Se cada um fizer o seu…

January 14, 2015 § 4 Comments

Vamos ver se eu consigo escrever sobre isso de forma mais positiva agora.

Recentemente escrevi um texto falando sobre “A Cervejinha do Guarda”.

De forma resumida, a questão é bem simples: para conviver em paz, precisamos da colaboração de todos. Para um assassinato, precisamos de apenas um assassino.

O poder de destruir é muito maior que o de construir. Construção exige cuidado, carinho, atenção, percepção. Não à toa os reis da Grécia Antiga traçavam sua linhagem até Júpiter, não a Saturno.

Some-se a isso o fato de que os players (peço desculpas pelo uso da terminologia de Teoria dos Jogos, mas é apropriada) possuem assimetria de recursos. A Coca-Cola polui muito mais do que você. Muito mais até mesmo que todos os funcionários da Coca-Cola juntos em suas casas. E não interessa quantas árvores você plante, você nunca vai recuperar a área de floresta desmatada pela Kátia Abreu.

O resultado, portanto, é muito simples: Não interessa o quanto cada um é honesto, justo, temente a deus, bom pai, separa o lixo reciclável e o caralho à quatro. Você precisa de UM madeireiro pra foder todos os esforços da sua tarde linda plantando mudinhas no Ibirapuera. Não interessa o quanto o seu prédio separe o lixo, você nunca vai reverter o estrago do inventor do DDT.

Se cada um fizer o seu, cuidar da sua casa, da sua vida, não jogar lixo na rua e respeitar as leis o mundo vai ficar exatamente assim: a bosta que está, já que o fdp que não faz o seu não se contenta apenas em se omitir, mas ainda fode a paçoca.

Ok, Le maison ces’t tombé, não tem mais o que fazer, vamos sentar na frente do PC colecionando likes nos status que compartilhamos enquanto o mundo queima. A humanidade deu errado, que venham as baratas.

Porém, ainda há uma esperança. A assimetria de recursos vale pros dois lados. A Coca-Cola polui mais que todos os seus funcionários juntos. Mas o Bill Gates já doou mais para fins humanitários que qualquer pessoa na história da humanidade. E temos condições de pensar o altruísmo de forma eficiente. Mas pra isso temos que assumir uma postura diferente: não é fazer o seu, é fazer mais do que o seu. Fazer por quem não faz. Fazer o seu máximo possível.

E é aí que a coisa fode.

Fazer o seu melhor, o seu máximo, exige uma bela dose de auto-conhecimento e auto-crítica. Não é o que se quer, é o que se pode. E talvez mais. Dar as moedinhas do console do carro não é grande coisa pra quem ganha mais de R$ 5.000,00 por mês.

Além disso, quanto tempo e dinheiro gastamos com futilidades? O que realmente precisamos? Será que aquilo que tomamos do mundo está sendo passado adiante, de forma mais inteligente e mais consciente?

E por fim, fazer mais que o seu envolve, muitas vezes, romper com o lugar comum. Peter Singer, no vídeo acima, menciona um garoto que pensou em ser médico sanitarista para salvar vidas. Mas depois ele descobriu que trabalhando num banco de investimento poderia doar o suficiente para contratar quatro médicos sanitaristas no meio da África. E fez isso. Médico = profissional bonzinho que salva vidas. Agente Financeiro = filhodaputa cocainômalo que ganha dinheiro especulando. Agente Financeiro que ganha dinheiro especulando e paga meia dúzia de médicos para salvar vidas = um soco na boca do estômago dos estereótipos simplistas.

Se cada um fizer o seu, o mundo vai ficar assim, essa bosta que está. Mas se quem estiver disposto fizer mais do que o seu, talvez ainda haja uma esperança para a humanidade.

Ou melhor, se cada um fizer mais do que o seu, talvez tenhamos uma humanidade.

 

 

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§ 4 Responses to Se cada um fizer o seu…

  • Lucio says:

    Se pensarmos que a coca-cola só polui porque tem gente que consome diariamente alguns litros da bebida, perceberíamos que cada um tem sim muito mais poder do que imagina ter.

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    • Anarcoplayba says:

      1) Você está ignorando que a publicidade é feita para consumirmos e até nisso existe uma enorme assimetria de poder entre publicidade e mercado consumidor.

      2) As pessoas têm sim, mais poder do que imaginam. Mas alguns têm mais que outros. E cabe a quem tem mais fazer mais que o seu.

      3) Só não use esse raciocínio pra se contentar com “fazer o seu”.

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      • Anonymous says:

        Anarco, não gosto dessa idéia de que as pessoas são vítimas da publicidade. Quase todo mundo sabe que coca faz mal para a saúde, e continuam bebendo. Bebem porque acham a bebiba gostosa e vão continuar bebendo.

        Com todo respeito, não me atrai essa idéia de que devemos ser altruístas, fazer o bem ao próximo, fazer mais e mais.
        De uma certa forma, temos a realidade que merecemos.

        Abraço.

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  • Anarcoplayba says:

    “Bebem porque a bebida é gostosa”.

    Sim, é. E é gostosa porque ela toma por base um excesso de calorias que nosso corpo ama há milhões de anos. Assimetria de poder, assimetria de informação.

    Tem gente fazendo fila pra comprar um celular novo porque ele é o modelo novo. Capitalizando em cima da carência humana.

    A publicidade, a filosofia, a religião… várias coisas são mais fortes que nó. Admitir isso é o começo para tomar cuidado.

    Agora, em um ponto eu concordo com você: obviamente temos a realidade que merecemos. Só o que eu estou sugerindo é que façamos por merecer uma realidade melhor.

    Abraços!

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