O ser humano é um animal que cozinha.

August 4, 2014 § 10 Comments

Nas últimas semanas tirei da gaveta um projeto antigo: Aprender as velhas receitas de família.

Falar em termos de “Receita de Família” é um exagero, mas é um exagero perdoável, posto que bonito. E é um exagero porque, em primeiro lugar, uma das receitas que eu quero aprender é a de um xarope pra bronquite, e isso não é exatamente culinária. Outra é de um doce de abóbora, cuja técnica eu queria aprender e outra é uma receita de esfiha com dezenas de truques e macetes secretos. Mas como essa receita minha avó recebeu de uma amiga, dificilmente posso falar que é uma receita da minha família. No máximo é uma receita de uma família que a minha família recebeu e agora eu só preciso caçar os descendentes daquela família e decapitá-los pra ser o detentor do segredo e viver pra sempre. THERE CAN BE ONLY ONE!

Ahem. Tergiverso.

O fato é que, mais importante do que aprender as receitas da família, vem um aspecto ainda mais importante: cada vez mais eu vejo pessoas perdendo contato com a cozinha.

Comer bem, um bom jantar, ter uma experiência gastronômica, tudo isso vem se tornando equivalente a ir a um restaurante. Para falar a verdade, em geral e na média, utilizamos a cozinha para esquentar a comida que compramos pré-prontas, pré-cozidas, pré-processadas, etc, etc, etc. Sequer nos damos ao trabalho de repetir o que foi feito pelos outros: meramente requentamos isso.

Isso não é muito surpreendente, se pensarmos que, grosseiramente falando, toda nossa vida é um mero requentar: repetimos opiniões, repetimos sonhos, repetimos declarações de amor, repetimos poses de fotografias, repetimos textos, etc. Nossa vida é um gigantesco F5 e não nos damos ao trabalho sequer de reinterpretarmos.

dreams

Obviamente “aprender” a cozinhar é um passo pequeno, mas pelo menos é um passo real.

Mas novamente tergiverso.

O cozinhar apresenta algumas questões interessantes. Primeiramente, é quase bruxaria. Você pega um monte de coisas, corta, pica, rala, separa, mistura, purifica, coze, frita, esfria, tempera e serve uma coisa completamente diferente da que você originalmente tinha nas mãos. Daí vem a questão do que, pra mim, é culinária elaborada ou não. Uma coisa é fritar um bife. Outra é fazer um bolo. Eu considero o bolo mais complexo, uma vez que existem muito mais variáveis. E essas variáveis dependem do conhecimento. Da Receita.

Mas a culinária não é só receita. Fritar um bife é fácil. Mas fritar um bom bife é outra história. Espessura, tempo, panelas, selagem, tempero… Tudo isso influi. E isso depende de técnica. E técnica se treina. Se aperfeiçoa. Se pratica. Com a vantagem de que a cozinha tem um resultado e oferece uma vantagem: preparar a própria comida permite você escolher melhor o que quer comer. Isso para não se mencionar o quão mais barato é do que ir a um restaurante (especialmente em São Paulo).

E cozinhar para os outros retoma a ideia de transitoriedade humana: meu jantar não é tão bom quanto o Bife de Ojo do 348. Mas é meu. E uma vez terminado, nunca mais comerei algo igual novamente, uma vez que eu incorporei o aprendizado daquela receita tanto quanto aquela receita leva parte de mim. Como eu não sou o mesmo, o prato nunca mais será o mesmo. (Com certa frequência, ainda bem.)

Isso me faz pensar que a culinária é a única arte realmente humana. O ser humano é um animal que cozinha. E até alguém me provar que existe qualquer outra atividade que só os seres humanos fazem, é a melhor definição que eu já encontrei.

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§ 10 Responses to O ser humano é um animal que cozinha.

  • Nina says:

    Adorei as analogias, e tomei um susto.. percebi que ando comendo demais comida requentada ou preparada por outras pessoas…
    Já dizia um grande amigo nosso: aprofunde.

    Botar a mão na massa, ousar criar algo diferente, prestar atenção em cada ato, em cada alimento – tempero – símbolo.. vc foi meigo quando disse que é “quase” bruxaria..

    Na brincadeira de ver nas partes “de fora” uma analogia com o que acontece “aqui dentro”, vale a pena também observar comidas que se repetem, preferências e dificuldades. Um baita exercício.

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    • Anarcoplayba says:

      Dizem (ou pelo menos eu digo) que antes de ir fazer revolução temos que ir limpar a gaveta de cuecas… Acho que antes de pretender qualquer revolução, podemos começar pela cozinha…

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  • Fy says:

    – Isso não é muito surpreendente, se pensarmos que, grosseiramente falando, toda nossa vida é um mero requentar: repetimos opiniões, repetimos sonhos, repetimos declarações de amor, repetimos poses de fotografias, repetimos textos, etc. Nossa vida é um gigantesco F5 e não nos damos ao trabalho sequer de reinterpretarmos.-

    Uau, Man, que extremo e poderoso paradoxo…. este seu comment.

    Follow me: é verdade total que cozinhar é Alquimia, nome sofisticado e descendente da bruxaria. E é alquímica a arte de combinar elementos em busca de transmutação. E veja : ela é obrigatória, sequencial.

    Enfim, tudo o que se mistura adquire novo sabor, nova textura, novas cores, novos paradigmas.

    O próprio ato de pensar é alquímico. Pensar jamais é repetir, é alquimicamente interpretar. Se há uma expressão que pode resumir, na filosofia de Gilles Deleuze, o que permite à vida e ao pensamento se inventarem, esta expressão se chama “síntese disjuntiva” e que eu chamo de síntese automática ou espontânea.

    Síntese disjuntiva é uma ligação de elementos que são aproximados e colocados juntos de uma maneira que inaugura um pensamento ou uma forma nova de existência, pois esses elementos não são homogêneos: eles não podem ser levados à identidade de uma medida comum.

    É bruxaria sim. É alquimia : e não repetição. Van Gogh pensou em um girassol e pintou seu rosto. E girassol e rosto são “elementos” que misturados são o “tornar-se girassol” do rosto. Nem um pouco diferente do casamento ostras e um suave Chablis ou da construção cozinha e pensamentos que vc inaugurou tão bem.
    bj
    Fy

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    • Anarcoplayba says:

      O eufemismo “quase” bruxaria tem razão de ser… e não é a cozinha, são os leitores… É tão triste ver que as pessoas fazem jejuns de sei lá quantos dias para se “purificar” mas sequer cozinham a própria comida. Fazem banimentos e defumações e não arrumam a própria cama…

      A “magia” cada vez mais é enxergada como uma prática que nos tira da realidade ao invés de mudar a realidade. Quando eu comentei na sua thread do facebook sobre “auto-aprimoramento” x “auto-conhecimento” era parte sobre isso… essa é a piada (já meio velhinha): perceber o absurdo e não mudá-lo.

      A cozinha permite isso (desde que empregada com consciência). As receitas são sempre imprecisas: corte uma cebola (em fatias finas ou grossas), doure-a (até qual ponto) acrescente a farinha (peneirada? Por quanto tempo?) e junte o leite (frio ou quente?).

      Essas instruções dão um paradoxo muito legal entre o saber e a ignorância: as receitas dizem muito, mas não dizem tudo.

      E isso deveria ser aplicado também para os livros e qualquer outra forma de conhecimento.

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  • Fy says:

    Quando eu comentei na sua thread do facebook sobre “auto-aprimoramento” x “auto-conhecimento” era parte sobre isso… essa é a piada (já meio velhinha): perceber o absurdo e não mudá-lo.

    ah… vc sabe mto bem a minha opinião sobre estas teorias esquizas e dramáticas sobre superior self – síndromes de perseguição repressoras de ego – e pela busca neurótica – que nunca termina – de algum anjo escondido em algum lugar dentro do “self” … através do circuito sephirótico via crucis .

    – eu chamo este filminho – genial – de a Saga do Conhecimento Interior, tão promovido tanto pela psicologia adoecida quanto pelo misticismo doentio:

    bj
    Fy

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  • Fy says:

    mais fácil:

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    • Antonio says:

      Ótimo vídeo.

      Concordo com a crítica a essa busca pelo “eu” que não acaba nunca. Como bem disse caminho que beira ao patológico.

      Por outro lado, vejo com bons olhos a relação entre autoconhecimento e superação. Nesse sentido, vejo o autoaprimoramento com um viés de superação

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      • Fy says:

        Antonio, a idéia de auto-conhecimento é muito boa para captura mística e psicanalista…

        Outro dia, eu dei uma relida em Demian de Hermann Hesse que eu considero – por ex – um livro sobre auto-conhecimento e negação de dualidades. – Recomendo total!

        Eu até diria que é uma obra-prima em matéria de atravessamentos. Sim, Demian é um atravessamento. Um encontro que triunfa através da suscetibilidade ao encontro, representada por Sinclair. O que só acontece quando não nos damos por terminados. Quando permitimos que encontros nos atravessem e nos produzam, seja através de alertas, de multiplicações, de segundas e terceiras visões, esclarecimentos ou negações. E um tanto mais … em qualquer ocasião.

        É o que eu decididamente entendo como auto-conhecimento. Ou conhecimento. Ou auto-conhecer. Ou conhecer.

        – Por outro lado, vejo com bons olhos a relação entre autoconhecimento e superação. Nesse sentido, vejo o autoaprimoramento com um viés de superação – Claro: e sempre.

        Dispensadas aquelas tenebrosas viagens confusas e esquizofrênicas, através de mirabolantes galhos de árvores mortas, num desesperado ataque ao ego, ameaçados por um subconsciente ensandecido e milenar : fetiche de quem não tem nada a descobrir e considera o mundo e a vida um truque artificial e houdiniano, passamos a nos voltar para a experiência real : a vida e seus acontecimentos, seus encontros, suas imaginações e sua criatividade espontânea. Esta, com certeza nos compõe, nos transforma, nos modifica, nos intensifica quando estamos vivos e suscetíveis à ela: à Vida.

        Sem dúvida, assim como Demian é um destes encontros, a Vida é repleta destes afetos, no sentido Spinozista, cores que nos invadem e transformam em tons todas as outras, contínuamente. Não há um “eu” estático – perfeito e pré-moldado nem azul e nem cinza, à espera de ser encontrado. Somos um contínuo transformar-se.

        Até mesmo Demian, lido anos depois é um novo livro.
        bj
        Fy

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    • Anarcoplayba says:

      Qual a relação do filminho com a questão do incessante auto-conhecimento, Fy?

      Achei fofo, mas não entendi a correlação… =*

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      • Fy says:

        Ok, Man…

        Não há nada de fofo nesta excelente sátira…

        Ela apenas retrata a estratégia esotérica, terrivelmente simplista, aliás, e sua metodologia tão aterrorizante que é até engraçada, construída para centralizar o Poder através do repetitivo e enferrujado mantra que canta a miserável Incompletude humana.

        Um dos vários exemplos – por ex – é a referência à dualidade, tão bem traduzida por serem dois homenzinhos, que corresponde à idéia esquizofrênica simbolizada por Daath que é uma sephira oculta, invisivel, que se encontra entre Tiphereth e Kether – um “nefasto abismo” – brilhantemente exposto várias vzs no filme – que separa a nossa percepção dual da percepção una. “Acima do abismo de Daath” não há dualidade, abaixo do abismo tudo é dual . – muito bem ilustrado pela cova final, onde os dois mergulham e… tornam-se “uno” através do elemento comum: a morte.

        Em Daath se encontra toda a “hipertrofia de toda a ilusão do Universo e de todas as esferas abaixo dele que vao de Chesed a Malkuth”. – não é…? ah ….

        A busca pelo conhecimento pessoal à la psicologia analítica em nada difere das descrições do Zohar em relação à descoberta da Árvore da Vida que permanece oculta desde o “pecado” – e assim como nosso tal de “Self” , só será acessível através e “se”, depois da experiência repetida do sofrimento, do exílio à nossa humanidade, da aceitação de nossa absoluta deformidade platônica, a nossa fé permanecer intacta, e o nosso desejo [ esquizo ] de deus e da verdade permanecer inabalável, … aí… “então” … nos é mostrada a árvore da vida, que não tem nada a ver com a Vida e sim com a morte de tudo o que somos.

        O filminho é um retrato deste caminho: a bad trip – além de corresponder , satíricamente à produção e aos resultados destas inúmeras articulações programadas por religiões e ideologias que se assentam em conceitos vazios, que, após solapados pelos interesses pessoais ( egoístas) dos indivíduos, revelam sua invalidade.

        E retrata super bem a finalidade de imbecilizar que estas instituições sociais que sustentam estes conceitos, seja o estado, a legislação, igreja, o sistema educacional, ou outra instituição que reclame autoridade sobre o indivíduo. Os figuras são seguidore cegos, que obedecem cegamente à ordens sem perceber possibilidades: seguidores de ideologias populares, tais como religiosismos , nacionalismo, estadismo, liberalismo, socialismo, comunismo e humanismo.
        bj
        Fy

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