It’s not about the Message. Is about sending some money.

July 13, 2013 § 10 Comments

Well, uma vez que eu não ando muito inspirado para escrever coisas relevantes, vamos falar sobre a Crise dos Médicos.

De cara, adianto que eu sou extremamente contra a importação de médicos cubanos e que isso é o fio condutor de todo o raciocínio. Sim, eu sou um mimadinho da classe média que viveu no sudeste a vida toda e não sei o quanto é sofrida a vida das pessoas em cidades perdidas no sertão. Mas também sou branco e caucasiano e representante do patriarcado machista, reacionário e devo ler a Veja, so, get over it.

Bom, a primeira coisa que me incomoda um tiquinho nessa história é que ela começa pela canetada.

Como quase tudo no nosso maravilhoso país.

Faltam médicos no Sertão (leiam sertão como o Sertão de Guimarães Rosa, please). Solução? Importar médicos de fora. Oras.

Não interessa se as faculdades privadas de medicina são caríssimas ou se não abrem mais vagas de ensino superior nas públicas há décadas. Vamos deixar tudo como está e colocar um band-aid na Saúde.

Poderíamos ter aberto há mais ou menos uns 10 anos atrás mais cursos de medicina, o que traria uma dezena de ganhos marginais (hospitais universitários, aumento na quantidade de médicos formados, diminuição da ridícula relação candidato por vaga e consequente redução de mensalidades), mas é mais fácil remunerar estrangeiros para virem trabalhar aqui. (Ainda bem que não são mais cubanos, porque senão estaríamos, provavelmente, remunerando o Governo Cubano).

Poderíamos também melhorar um pouco da infra-estrutura dos hospitais no Sertão e tornar mais atraente a ida dos médicos pra lá (afinal, quem passa uma década na faculdade tem que começar logo a ganhar dinheiro). Mas isso seria mais caro que pagar pra pessoas de outros países. Afinal, como a própria Presidenta disse, já que a Europa tá fodida, quem sabe os médicos de lá não vem pra cá?

O mais legal é que esse é o argumento principal do Turismo Sexual: ir passar férias num lugar em que as pessoas tem menos dinheiro que você porque, lá, você vai ser mais atraente. É quase a compra de noivas russas, mas na medicina.

O segundo ponto é a questão do Ato Médico. Bom, de cara eu sou contra o Ato Médico. Mas o mais legal foi o argumento usado para o Veto Presidencial: Tornaria as atuais políticas públicas do SUS insustentáveis.

Pera, retomando, o argumento não é a validade ou invalidade da medida em si, se ela tornaria, por exemplo, a acunputura monopólio médico, ou se obrigaria médico a aplicar soro em paciente no PS (ao invés de destacar enfermeiros e enfermeiras pra isso). O problema é que precisaria pra isso mudar o SUS e como a Lei ia mexer com o Estado, melhor não aprovar a Lei.

Oras.

Por último, a obrigação de colocar os recém formados pra prestar trabalho público obrigatório.

Em primeiro lugar eu adoraria que as pessoas parassem de colocar os médicos num pedestal de idolatria e superioridade. Medicos são trabalhadores. Trabalhadores que sacrificaram aos 30 anos de idade um terço (por baixo) da vida pra aprender um ofício e que tem dezenas de dores e delícias em trabalhar. Mas eles não têm DEVER DE CARIDADE.

Diga-se de passagem, DEVER DE CARIDADE é um oxímoro.

Quer que médicos trabalhem em hospitais públicos? Paguem pra eles. Em todas as outras carreiras é assim, por que não seria com Medicina?

Ah é. Tem poucos médicos no país e isso inflaciona a mão de obra. Se tivesse jeito de mais médicos se formarem por ano. Ah é. Precisaria de mais faculdades.

Mas como aparentemente ensino não é prioridade, deixa pra lá.

E sim, colocar um Band-Aid é mais problema que solução.

Porque pode ser que um dia o preço dos commodities baixe e a Europa não esteja mais na merda. Aí o Brasil não vai ter dinheiro pra sair fazendo Turismo Sexual. E vai ter é que se foder sozinho.

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§ 10 Responses to It’s not about the Message. Is about sending some money.

  • leofromhell says:

    Cara primeiramente é óbvio que eu concordo que precisa construir mais faculdades, remunerar melhor os médicos e etc… Porém para o governo é mais cômodo trazer médicos de fora, mais barato e tal.

    Eu aceito tudo isso e também acho que está errado, entretanto nós estamos falando de vidas humanas não simples transações comerciais, nesse ponto se trazer médicos de fora irá prevenir que mesmo que seja uma pessoa morra então sou totalmente a favor, tomando-se em conta que dificilmente o governo irá melhorar o país, sou totalmente a favor de uma medida pragmática (mesmo que seja cínica e com intenções financeiras). Na minha opinião num sistema estritamente capitalista essas e outras questões dificilmente serão resolvidas.

    Quanto a crise europeia, na minha opinião não é só europeia, mas sim sistêmica e mostra uma das contradições inerentes do capitalismo (claro mas eu sou apenas mais um marxista-leninista, leitor da carta capital e um hipócrita por criticar o sistema capitalista ;), se não fosse muita arrogância da minha parte recomendaria um cara chamado Yanis Varoufakis sobre a crise :b

    PS: lembrando que Capitalism does not equal the market
    PPS: eu odeio marxistas-leninistas

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    • Anarcoplayba says:

      Obviamente temos todo o direito de discordar um do outro de forma razoável. E esse é um argumento razoável. Mas é exatamente essa parte do problema. Usa-se um argumento razoável para defender algo cujo objetivo não é razoável.

      E parte do problema a respeito do País é exatamente esse hoje: estamos com a infra-estrutura zoneada porque todo mundo fica colocando bandaid. E isso faz com que não apenas os médicos, mas tudo fique ridiculamente inflacionado.

      E falar em “salvar uma vida” é diversionista, porque tira a atenção do problema de verdade. Alardeia-se o bandaid para se ocultar a falta de medidas reais.

      Pinta-se os médicos como culpados pela situação do país (oras, onde já se viu se opor à entrada de médicos no país! Isso é reserva de mercado!).

      Estamos tratando a questão como a morte da Dona Zélia de Itapopoca do Norte, quando o problema diz respeito a uma redução de 30% da portalidade infantil, por exemplo.

      E mais importante do que isso: A preocupação do Governo não é a Dona Zélia.

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      • leofromhell says:

        Sim, eu entendo cara, mas é tenso.

        Na minha opinião o real problema do país é tentar conciliar interesses do capital privado com a sociedade, o governo abre as pernas pro titio eike e em contrapartida para apaziguar os ânimos do povo adota algumas medidas sociais paliativas e meramente assistencialistas, mas isso é o que se consegue de menos pior numa democracia representativa com um sistema capitalista. A não ser que existam manifestações que não se percam em slogans vazios (raro hoje em dia) e façam que o estado tome medidas sólidas e que realmente resolvam (eg. x% do pib para saúde/educação).

        Sabe cara eu odeio essas chantagens desse tipo, pq nós sabemos que se o governo importar médicos isso exime o mesmo de investir na saúde e se não importar os médicos provavelmente o governo não investirá na saúde.

        Honestamente não sei a solução e sei que solução fácil não existe…

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      • Anarcoplayba says:

        É, cara… É uma merda entrar numa discussão que vira: “Como vc pode ser contra mais médicos? tem gente MORRENDO!”

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  • Anonymous says:

    Dificil de se comentar algo quando o autor já se qualifica da forma que voce se qualificou.
    Eu estranho o seu incômodo com a canetada. A classe de onde voce diz ter vindo está mais do que habituada a isso. Então, talvez o que te incomoe seja o fato de que essa canetada foi contra uma parcela da classe à qual voce diz pertencer. Ou, enquanto as canetadas foram em favorecimento de integrantes de sua classe, não houve incômodo, O mundo estava no lugar. Tudo certinho.
    Eu acho que as melhorias nas condições de todos os trabalhadores deve acontecer. Sejam eles da classe médica, dos professores, dos domésticos, etc. .
    Quanto à importação do médicos: há informações de que prefeituras equiparam hospitais e outros postos de atendimento, ofereceram salários bons e assim mesmo os médicos não querem ir. O que eu entendo como um direito deles!
    – Os primeiros médicos que foram chamados não são cubanos ( outro ponto estranho em seu texto).
    – Eu li muitos textos afirmando que o exame da Revalida aplicado aos médicos estrangeiros, cubanos especialmente, são irreais. Por quê?
    Por derradeiro, eu já li a Veja também.

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    • Anarcoplayba says:

      Cara… você não é muito bom em identificar ironias, né?

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      • Anonymous says:

        Não identifico ironia com facilidade. É verdade.
        Talvez por que ache que atrás da ironia se esconda algo verdadeiro.
        Voce estaria sendo irônico, por exemplo aqui: “(leiam sertão como o Sertão de Guimarães Rosa, please).”
        Ou aqui:” Poderíamos ter aberto há mais ou menos uns 10 anos atrás mais cursos “ se contrapondo à :” e não abrem mais vagas de ensino superior nas públicas há décadas.”
        Ou aqui:” O mais legal é que esse é o argumento principal do Turismo Sexual: ir passar férias num lugar em que as pessoas tem menos dinheiro que você porque, lá, você vai ser mais atraente. É quase a compra de noivas russas, mas na medicina.”
        Ou seria aqui: “(Ainda bem que não são mais cubanos, porque senão estaríamos, provavelmente, remunerando o Governo Cubano).”?
        Mas acho que a ironia está é aqui: “ É, cara… É uma merda entrar numa discussão que vira: “Como vc pode ser contra mais médicos? tem gente MORRENDO!””
        Mas como você identificou bem, tenho dificuldade com ironia.

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      • Anarcoplayba says:

        NDA. A Ironia se encontra em “Sim, eu sou um mimadinho da classe média que viveu no sudeste a vida toda e não sei o quanto é sofrida a vida das pessoas em cidades perdidas no sertão. Mas também sou branco e caucasiano e representante do patriarcado machista, reacionário e devo ler a Veja, so, get over it.”

        E é uma abordagem irônica numa tentativa de afastar as discussões “esquerda x direita” ou as dialéticas grupais, que vestem camisetinha de time e criam uma discussão preconceituosa.

        Mas aparentemente, quanto mais eu rezo, mais assombração aparece.

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  • Luana says:

    oi Anarco! faz tempo que não vinha ler seu blog

    bem, é muito dificil se posicionar, e realmente confesso estar em dúvida (ou como muitos preferem rotular: em cima do muro haha) já que realmente existem milhares de pessoas precisando de assistencia e cuidados ~ agora ~ e sabemos que as soluções em educação e saúde são de longo prazo…

    mas concordo totalmente contigo no que diz respeito à velha política do bandaid… que, aliás, serve não só pra este caso, não é mesmo?
    e que o ideal seria dar uma solução imediata e não definitiva enquanto se constroem mais hospitais, se modernizam os existentes, abrem-se mais vagas nas faculdades públicas…

    porém, o foda e o que me faz ficar neutra é saber que com ou sem médicos cubanos o governo não vai fazer nada pra melhorar nada a longo prazo.

    eu também sou parte do estereotipo ‘branca de classe media, moro num bairro bom de sp, as pessoas vão achar que leio a veja e mimimi’ só que realmente me preocupo com essas questões

    só talvez não tenha o conhecimento suficiente pra me posicionar de forma adequada e pensar numa solução plausível…

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  • Anonymous says:

    Fico me perguntando: se há uma população faminta, do que adianta contratar cozinheiros se não há cozinhas decentes para fazer refeições no mínimo dignas?

    A política bandaid é vista na nossa cultura como um todo, é a filosofia do jeitinho, da gambiarra, daquele “improviso” que você faz na sua casa e acaba ficando ali para sempre.

    O governo “só” reflete isso.

    Trazer os médicos cubanos = manter tudo do jeito que está.
    Não trazê-los: talvez forçar outras medidas, acelerar projetos envolvendo educação e saúde. Porque dá para fazer muita coisa sim, só basta vontade.

    O que falta não são recursos, verba, acordos políticos, projetos, etc. O que falta é vontade.

    Afinal, manter tudo do jeito que está é sempre mais fácil, não?

    (só para o governo?)

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