The Torch.

September 2, 2014 § 2 Comments

Wash away all the lines on your face that show how you’ve aged. 

Uma das coisas “interessantes” em corrigir redação de crianças são as eventuais surpresas que elas lhe pregam. Recentemente, por exemplo, li uma redação na qual uma criança recém saída do Ensino Fundamental I mencionava que, qiando ela estava no Fund. I ela gostava de prestar atenção, quando estava indo para a escola, nas pessoas que andavam na rua, e imaginar quem elas eram, o que faziam, de onde vinham e para onde iam. No entanto, quando ela entrou no Fund. II, ela estava tão cansada com a quantidade de tarefas que nem olhava para as pessoas na rua a caminho da escola.

It’s a long way down, your back’s been broken you can’t make the rounds. 

Num primeiro momento, ler isso pode ser engraçado, afinal, oras, é o Fund. II. Que espécies de preocupações uma criança pode ter? Mas efetivamente ela tem essas preocupações. E tudo o que eu tive vontade de fazer foi cantar uma Canção de Ninar e falar que, basicamente, ela entendeu o resumão da vida. Basicamente você vai ter cada vez mais responsabilidades, vai ficar cada vez mais cansada, mais exausta, mais esgotada para pensar nos outros cada vez menos. É, meu amigo… você é um jovem monolito, e a vida é pedrada.

The tables are turned as the litany goes… You’re a rotten old man who’ll be covered in dirt 

As expectativas tendem a se afunilar. Intercalar finais de semana de alegria com semanas de estresse, meses na Europa com anos no escritório, jantares no Fasano com almoços apressados no McDonalds, prostitutas de luxo com a esposa de bom gosto e, se a crise bater forte, uma dose bem forte de religião a cada 6 dias de desespero. De preferência uma religião oriental, dessas que estão na moda.

On your knees and pray to the maker that caused you to bleed

Talvez você sonhe com o passado, quando a vida era mais simples.

Turn back the hands of the clock

Talvez você se abnegue e aceite a vida como “o melhor que deu pra fazer”.

You’re a bitter old man who’s done nothing but work

Talvez você meça o sucesso pela capacidade de resolver problemas e se envergonhe um pouco dos cadáveres na fundação.

Your hands are deformed by the assembly lines

Talvez você se preocupe apenas em fazer o melhor pelos que ama.

You’ve grown cold to the touch of the ones that you love

E talvez você tente ensinar seus filhos a viver.

Ignorance is something you can’t overcome but you’ve passed it on down and that’s something much worse.

E talvez você olhe para os mais jovens e se questione como eles já estão “desse” jeito.

For a bitter young man is now taking the torch.

Resumidamente: Eles tiveram bons mestres.

Silent scorn – you’ve taken it out on the ones you adore inside rage

Aceite que, talvez, se você deixar o mundo, você vai causar menos estrago.

They’ve left you before but they’ll come back again

E talvez as pessoas se lembrem de você bem, afinal, “ele nunca fez mal pra ninguém”.

They’ll pray for you with all their love but this time your indifference just can’t be excused

E, bem, dadas as circunstâncias, não cheirar é melhor que feder.

forced amends, well it’s something you’ll die with but it goes on for them…

***

Hoje eu completo 32 anos.

Toda data simbólica tem algum valor, não em si, mas em símbolo. Afinal, um símbolo é um significante que aponta para um significado. Para se avaliar, portanto, um símbolo, vale uma análise em ambos esses aspectos.

Primeiramente, o aniversário é uma data que se repete anualmente pois é quando o sol volta mais-ou-menos-de-certa-forma para a posição relativa na qual ele estava no momento do seu nascimento. “Mais-ou-menos-de-certa-forma” porque resolveram se preocupar mais com o calendário que com o sol. Nada contra, é só mais um símbolo. Estamos diante do encerramento de um ciclo.

Como em todo encerramento, é hora de passar a régua e fechar o caixa. Olhar para o passado e lembrar como era o tampo antigo.

Obviamente, tal qual a autora da redação lida, é muito sedutor imaginar que o passado era um tempo de felicidade e leveza.

Não era.

Qualquer um que tem a chance de manter um registro da própria vida (quer na forma de diário, quer na forma de blog, como o Anarcoblog e o Malandricus) tem chance de voltar no tempo e ver como o passado era visto quando presente. E quando eu faço isso, tudo o que eu posso dizer é que a Anarcoblogagem está em crise (assim como a Malandricagem), que essa crise é perene, constante, e foi causa e consequência do processo reflexivo que surgiu e se prolongou com esse(s) blog(s).

A Crise era nossa impressão digital e a única coisa que mudou foram as proporções. Pessoas menores, crises menores. Pessoas maiores, crises maiores. E há uma proporção entre as crises (o Fund II é uma crise de verdade para a autora da Redação).

(Infelizmente) não existe um momento de massa crítica no qual as crises, subitamente, parem de surgir. Um grande Nirvana de felicidade pura, sem dor ou sofrimento. Bullshit. Como dito por Mário de Andrade, a vida não tem recompensa, a Vida tem Rendimento.

Tolice idolatrar o passado. Tolice a esperança no futuro. Tanto lá quanto acolá haverá crises.

***

No entanto, aos meus olhos, as crianças têm um benefício gigantesco. Eu chamo de “Memory Span de Peixinho Dourado”. Ralar um joelho é a maior dor do mundo, mas quando passa, acabou. Fazer a lição de matemática é um saco, mas quando acaba, acabou.

Nesse sentido, rancor e ansiedade são as externalidades negativas de nossa maravilhosa capacidade cerebral: lembramos o passado e imaginamos o futuro. E com uma frequência muito grande isso fode a nossa vida mais que um Deputado Federal.

Talvez por isso que tantos mundos dos mortos possuem fontes e cálices e águas e manjares que nos dão as bençãos do esquecimento.

***

Além disso, todo fim é, também, um novo começo. E, como tal, é um ovo de pandora. Pode libertar bens e males (as lendas divergem) mas, indubitavelmente, traze esperança.

E a esperança… Ah, a esperança… A esperança é o que nos salva. E a esperança é o que nos mata.

***

Assim, me aproximo de um momento delicado. Por um lado, é um tremendo desperdício ignorar a gravidez do instante (gravidez, sim, não gravidade, pois é um instante prenhe), mas, ao mesmo tempo, desejar o futuro com base no presente é ignorar que aquele tem o constante costume de surpreender este, de forma que cabe, para o momento, apenas aquilo que parece eterno.

Assim, para os meus 32 anos de idade, desejo transmitir minhas certezas belas, e que minhas convicções sem beleza caminhem comigo em silêncio.

Desejo que minha ignorância seja superada, mas, caso ela não seja, que ao menos não seja ensinada.

Desejo ser capaz de me surpreender com o mundo, pois a surpresa indica falta de preconceitos.

Desejo o amargo, sim, pois tudo o que nasce deve morrer, mas desejo, também, o doce, pois a vida é doce.

Desejo a calma dos monges, não dos que rezam, mas dos que lutam.

Desejo a sorte dos irlandeses, não porque eles não sofreram, mas porque eles sobreviveram.

Desejo a ira dos Anarquistas, pois a vida exige cuidado, mas a ira contra a baixeza não é vício, é virtude.

Por achar tudo isso algo pelo qual vale a pena viver, desejo tudo isso a mim e a todos vocês.

E, por fim, desejo que cada um de nós dê ao demônio aquilo o que ele merece.

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§ 2 Responses to The Torch.

  • Miss Pepper says:

    Belíssimo texto, principalmente a primeira parte dele! Parabéns pelo ano novo e pelo talento em tocar a razão com palavras belas e perfeitamente colocada! Como diz final, desejo-lhe e A calma dos monges, A sorte dos irlandeses e A ira dos Anarquistas!
    Muitos anos de vida e dezenas de livros publicados! ;)

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  • Lívia Ludovico says:

    Combater o bom combate. Terminar a corrida. Manter a fé.

    Eu tenho uma Pitty lindaça pra vc! https://www.youtube.com/watch?v=6qpV_KiB3Gg

    Feliz Aniversário. ;)

    Like

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