Aquilo que Cremos.

December 31, 2014 § 1 Comment

A crença, por definição, é irracional.

Se você “acha que”, “acredita que”, “supõe” ou “imagina”, você, por definição, escapou pela tangente daquilo que você sabe e adentrou no reino das hipóteses.

Daí tiramos que o contrário de crença não é descrença, mas conhecimento. Negar a existência de Deus é a crença na sua inexistência ou, para ser mais preciso, a crença de que a ausência de evidência evidencia a ausência.

Mas esse não é um post sobre Deus ou sobre o Diabo, mas sobre a Terra do Sol.

O conhecimento não admite hipótese. Sei que isso parece incongruente, vez que a ciência trabalha, largamente, com hipóteses. Ocorre que o conhecimento científico, nada mais, é a consolidação das hipóteses. O Brasão da Universidade de São Paulo, portanto, é um erro: Scientia Vinces. “Vencerás pela ciência.” A Ciência é a vitória da crença, quando esta deixa de ser contestada e vê sua majestade reconhecida. Somos súditos da Ciência, não seus comandantes.

Tais conjecturas, obviamente, parecem paradoxais. Acaso o conhecimento que possuímos hoje como sólido e imutável, um dia, não passou de crença? Creio que sim. E creio mais: creio que a crença é uma ideia apaixonada. Seria lindo que a Terra fosse o centro do Universo. Portanto, defenderei tal ponto de vista. Mas espere, o Sol ser o Centro do Sistema Solar faz mais sentido, portanto, defenderei tal ponto de vista. Se o modelo precisar ser corrigido, por amor à verdade, que assim seja. Que nos divorciemos das velhas crenças para nos enlaçarmos com novas.

Contudo, há um porém. Sendo nossas crenças frutos de nossas paixões, não raramente as mesmas sofrem de uma inquestionável cegueira e/ou burrice. E como apaixonados, passamos a defender cegamente aquilo em que depositamos nossa devoção, quando não nossos ideais. Eu amaria dar como exemplo a eleição de chefe de estado recentemente ocorrida, mas não pretendo datar esse texto. Creio que ele deve permanecer atual para os próximos meses. Para o presente momento, basta dizer que somos apaixonados por nossas crenças e, portanto, burros por elas. Elas demandam os maiores absurdos e sacrifícios e nós, tolinhos apaixonados, acatamos tais demandas.

Cuidado com as crenças que te apaixonam. Elas podem estar tomando o controle de sua Vida. Orai e Vigiai.

No entanto, as crenças estabelecidas, as certezas, oferecem um consolo claro e inequívoco a respeito do que fazer: o que sabemos nos permite planejar exatamente onde queremos chegar.

No entanto, com nossas certezas podemos chegar apenas onde sabemos e, convenhamos, isso é muito chato. Toda descoberta é fruto da loucura, uma vez que decorre do abandono do conhecido em prol do ainda-por-conhecer. Cientistas são aqueles que perdem a razão estabelecida em prol de uma nova Razão (que talvez venha a ser igualmente temporária).

E esse é o trunfo da crença: o conhecimento nos oferece mapas. As crenças podem nos levar a terras ainda não mapeadas.

E mais: quando falamos da ciência humana, estamos falando das crenças sobre o Homem. E essas crenças são paradigmas em seu duplo sentido: são a régua que nos permite nos medir e a bússola que diz onde queremos chegar. O estudo do ser humano exige, por definição, um ideal do que é ser humano, e esse ideal é uma crença.

Porque aquilo que cremos é o que definimos como rumo.

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