A Técnica da Arte.

July 7, 2013 § 6 Comments

Meia centena de vezes entrei na discussão a respeito do que seria uma arte, uma técnica ou uma ciência.

Algumas convicções eu carrego com alguma certeza. Pra mim, Medicina é Técnica. Médico não faz experiências. Médico vai e aplica, com competência, o resultado das experiências anteriores. O que não significa que não exista pesquisa na área da medicina, o que ainda assim não faz da medicina uma ciência, afinal, antes de testarem em um hospital, as técnicas têm meia dezena de protocolos a serem seguidos (de testes laboratoriais a experiências com animais).

Mas deixando a ciência de lado, há o abismo que separa a técnica da arte.

Se eu defino a Arte como toda manifestação humana criativa que almeja a transcendência, podendo ser essa transcendência temporal ou pessoal (se eu almejo alcançar o leitor, transcendo pessoas, se almejo que minha obra transcenda o momento da enunciação, pretendo a transcendência temporal).

Técnica, no entanto, é algo que eu nunca tentei definir.

Em grego, Técnica seria equivalente a Arte, mas isso é um problema terrível pra gente. Seria assumir que existem duas palavras com o mesmo significado, coisa que não faz sentido algum. Nada sobra. Se tivemos o trabalho de criar uma palavra nova e a velha não se perdeu, algum novo sentido foi criado.

Eu arriscaria que a Técnica não almeja a Transcendência. A Técnica é um esforço humano que almeja alcançar um objetivo com o maior grau de perfeição possível.

É importante deixar claro que perfeição não vem carregada de um caráter nazi-fascista do que é certo ou errado. Trata-se de uma otimização de resultados e recursos. Se um determinado médico demora 12 horas em uma determinada cirurgia e outro médico demora 6 horas numa mesma hipotética cirurgia, coeteris paribus, é de se pressupor uma diferença de técnica e habilidade.

A primeira coisa que me vem à cabeça é que inexiste qualquer espécie de oposição entre Arte e Técnica. Isso é Arte:

E Técnica.

Enquanto a arte se encontra na composição, uma produção imaterial que almeja induzir uma determinada sensação no ouvinte (e, cara… ele consegue), a técnica está na capacidade de tocar aquela composição.

No entanto, a Técnica não é requisito para a arte. Existem milhares de bandas que tocam Ramones melhor que Ramones no mundo hoje. E nenhuma delas está fazendo mais sucesso que Ramones fez.

Ao mesmo tempo, não é da Arte o monopólio da beleza. A beleza está nos olhos de quem vê. E pra mim, por exemplo, isso é lindo:

Mas a Técnica tem um limite. Um soco é um soco. Quem treina um pouco aprende que um soco não é só um soco. Quem treina muito entende que um soco é um soco. Tal qual a Técnica permite a você conhecer e reproduzir acordes num violão e a transpô-los de um em um, a técnica se esgota em um determinado momento, pois não é criativa. O máximo que o melhor tocador de ramones vai conseguir é alcançar 100% do que os Ramones queriam. Pra alcançar 101% precisa de algo novo. Precisa de Arte.

(Mas por favor: você não precisa ser melhor que ninguém pra criar arte. Você “só” precisa criar uma manifestação humana que almeje a transcendência.)

Mas onde eu quero chegar nisso é que existe um limite pra técnica. Um bom médico vai curar a sua doença. Ou talvez te dar peitos mais bonitos. Mas não vai fazer você viver pra sempre. Um bom engenheiro não vai fazer um prédio indestrutível. São aplicações de técnicas. Tal qual a astrologia.

É, pra mim isso foi uma conclusão importante.

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§ 6 Responses to A Técnica da Arte.

  • Lívia Ludovico says:

    Tô aqui há um tempão tentando fazer um comentário inteligente sobre técnica, talento e arte, mas eu só consigo pensar em peitos mais bonitos hahahahaha

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  • Anonymous says:

    Haveria limite para a arte? É possível que a astrologia atinja um estado de arte, além de uma aplicação técnica? (refinamento intuitivo + conhecimento, assim como um grande artista)?

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    • Anarcoplayba says:

      Não acredito que exista limite pra arte pq assumir limites pra arte é assumir um paradigma… um julgamento… E arte não admite julgamentos… quem é melhor, Picasso ou Rembrandt?

      Mas n acredito que a Astrologia possa ser elevada à categoria de arte, ainda que elevadamente refinada e intuitiva… é uma técnica… vai sempre dizer a respeito do objeto. A forma como alguém fala aquilo pode vir a ser artística… Assim como um texto jurídico pode ter um caráter poético.

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  • Fy says:

    A arte não é uma técnica – tá bem certo isto … – mas … a técnica funciona como instrumento de atualização das virtualidades que a arte compõe.

    Alguem [ não lembro quem …] pensou algo importante e disse assim : Os homens criam ferramentas e ferramentas recriam o homem .

    Criar, sob qualquer aspecto é Arte.

    Mas achei muito radical sua afirmação de que a medicina não é uma arte, ou mesmo a engenharia, a economia, o direito … etcetalz. Uma dança diferente, talvez… mas comparável …

    Mais uma vez poderíamos dizer que a tecnica atualiza um campo de composição artística nestes casos e em mais um montão . Como nas artes marciais, no ballet …e por aí vai .

    O plano de composição que a arte cria é a superfície paradoxal de uma metafísica concreta, acho que é isto que vc chama de transcendência ] um evento “envolto em uma rede enraizada na atualidade e igualmente aberta ao devir, ao virtual”

    Cria-se com elementos virtuais que encarnam na matéria sensações … que na verdade são virtualidades do corpo , incluindo a imaginação. Na arte, a própria matéria é virtual , literatura, poesia , mas mesmo em suas criações extensas, como obras de barro, de madeira, de pedras, de metais, de tecidos, de tintas, na reconstrução dos seios ….na forma de “apresentar” a astrologia, são pura : Intensidade.

    E não é justamente isto que justifica a diferença entre os Ramones e os covers ?

    Bj
    Fy

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    • Anarcoplayba says:

      N sei, Fy. Acho que distinguir entre a forma de apresentação artística e a arte em si é parte da questão aí… se eu escrevo uma petição que se vale de elementos poéticos, eu não estou trabalhando com o direito… eu estou me valendo da poesia no direito, algo que é plenamente possível, mas que não torna o direito (ou a engenharia, medicina, etc.) uma arte.

      Não se nega os elementos poéticos de Patch Adams… mas isso n significa que a Medicina é a Arte, mas sim que ele usa elementos artísticos na Medicina…

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