A Primavera Brasileira.

June 18, 2013 § 2 Comments

“Ninguém faz protesto por causa de R$ 0,20. É maior do que isso. Nenhum Governante solta a tropa de choque em manifestantes por causa de R$ 0,20. É maior do que isso.”

“Estamos presenciando a maior manifestação política popular desde o Impeachment de Collor. E aquelas manifestações não foram reprimidas com violência.”

Dedicado a Fábio e Eliseu*.

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Depois de algumas semanas fazendo comentários esparsos no FB e twitter, e depois de alguns meses de bloqueio criativo, resolvi dar meus vinte centavos sobre a primavera brasileira.

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Algumas pessoas estão chamando essa revolta (sim, acho que saiu da categoria de manifestação) de “Primavera Brasileira”.

Óbvio que existem diferenças demais. A razão das revoltas no Brasil foi o aumento de R$ 0,20 nas passagens de transporte público nas capitais, um motivo muito diferente das ditaduras islâmicas.

Só que não.

A primavera árabe não começou por causa de uma ditadura. A primavera árabe começou porque um engenheiro desesperado porque não conseguia emprego e não tinha perspectivas. Entrou em desespero e se auto imolou. Tomou um banho de gasolina e riscou um fósforo. Um suicida não é motivo para se derrubar (e matar) alguns ditadores. Não que tenha que ter motivo pra matar ditador, mas não é ISSO, depois de tudo o que aconteceu, que vai ser motivo.

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Muito se fala de que não é sobre $ 0,20. Não é mesmo. É sobre transporte, saúde, moradia, segurança, verdade, ética e educação.

Mas não se fala de porque o estopim foi uma crise de transporte.

O brasileiro tem uma grande qualidade-defeito. Ele dá um jeitinho. Sempre.

Não tem escola pública boa. A gente dá um jeitinho, aperta o cinto, improvisa com ensino particular ou cursinho filantrópico.

Não tem saúde. A gente dá um jeitinho, aperta o cinto, enfia um plano de saúde meia-boca no orçamento e vai na fé que não vai ficar doente.

Não tem emprego. A gente faz uns bicos, improvisa, dá seus pulos.

Não tem previdência pública decente, bora fazer um plano de previdência privada.

Não tem segurança, contrata os PM’s que passam fome com o salário da corporação pra eles fazerem a nossa segurança privada.

Não tem transporte, a gente…

A gente se fode.

Não tem alternativa. Não tem como a gente construir um metrô novo, abrir uma avenida nova, uma nova linha de ônibus ou qualquer coisa do gênero.

Não temos condição de dar jeitinho. O jeitinho é comprar um carro. E se todo mundo comprar um carro, São Paulo (e as demais capitais) param. Não dá.

Aí a gente vê o governo estimulando ainda mais o uso de carros (sim, porque aumentar a passagem pra esse sistema de transporte PORCO que nós temos é estimular o uso de carros) e, acredito, inconscientemente, todo mundo percebe que não dá mais. A partir daí é estopim.

Vemos que eles não ligam pro nosso transporte, querem reprimir nossa manifestação, e talvez passe pela cabeça das pessoas que se o governo não ajuda nossa vida e reaje com violência à nossa indignação, ele não tem razão de ser.

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Essa manifestação também deixa claro o quão medieval é a nossa vida. Literalmente. Nós vivemos para trabalhar.

A gente trabalha para ganhar dinheiro. Do salário e bens pagamos impostos. O que sobra dos impostos a gente paga o que a gente precisa: saúde, educação, alimentação, moradia, transporte, previdência, segurança, etc. E se quisermos “subir de vida” (comprar uma casa, um carro novo, reformar o apartamento, etc.) a gente precisa se endividar por dez anos.

O Brasil é feito para você não ter tempo de pensar na vida porque tem todas as contas e impostos para pagar no fim do mês.

A imagem que me vem à cabeça é as colméias de humanos em Matrix, fornecendo energia par ao Sistema que comanda as vidas deles.

Enquanto estivermos fornecendo energia, they don’t really care about us.

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Uma das críticas do movimento é que ele não tem objetivos definidos. E essa é uma crítica procedente.

Ainda bem.

Tem grupos políticos querendo capitalizar em cima (vai se foder, PSTU), tem anarquistas que só querem se opor ao governo, tem o Movimento Passe Livre (do qual eu até então discordava), tem o PSOL (que ainda é mais ético que o PSTU), gente de direita, gente de esquerda, estudantes, velhos, trabalhadores, classe média, média alta e média baixa… é um balaio de gatos. Não dá pra tirar uma ideia única, simples e consensual de tudo isso.

Porque esse movimento todo não é sobre uma ideia. Ele não tem uma razão.

É um movimento sobre emoção. É um movimento que está capitalizando em apenas uma coisa: essa dor que é viver no Brasil hoje. Pelo motivo que seja. Pode ser pelo transporte, pode ser pela educação, pode ser por estar apresentando um país pra Copa como um monte de índio que tenta agradar o homem branco e nem consegue agradar a própria tribo direito.

É um movimento sobre dor, sobre amor, sobre paixão, sobre amizade, sobre alegria. Ideias dividem. Emoções coagulam.

Nós não sabemos qual vai ser o resultado. Não sabemos o que vai acontecer, se vai ser o suficiente, se vamos precisar de mais, se vamos conseguir ônibus a R$ 3,00, de graça, subsidiado, educação, sabedoria, moradia, saúde, democracia… não sabemos se protestar resolve, se votar resolve, se depredar resolve… só sabemos que o primeiro passo é perder a razão. É gritar: I’m mad as hell, and I’m not going to tak it anymore.

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Tive a oportunidade de participar da passeata de hoje. E tive o privilégio de ver cenas maravilhosas.

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Admito, com certa vergonha, que eu fui para lá sem muita ideia de porque. Quer dizer, os motivos racionais e concretos são simples: é um protesto contra o aumento da passagem dos transportes coletivos de São Paulo, uma atitude unilateral e antidemocrática que reflete interesses políticos dos quais eu discordo.

Mas não sei, para falar 100% a verdade, se é o tipo de coisa que ajuda ou faz diferença. O que é mais uma pessoa lá? Se fosse por “fazer a diferença”, teria colocado um terno e ido para uma delegacia dar plantão pra quem fosse detido.

Na verdade, eu fui pra manifestação por um motivo puramente egoísta. Eu queria fazer parte de algo belo. Eu não me perdoaria se eu deixasse passar a oportunidade de ver a cidade por outro ângulo. Quer seja olhar pro topo da ponte estaiada estando nela, quer seja por fazer parte da coletividade.

E acho que essa é a grande diferença. Não dá pra participar de uma revolução que não seja bela.

O slogan da Johnny Walker virou grito de guerra. A música do Rappa também. O Gigante Acordou. Vem pra rua.

É óbvio que ninguém queria ter sua peça publicitária associada a uma revolta popular. É óbvio que essa música foi composta por encomenda. A ideia não era criar um grito de guerra.

Mas virou. Porque essa é uma das grandes características dessa geração. Depois de anos com memes repetidos e reescritos à exaustão, era de se esperar que mais uma criação artística fosse subvertida.

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Sobre o vandalismo, é melhor que não tenha. Mas se tiver, lembrem-se que pessoas são mais importantes que coisas.

Sobre a polícia, vale lembrar que eles são humanos como nós, mas que estão em uma posição de garantidores da segurança das PESSOAS acima de tudo, não das COISAS. Eles precisam ser melhores que um adolescente vândalo. Eles estão agindo em nome do Estado. E é importante saber a quem beneficia uma polícia truculenta que dispara balas de borracha na altura do rosto, não na altura das pernas, como deveria ser.

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Eu sei que nunca é tão simples. Infelizmente. Seria lindo se fôssemos só seres humanos caminhando lado a lado movidos por um sentimento comum. Cedo ou tarde alguém vai tentar capitalizar em cima de tudo isso. Não se resolve todos os quinhentos anos de problemas do Brasil em três meses. Mesmo que seja a Primavera que veio no Outono.

Mas enquanto pudermos dançar, vou continuar feliz com isso. Foda-se o trânsito. Foda-se a novela. Foda-se o metrô.

Pra mim é sobre tomar o Espaço Público. Ocupem o Mundo.

***

*Fábio e Eliseu foram dois caras que eu conheci nessa passeata. Quando estava correndo na Marginal Pinheiros pra alcançar a manifestação, vi que alguém estava correndo atrás de mim. Esperei para irmos juntos para a manifestação (afinal, dizem que é mais seguro). Era o Fábio. Ele disse que ia em todas as manifestações desde sempre, porque é o mínimo que ele podia fazer. Nunca viu mais que quinhentas pessoas. E não foi na manifestação de quinta e se arrependeu muito.

O Eliseu eu encontrei na Roberto Marinho quando estava indo pra casa. Ele estava de terno e carregando uma pasta. Como passaríamos perto de uma favela, achei que era mais seguro irmos juntos. Ele estava conversando com a esposa, que aparentemente tinha ficado brava de ele ir na manifestação. Descobri que ele era militante do PSOL. Ele e a esposa me deram carona pra casa.

Não sei o que vai ser das próximas manifestações. Mas não sei em que outras oportunidades eu teria conversado com um punk e um advogado militante do PSOL e teria visto que, quer andemos de carro, quer não, só paga a passagem quem anda de ônibus. Mas o aumento, pesa no coração de todos.

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