Tempos Interessantes.

August 7, 2014 § 3 Comments

“Quando nasci, uma velha bruxa, cega de um olho e muito enrugada, colocou seu polegar sobre minha fronte e disse: Eu lhe amaldiçoo a viver em tempos interessantes.” – Vergonhosamente chupinhado de um RPG.

Um dos problemas da Internet é a proporção de Pareto. Por essa “Lei”, 20% de algo é responsável por 80% do impacto: 20% dos cruzamentos respondem por 80% dos acidentes, 20% das pessoas respondem por 80% dos crimes (ou da riqueza), 20% dos livros respondem por 80% do mercado editorial, e por aí vai.

Os leitores um pouco mais críticos podem questionar a validade dessa “Lei”, e confesso que eu mesmo nunca efetuei nenhuma pesquisa ou cálculo matemático para comprová-la. No entanto, confiando nas palavras dos que o fizeram, tal Lei está errada em sua proporção, mas não em seu princípio: Menos de 20% dos eventos são responsáveis por mais de 80% das consequências.

Isso é algo a ser avaliado, notavelmente, quando nos damos ao trabalho de tomar a internet como universo amostral. 80% do barulho é feito pelos 20% mais barulhentos. São eles que vão fazer comentários odiosos e odientos nos blogs e sites de política e notícias. É esse tipo de cara que vai falar que a queda do avião na Malásia é culpa do PT.

Embora isso gere uma distorção, essa distorção não é nova, mas histórica. 20% dos autores são responsáveis por 80% dos movimentos literários e artísticos. J.K. Rowling vendeu (em alguns dos anos nos quais lançou livros do Harry Potter) mais livros que todos os demais autores da Europa. Juntos.

A história não é feita pelas massas. A história é feita pelos estandartes.

E essa é a função da Poesia.

A poesia não entretém, não vende, não dá lucro, não ensina alguma coisa clara nem pretende dar erudição. Ensaios dão erudição. Tratados dão erudição. Poesia dá desejo. E por isso é tão difícil traduzir poesia: é uma projeção do símbolo sobre o som: “Tiger, tiger, burning bright/ in the forests of the night/ what immortal hand or guide/ could frame thy fearful symmetry.”

Agora, para conseguir amealhar seguidores, para cativar as massas, a relação do Poeta com seus leitores não pode ser vertical. Ele capta o que os demais já sentem, e dá então a forma “como foi que eu não pensei nisso antes”. A tentativa de uma relação verticalizada é pretensão orgulhosa. São os fracassados que dizem que “as massas não estão à altura de sua arte”.

Bullshit. O problema não são as massas, é a sua incapacidade de olhar pra outra coisa que não seja a merda do seu umbigo. Babaca.

O artista compõe o estandarte que as pessoas reconhecem como belo e o carrega por um tempo. O Artista Imortal inspira outros a carregar seu estandarte também. Por isso Álvares de Azevedo influencia até hoje.

Agora, reconhecida a função da poesia, torna-se cada vez mais insuportável viver em uma época tão materialista e mesquinha, sem ideais ou ideologias, nos quais a medida da felicidade é consumir e postar fotos das viagens no instagram para ganhar likes anônimos.

O caralho.

Vivemos, provavelmente, em uma das épocas mais idealistas e sentimentais de todos os tempos.

Todos almejam uma vida bela, emocionante, cheia de sentido e realização. As pessoas dão risada das tirinhas e piadas do Dahmer não porque o mundo é frio e egoísta, mas sim porque elas reconhecem como valor um mundo que não seja frio e egoísta. Se não fosse um ideal, dariam de ombros com um resignado e indiferente “e daí?”.

Todos querem ser diferentes, todos querem ser admirados, todos querem um emprego que lhes dê felicidade (ou ao menos dinheiro para serem felizes). Como dito antes de mim: Vivemos num tempo em que alguém compra uma calça de quinhentos dólares e a rasga para dar um visual cuidadosamente descuidado. E para quê? Para impressionar Jennifer.

Todos se empenham em alguma coisa. Querem salvar os cachorros de rua, querem salvar o planeta, querem acabar com o sofrimento animal, querem acabar com o sofrimento humano, querem acabar com a escravização promovida pelo sistema financeiro internacional, querem conhecer mais pessoas, aprender algo novo, mudar de status civil, mudar de status social, mudar de status, se mudar. Todos querem uma outra vida, melhor, mais ampla, mais rica e mais confortável.

A insatisfação é a nossa marca de Caim: Queremos um mundo melhor o tempo todo. E isso é idealismo. Ainda que esse melhor seja um conceito muito arbitrário. Ainda que esse melhor seja muito individualista.

Pra falar a verdade, ainda bem que esse melhor é muito individualista. Querer melhorar o mundo, até hoje, deu merda. A guerra para acabar com todas as guerras deu origem ao nazi-fascismo. A revolução para acabar com os privilégios de nascimento descambou em um período meigamente chamado de “Terror”. A Revolução para acabar com a exploração do homem pelo homem deu na Rússia comunista.

Na atual conjuntura, prefiro um filho-da-puta egoísta a um self-righteous idealista.

E nossa Arte, hoje, reflete exatamente isso: a busca pela liberdade individual a todo custo. Depois do pós-modernismo vem o neo-romantismo e seu idealismo (graças a deus) egocêntrico, no qual todos querem ser mais do que realmente são.

(Tomara que isso vire logo boa literatura.)

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§ 3 Responses to Tempos Interessantes.

  • Fy says:

    Gostei muito.

    qualquer self-righteous idealista é um cansaço … um ridículo cansaço.

    Qto a poesia, concordo – eu também considero uma das poucas coisas do homem que transbordam sem exatamente uma finalidade. Um Transbordar, um ser a mais do que compreende o ser, bem próximo à vontade de potência – natural – poesia em sí mesma : tão bem atravessada pela Vontade de Ser do fantástico Nietzsche. A Vontade de Ser é pura poesia: transborda em todos nós. – Mesmo os que não fazem poesia são poetas e sorte dos que se reconhecem como tal.

    – E sabeis… o que é pra mim o mundo”?… Este mundo: uma monstruosidade de força, sem princípio, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força… uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimos, ou rendimento,… mas antes como força ao mesmo tempo um e múltiplo,… eternamente mudando, eternamente recorrentes… partindo do mais simples ao mais múltiplo, do quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez… esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio, sem alvo, sem vontade… Esse mundo é a vontade de potência — e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência — e nada além disso!” –

    Nietzsche, Fragmento Póstumo.

    bj
    Fy

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    • Anarcoplayba says:

      Já leu “on the philosophy of the composition”, Fy? É do Poe. Ele afirma que a verdade é o prazer do intelecto e a paixão o prazer do coração, mas a beleza é o prazer da alma, e a poesia é o território da beleza.

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  • Fy says:

    o incrível Edgar – hahaha, mas … não lí não este ensaio inteiro não, achei cansativo, até porque sou adepta da escrita livre, sem métodos – mas conheço mais profundamente sobre ele através das críticas, e as melhores giram em torno de uma suposição de que ele o tenha escrito como uma sátira ou um hoax.

    Qto à frase, – super de efeito – é linda, mas perde no contexto de roubar a beleza da humanidade e reinvindicá-la ao clichesismo do divino e da dualidade. E de certa forma até engraçada, o coloca num patamar superior aos que pudessem criticá-lo. ex-machina inteligente.
    Outras críticas tb explicam esta concepção meio mórbida de beleza explicando-a aqui :

    In this case, Poe logically decides on “the death… of a beautiful woman” as it “is unquestionably the most poetical topic in the world, and equally is it beyond doubt that the lips best suited for such topic are those of a bereaved lover.” Some commentators have taken this to imply that pure poetry can only be attained by the eradication of female beauty. Biographers and critics have often suggested that Poe’s obsession with this theme stems from the repeated loss of women throughout his life, including his mother Eliza Poe, his foster mother Frances Allan and, later, his wife Virginia. [ daí… o never more… – hahaha]

    Existe uma frase de efeito tb – que eu gosto muito , e que coloca conceitos como a beleza, o encontro, a alegria, a tristeza , e a Poesia , ao alcance real de nossa humanidade telúrica, tangível e indiscutível…. :

    “I have no right to call myself one who knows. I was one who seeks, and I still am, but I no longer seek in the stars or in books; ” I’m beginning to hear the teachings of my blood pulsing within me” .

    My story isn’t pleasant, it’s not sweet and harmonious like the invented stories; it tastes of folly and bewilderment, of madness and dream, like the life of all people who no longer want to lie to themselves.”

    ― Hermann Hesse, Demian

    bj
    Fy

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