O que nos tornaremos.

December 31, 2014 § Leave a comment

“Eu acreditava que eu seria enterrado a cem metros de onde nasci.”
“E agora?”
“Agora eu estou em Jerusalém e olho para um Rei.”

Último post do ano. Último post de 2014.

Recentemente, conversando com um grande amigo, ele me lembrou do Reveillon de 2004, um ano que deixou um gosto de rola na boca. E pontuou (acertadamente) que dali em diante, as picas não deixaram de acontecer. Grandes amigos morreram e foram enterrados. Grandes amigos morreram por dentro e ainda andam por aí, mortos-vivos, vivendo de ideais alheios, caminhando em busca do conteúdo da cabeça de alguém para se nutrirem, apodrecendo aos poucos. Zumbis. Nossas contas bancárias não alcançaram os objetivos que tínhamos aos dezessete. E efetivamente as ambições não encontraram a realidade.

E, para ser sincero, vi muita gente se ferrando também. Tomando pedrada atrás de pedrada. Vendo algumas pedradas que aconteceram eu começo a entender porque a lapidação era uma pena de morte tão extrema na Bíblia (e ainda é em algumas nações muçulmanas). É pedaço do mundo sendo jogado na sua cara. E de vez em quando dói ter pedaço do mundo sendo jogado na sua cara.

O pior é que a “maré ruim” deu poucas mostras de mudanças. Especialmente no macro: vivemos a maior seca de quase cem anos. Grosseiramente causada pelas nossas picanhas criadas na floresta amazônica. E obviamente não somos muito competentes para usar nossos recursos. Ou os governantes que elegemos não são muito competentes para isso. Nada me convence de que “as coisas vão mudar”. Quer dizer, que as coisas vão “se” resolver. Pra falar a verdade, parece que a (falta de) água vai mesmo bater na bunda.

E acompanhando, em geral e na média, os esforços e sofrimentos de pessoas razoavelmente próximas a mim, fui surpreendido com notícias de uma velha amiga de faculdade, que em meio a problemas de saúde aparentemente sérios (preferi ser discreto e não questionar detalhes) conseguiu perder cerca de dezesseis quilos em coisa de quatro meses. Gente que ficou doente de verdade e se curou. Gente com inúmeras dificuldades e que se superou. Gente sendo, well, gente.

Dizem que os Deuses invejam os mortais por isso: Só os mortais podem se tornar mais do que são.

Obviamente, por um lado, isso é uma vitória estúpida. Se orgulhar de sobreviver a uma doença é tipo se orgulhar de ser atingido por um raio e sobreviver. Não seria melhor não ser atingido pela porra do raio, pra começar?

Mas raios acontecem. Merda acontece. Acontece doença, acontece acidente de trânsito, acontece assalto, acontece bala perdida, acontece carga tributária escorchante. Na melhor das hipóteses, você morre dormindo sem dor. Mas sabendo que o melhor que podemos esperar do final é que uma boa morte venha coroar uma boa vida, as perspectivas ficam, no mínimo, tétricas. E isso pede uma mudança de paradigmas.

Se as tragédias ocorrerão, se elas levarão entes queridos e cobrarão um preço bem caro na conta-corrente da felicidade, torcer para que tragédias não ocorram é estúpido. Torcer para passar pelas tragédias de forma harmônica e bela sim é um ideal.

Que as tragédias ocorram, mas que sejamos maiores que elas.

Que sejamos agredidos, mas não percamos a paz.

Que sejamos derrotados, mas não nos sintamos derrotados.

Que nos desgastemos, mas não percamos a vitalidade.

Que os anos continuem vindo, bons ou maus, mas que não esqueçamos que é uma época linda para se estar vivo.

Que não sejamos nunca arrebatados indefinidamente pelo esquecimento, mas reconheçamos e lembremos por onde andamos, e sejamos capazes de encontrar novos caminhos.

Que sejamos compreensivos com nosso passado.

Que acreditemos sermos capazes de triunfar.

E que nos tornemos mais do que que somos.

Pois as veredas por onde corremos diz o que fomos. Aquilo que cremos o que nos tornaremos.

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