Envelheço na Cidade.

September 2, 2013 § 3 Comments

São Paulo, 02 de setembro de 2013.

Caro amigo, se você está lendo isso é porque você sobreviveu. Sei que parece estranho colocar as coisas desta forma (e talvez até um tanto quanto estúpido) mas a morte é uma eventualidade para a qual devemos estar preparados.

Hoje eu acordei ainda bêbado.

Não que eu tenha bebido demais ontem. Não, não bebi. Mas acredito que bebi por tempo demais ontem (talvez em outros dias também). Consequentemente, às cinco da manhã, horário em que me levantei da cama, minha cabeça reclamava da dor do mundo e me sentia ainda tonto.

Estranhamente, isso me deu uma feliz sensação de constância.

Em 2013 me levantei às cinco da manhã, ainda bêbado, para ir para o trabalho. Volte dez anos no tempo, e a mesma coisa estava acontecendo.

A passagem do tempo se mede pelas mudanças. Nessa perspectiva, eu poderia acreditar que o tempo não passou.

Porém, se por um lado eu contesto tal afirmação com meus joelhos doloridos, meu sobrepeso e meus cabelos brancos, por outro lado, afirmar que nada mudou seria extremamente imprudente.

Mudei.

Dez anos atrás estaria procurando uma camisa passada para vestir, escolheria um terno e um sapato. Colocaria a gravata no bolso para colocar quando chegasse ao escritório. Provavelmente eu estaria atrasado, mas isso não faria diferença, afinal, eu ficaria até mais tarde mesmo.

Hoje escolhi uma calça jeans, um tênis e uma camiseta com uma raposa andando em uma nevasca. Cheguei no colégio 15 minutos antes do necessário (e olha que o necessário era chegar às 7:00 da madrugada) e estou me dando ao direito de escrever esta carta antes de voltar à correção das redações das minhas crianças.

Dizem que as roupas mudam o homem. Nada mais falso. O Homem muda suas roupas. Não que as roupas façam muita diferença. Não fazem em si. São apenas um símbolo. Uma manifestação perceptível e grosseira do imperceptível.

Caro amigo, espero que você sobreviva para ler isso e que você se lembre: Dizem que não dá pra se viver de amor. A verdade é que não dá pra se viver sem amor.

Lembre-se, quando você cogitar que talvez seja melhor ralar de trabalhar até se aposentar para, então, fazer o que você gosta, que nada faz você acordar com mais facilidade que um objetivo. Você não odiará as segundas-feiras se você amar a sua vida. Você cagará para as férias se não houver outro lugar em que você queira estar mais do que no trabalho.

E não, não é sobre largar a sua faculdade de engenharia e ir vender sanduíche natural na praia. Seja o que você quiser. Engenheiro, advogado, médico, astronauta, jogador de futebol, empresário, policial do BOPE, traficante de drogas, o que você quiser. Encontre a medida da sua felicidade e agarre-a.

As pessoas mortas parecem tão irremediavelmente mortas quando mortas.

Mas poucas coisas são tão desesperadoras quanto ver pessoas vivas mortas por dentro. Mortos-Vivos. Zumbis. Andando sem pensar, caminhando com a manada, correndo em busca de algo que nem se sabe muito bem o que é, mas que vai ser de comer. De engolir. De consumir.

As pessoas fazem muita piada sobre o apocalipse zumbi, mas ele já chegou. Faz tempo. Silencioso e sem alarde. Cuidado.

Não particione a sua vida. Não organize a sua alma. Não se divida.

Sê inteiro em todas as partes, tal qual um fractal, permita que cada parte de sua existência reflita seu todo e, assim, talvez você encontre a tão almejada felicidade carregada de sentido.

E, como uma carta numa garrafa, envio-lhe meus melhores desejos.

Desejo-lhe a Calma dos monges.

Desejo-lhe a Sorte dos Irlandeses.

Desejo-lhe a Ira dos Anarquistas.

E que cada um de nós continue dando ao demônio aquilo o que ele merece. Seja ele quem for, esteja onde estiver.

Selá.

§ 3 Responses to Envelheço na Cidade.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading Envelheço na Cidade. at AnarcoBlog.

meta

%d bloggers like this: