Ânsia.

December 3, 2014 § 2 Comments

Eu ensino aos meus alunos que é necessário organizar as ideias antes de escrever.

O meu segredo é que, às vezes, é preciso escrever pra organizar as ideias.

***

O autor brasileiro com o qual eu mais me identifiquei até hoje foi Mário de Andrade.

Admiro mais Drummond. Respeito mais João Cabral. Queria ser Guimarães Rosa algum dia. Mas me identifico muito mais com Mário de Andrade.

Em partes isso se dá pelo fato de que ele, de certa forma, foi um primo pobre da Semana de Arte Moderna. Nunca saiu do País, exceto por uma viagem pela América do Sul (o que, ceteris paribus) é semelhante à minha viagem aos EUA anos atrás. Possuía uma invejável capacidade de paródia e referência (para quem não sabe, longos trechos de Macunaíma foram copiados). Embora não fosse um dos maiores, sua dedicação à Arte compensou um talento natural, até onde localizo, mediano.

Mário não era um virtuose. Ele apenas se dedicou mais que seus pares àquilo que amava.

Some-se isso a um nada civilizado bairrismo e uma não-recomendável iconoclastia, e eu acho que, se eu encontrasse Mário de Andrade na década de 20, eu seria o tipo mais nojento de puxa-saco.

No entanto, eu não encontrei Mário de Andrade.

Daí advém uma alegria sem tamanho ao ter tido o privilégio de ter encontrado em um sebo uma edição (já esgotada) das Cartas de Mário de Andrade a Fernando Sabino.

Como eu sempre digo: eu sou um filho mimado de Deus. Eu não mereço, mas ele me ama.

***

O livro, que terminei de ler há alguns meses, me fez pensar um pouco sobre minha vida de wannabe autor.

***

Em primeiro lugar, impossível não pensar na sorte que é ter um Mestre como Mário de Andrade na escrita. Suas cartas variam da impessoalidade (ao sugerir que Sabino deveria publicar nos livros a idade dele pois, “se ele tivesse 18 anos, seria um escritor de futuro, mas se tivesse pelos 30, deveria deixar a pena, pois esperava-se que, a tal altura da vida, já tivesse mais maturidade”) à extrema pessoalidade (com os mais variados pedidos de desculpas por momentos de destempero para com o mundo).

É possível ter ideia do quanto é um privilégio ter Mário de Andrade te orientando? Abrir uma carta dele? Ter a possibilidade de aprender com um dos maiores?

Não tem tamanho o privilégio de abrir uma carta de Mário de Andrade e ler exatamente aquilo que você precisa.

Por outro lado, as preocupações de Sabino são tocantes: “Devo aceitar um emprego público que me dará tranquilidade para toda a vida? Não é a felicidade inimiga da verdadeira Arte?”, questiona.

A resposta é nada menos do que sincera: “Aceite. Se a felicidade lhe tirar a inspiração para escrever, não és um escritor, e melhor seria que nunca tivesse pego numa caneta em toda sua vida.”

Não se esquece ainda conselhos mais pertinentes, como os tocantes à Arte e Obra de Sabino. Arte é dar a mais adequada forma ao sentimento e, assim, é tanto sensibilidade quanto técnica. Apenas aquele que tanto estudou e praticou sobre a técnica poderia auxiliar alguém e desenvolver sua capacidade de dar forma às inspirações.

***

Nesse sentido, causou ainda mais estranheza ver um Mário de Andrade reflexivo a respeito da própria Arte.

Primeiramente, impressiona vê-lo decepcionado com Macunaíma, talvez, sua obra prima. Segundo Mário, a obra havia sido completamente mal interpretada. Macunaíma deveria ser uma crítica ao nenhum caráter do Brasileiro, nunca uma ode a tal característica.

Pior ainda é descobrir que, ao final da vida, Mário se arrependeu da maior parte de sua obra pois, no seu entender, a Arte deve ter um compromisso inafastável com a Verdade e com o despertar da Consciência das pessoas. Qualquer arte que não tenha como objetivo Libertar, melhor que não tenha sido feita.

***

Me aproximo, creio, diante do encontro de uma estranha sensação de perda.

Quando comecei a escrever num blog, o quase finado Malandricus, tinha como proposta expor minhas experiências pessoais. Algo deveras prepotente aos vinte-e-poucos anos. O problema é que com o passar dos anos, a visão embota e embaça e, subitamente, o empirismo não resolve mais nada. A experiência exige a objetivação, enquanto o pessoal é, por definição, subjetivo. É como pretender expor a escuridão luminosa.

“Minhas experiências pessoais”, portanto, não é uma redundância, mas um oxímoro.

Nada mais natural, portanto, que eu transitasse da pessoalidade à impessoalidade. Nada mais natural que eu saísse do Ciclo de Auto-Destruição dos Forwards para a Casa V, passando sem pestanejar pela Entropia e pela Mecânica dos Fluidos.

O problema é que a Anarquia ostenta duas faces: a destrutiva e a criativa, e sobre as cinzas do mundo pretérito se erige uma nova ordem. Ainda que a essa Nova Ordem seja uma ausência de Ordem.

O trabalho do Anarcoplayba, portanto, foi uma grande traição a mim mesmo. Meu próprio Brutus criado por mim mesmo (como o próprio Brutus). A pretensão de romper com a Ordem, inexoravelmente, cria uma nova Ordem. Não decidir é tomar a decisão de não decidir. A omissão é a ação de não agir. Desordenar é apenas criar uma nova ordem. E isso foi uma pretensão sem tamanho pela qual venho pagando nos últimos 11 anos.

Nietzsche afirmava que aquele que enfrenta monstros deve tomar cuidado para não se tornar um deles. Nesse sentido, o Anarcoblog virou minha Entropia. Minha prisão que impede a recombinação de ideias, uma vez que a iconoclastia, facilmente, se torna um novo ídolo.

E eu não sei para onde ir. As mentiras da Arte são tantas. São plantas artificiais. Artifícios que usamos para sermos ou parecermos mais reais.

Eu não consigo apertar o gatilho da arma na cabeça do panda. O Anarcoblog é minha prisão, mas é uma prisão com barras de ouro e de frente pro mar. Uma prisão bela, e a beleza é a mais insidiosa das prisões. Criei um sistema para não ser escravizado pelo sistema de outra pessoa. Mas ser escravo de si mesmo ainda é ser um escravo.

E acho que esse é o desafio que se desenha: criar uma nova ordem que não se confunda com a rejeição da antiga ordem. Deixar de ser escravo de mim mesmo e me tornar rei de mim mesmo. A diferença é sutil, mas ela existe.

***

“Não enrubeça, Fernando querido, não é preciso tanto. Mas você está atemorizado e acovardado. E tanto, a ponto de se prevenir sobre a possibilidade de abandonar a literatura! Você, que desde os treze anos vem impregnando por fora e por dentro de literatura e da literatice! Você, um técnico, um virtuose e até um malabarista! Deixe, por um momento, Fernando, que eu maltrate você com essas palavras que lhe fedem a insulto. Não são insultuosas, Fernando, mas podem se tornar insultuosas. Serão insultuosas no momento em que você não puser a sua técnica, a sua virtuosidade e o seu malabarismoa serviço de uma coisa que seja pra todos digna e nobre. E não são insultuosas em relação à Marca que você mesmo tomou o cuidado de defender decisoriamente na sua carta, ao reconhecer, numa contradição digna de lhe puxar as orelhas e duma dúzia de palmadas, que a Marca é uma traição, você foi insincero, etc. e tal, mas ‘não no que ela representa ideologicamente’!”

“Você está vendo? Não: Você não está errado, você está acovardado. E a covardia é inútil. Não sei… às vezes eu imagino que Deus deve ser mais esportivo que nós e tomará as coisas e os homens com mais sense of humour. Ou, com mais saúde ainda: mais esportivamente. Os verdadeiros pecados mortais serão em muito menor número do que nós imaginamos. E serão outros. A Marca não é nenhum pecado mortal e trate de não fazer dela um trambolho na sua vida. Reconheça lealmente que, dentro da sua ideologia, a Marca é uma bela coisa. Apenas, feita a Marca, você reconheceu que a ideologia dela era insuficiente em face de Deus e da vida. E resolveu fazer coisa milhor. Você não errou, você vai pra frente. E vai por caminhos inusitados.”

“Suponhamos que você vá cair. Suponhamos que o seu romance futuro seja inferior (esteticamente) à Marca. Primeiro: nunca o será ideologicamente, pra você, desde que você não traia, da mesma forma com que na Marca não traiu. Esteticamente é muito provável que o romance futuro seja inferior à Marca. Esta, meu caro, tem cem anos por detrás dentro da língua e da estética do Brasil. O seu romance futuro suponho que não tem dez, talvez nem cinco. Pois tome esportivamente o seu caso. Sempre a sério, se esbofe, não economize nada, gaste tudo , jogue todas as suas cartas na mesa e não blefe. E si o livro não sair bom, diga: perdi. E comece outra partida. Porém no livro defeituoso ou fracassado você terá um caminho. Na Marca você fechou um beco. Mas estou me repetindo, que muitas vezes já falei isso a você.”

“Mas, pra não esquecer nada: Também o livro novo pode ser um descaminho… Nisto, a sua visita me deixou um bocado de inquietação que a sua carta confirma. Você aqui me falou muito, e insistiu mesmo em preocupações ‘estéticas’ que me pareceram bastante gênero tricô: escrever o livro na primeira pessoa, e coisas assim. Ora, na carta, pra… trair a Marca, você se tomou de amores ‘on revient toujours’ pelos grilos. Ora, carece você não se intoxica muito pelos grilos, por favor. ‘Ideologicamente’ eles são tão insuficientes e tão beco sem saída quanto ‘A Marca’. Si você está de fato disposto a se abrir um caminho seguro para uma vida literária mais utilmente viril: você tem que cuidar muito, preliminarmente, e sobretudo, com o que seu romance novo represente como funcionalidade. Como ideologia. Como assunto. Você carece de uma franqueza, duma lealdade, duma imparcialidade e duma ausência total de complacência pra consigo mesmo, pra evitar todos os mil e um descaminhos dos sofismas. Não se esqueça por favor que você é um ancião de quinhentos anos no vício de uma ideologia. Da ideologia da Marca. Pra abrir caminho, pra se justificar diante de si mesmo, diante da vida e de Deus, você tem de abrir é estrada larga, franca. Beethoven primeiro escreveu A Heroica pra depois escrever A Pastoral. Num caso como o de você, qualquer água-de-rosa é descaminho. Simplesmente porque, por bons que sejam um Oswaldo Alves, um Emil Farhat e 365 outros, você é milhor. E é misterioso como o milhor pode errar mais. Há os que escorregam apenas. Mas os milhores quebram a cabeça. E no caso de você, tudo o que seja acertar no alvo (ideologicamente) ou quebrar a cabeça é nobre, é digno. Escorregar apenas, é água-de-rosa. E no seu caso, o seu maior perigo é ser si mesmo. A tal de ‘sinceridade’ que você invoca é o seu maior perigo. E que sinceridade se você não é você! A sua sinceridade por enquanto é a sua expontaneidade. E a sua expontaneidade  são dez milhões de anos de crimes humanos, dois mil anos de traição ao Cristo, duzentos anos de burguesia capitalista, vinte e um anos de filhinho de papai, quinze anos de aluno de escola e professores que ensinaram de acordo com tudo isso. Isso é sua ‘sinceridade’. E você sabe que ela não vale um tostão. Agora é que você vai construir a ‘sua’ sinceridade, e a expontaneidade de você. Porque agora é que você vai escolher. Até agora escolheram por você. Agora é que você vai saber. Mas pra saber você precisa estudar e refletir muito. Leve três anos pra escrever seu romance novo. Ou cinco. Não faz mal. Mas adquira pelo sofrimento perfeito da análise da vida e dos ‘seus’autores, uma coisa muito mais nobre que a expontaneidade e muito mais espiritual que a sinceridade: a convicção. Uma convicção. Que sejamos inimigos até pela convicção que você conquistar. Que nos odiemos. Mas não se perderá o que há de mais elevado na relação entre os homens, a estima. Não me obrigue mais a lhe dizer tudo isto, que é tão difícil de dizer. Mas quis cumprir na íntegra o meu da imensa amizade que eu tenho por você. Corrija os seus temores. Não tenha temor, tenha medo, susto inteiro, horror é da água de rosa.”

***

Não tem tamanho o privilégio de abrir uma carta de Mário de Andrade e ler exatamente aquilo que você precisa.

Advertisements

§ 2 Responses to Ânsia.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading Ânsia. at AnarcoBlog.

meta

%d bloggers like this: