamar… no fim, foi julgado “pouco comercial” pelos professores dele… Mas ainda uma peça que me apaixonou escrever…

      O tema… pra mim, era a loucura. Pra variar, né? Acho que eu tenho um fraco pelo tema. O Protagonista é um Paranóico… mas só porque você é paranóico, n significa que eles não estão atrás de você. No caso, ela.

      Eu queria um dia dirigir alguém em um Monólogo (existe diretor de monólogo?) pra dar o tom que eu queria…

      Enquanto isso n vem, vamos tentando criar coisas insanas de tão belas (ou o contrário).

      =*

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  • Fy says:

    – foi julgado “pouco comercial” pelos professores dele… –

    [ é …. professores . – pouco comerciais. E outros McDonald’s demais …. se não agradar … não vende – you know…? ]

    eu adorei o post e mais ainda esta coisa toda de atravessar a rigidez cartesiana tão plastificadinha que fabrica territórios de loucura , de beleza , paranóias e sanidades. Adorei a falta de cerimonia.

    Um monólogo, por sí só pode ser bem louco assim . Solto em seus demônios. A não necessidade de coadjuvantes como o retorno, a resposta , a aprovação, cria esta disponibilidade quase preguiçosa em que a culpa passeia por onde ela bem entender .

    … e neste ritmo que cria e ondeia sua própria dramaturgia eu entendi bem as noites sem lua da Lívia. – Aliás, nas noites escuras os gatos ficam assim, como monólogos, sem precisar aprovação , roteiro ou resposta, – pardos e sinceros. Ah… claro que os olhos brilham .

    Man … , a beleza é sempre louca . Bem mais q o medo .

    Bj
    Fy

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    • Anarcoplayba says:

      É… e eu ando esbarrando bastante nesses problemas… A “Receita de Bolo” dos roteiros que tanto me incomoda quando eu vejo que os melhores bolos não tem receita.

      Mas, é algo que eu quero pagar pra ver: produzir mais ser menos consumidor e ir gerando corpo…

      2022 está aí e eu quero ver quem será a nova semana de arte moderna.

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      • Fy says:

        Anarco, – eu fiquei pensando.

        Este lance do bolo pronto, é meio absurdo em se tratando de professores , ou roteiros ou teatro.

        Vc falou em loucura, – mas não foi o q eu percebí, qdo lí .

        E aí, se fugirmos deste território loucura bolo-pronto , seu monólogo tem , abusivamente , toda a linguagem teatral contemporânea. Daí, minha estranheza.

        Sem analogias com a loucura, qdo lí, imediatamente me lembrei de Artaud! E nossa , é impossível que um professor não tenha notado : Barrault: “De longe, a coisa mais importante que se escreveu acerca do teatro no século XX”.

        É o que existe ! é dança! É linguagem : viva.

        À título de interesse, vc vai encontrar Artaud em Deleuze, Jorge Luís Borges, Cortázar, Foucault, Pelbart , e mil etcz interessantes que eu nem lembro agora. Justamente por trazer à tona, transbordar sem pre-conceitos, afetos, percepções, linguagem, pensamentos, e tantas destas forças que habitam o homem , como ficou claro em seu conto , e que habitam em todos os homens , não só nos loucos…. se é que loucos existem , – mas q a forma–homem- bolo-pronto não permite ou não considera.

        A linguagem passeia em crises, paixões, aventuras disruptoras, revoluções, criações imprevistas, desfechos despromagramados, e se mostra. Viva.
        Artaud desafia nossa forma-homem conveniente e estereotipada, e nos coloca de frente ao humano. Ah… isto não é loucura.

        Ah …, eles devem achar Cortázar não-comercial … tb :

        Creo que soy porque te invento, Alquimia de águila en el viento desde la arena y las penumbras, y tú en esa vigilia alientas la sombra com la que me alumbras y el murmurar com que me inventas . – Cortázar , que lindo !

        Não há no teatro , hj, quem não saiba a importância de Antonin Artaud em termos de gesto teatral, de verbo poético , de desafio existencial, de algumas das concepções mais ousadas e mais produtivas que a cena contemporânea apresentou e semeou para o seu tempo e para o nosso tempo , Vale ler : entre tantas coisas , O Teatro e seu Duplo …

        Parabéns e Parabéns

        Fy

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      • Lívia Ludovico says:

        Há loucura na fobia. A sorte é q não há fobia num beijo, embora haja loucura: http://www.youtube.com/watch?v=gOcPsaYXk24

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    • Lívia Ludovico says:

      Fy, adoro saber q vc me entende! :) Eu sempre tive tanta dificuldade em entender seu estilo de linguagem… E saiba: nada é mais fascinante pra mim q as coisas q não entendo. ;)

      A comunicação é pura magia.

      Um beijo.

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  • Anonymous says:

    Claro que há a possibilidade de se dirigir monólogos.. Dar o tom, a marcação, o ritmo da respiração.
    O diretor se obriga, ainda mais, a adentrar no universo da peça, do roteiro, e principalmente, do ator…. Não é a toa que quando há um bom monólogo “em cartaz”, ele tende a ser arrebatador. A direção se torna tão fundamental quanto a disposição do ator de se entregar a cada linha.

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    • Anarcoplayba says:

      Acho que parte do problema, Anonymous, é que eu tenho quase nada de experiência de criador… muito mais de consumidor… no curso de roteiro que eu estou fazendo o prof disse que o roteiro que eu apresentei pra ele tinha informações que são trabalho do diretor, não do roteirista. E eu sou antes de mais nada um escritor. Então o que eu quero… o que eu visualizo, é algo que eu tento passar com o máximo de precisão, qualquer que seja a linguagem (literária, teatral, cinematográfica)…

      Dirigir é uma experiência que eu ainda quero ter… tomara que role.

      abraços!

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  • Fy says:

    Ah Lívia… quem conta um conto sempre aumenta um ponto – ou qq coisa assim – . Gabriel Garcia Marques: – tem q ter tempo! – fissurado em Woody Allen ,– escritor de intensidades, abusado em desmomentos e antíteses conceituais , um vivedor sem-cerimonia

    – a taste, só pra lembrar:

    “Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.

    Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las.

    Porque eu acho sempre muitas coisas – porque tenho uma mente fértil e delirante – e porque posso achar errado – e ter que me desculpar – e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.

    Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que “nada é para sempre.”

    Gabriel García Márquez

    Bj
    Fy

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  • Astrogildo says:

    Aconselho a leitura do romance surrealista A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho. Inclusive foi adaptada e virou um ótimo monólogo do chico diaz. É foda.

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