Ano Novo.

February 8, 2015 § Leave a comment

Minha resoluções de ano novo, historicamente, tendem a dar certo.

Obviamente isso não significa que o ano novo tenha algo especial que faça minhas resoluções darem certo. O ano novo é uma data como outra qualquer, sem nada de especial senão o sentido que se escolheu impor. É tão arbitrário, mas tão arbitrário, que a cada quatro anos enfiam um dia a mais no ano pra corrigir e não foder a paçoca de vez.

O ano novo astrológico, os solstícios e equinócios (que marcam as estações) são datas reais. Você olha pro mundo e elas existem. Hoje é o dia mais longo do ano, a noite mais longa, ou um dos dois dias em que ambos duram o mesmo. Isso faz sentido. Uma mudança de calendário não. Mas ainda assim minhas resoluções de ano novo, historicamente, funcionam.

***

Óbvio que  minhas resoluções não são coisas facilmente inferíveis. Raramente são coisas do tipo “perder cinco quilos”, “trocar de carro”, “conhecer a Suazilândia”, “arranjar uma namorada” ou coisa que o valha. Me parece um desperdício de resoluções.

Temos tão poucos anos pra resolver. Até agora, eu tive trinta e dois. Desses trinta e dois, só desde 2008 eu venho fazendo resoluções de ano novo. É muito pouca coisa. Muito pouco tempo. Ainda tenho que viver em paz, olhar a face de deus, reverenciar o olho de fogo do sol, construir um castelo na lua, dançar tango com a deusa de cabelos de cobre, bater lâminas com o Deus que se rejubila no sangue dos derrotados e contemplar a extensão do reino daquele que vê mais longe.

É muita coisa pra gastar como algo que um mortal consegue. Se é pra ambicionar, que seja algo fora da esfera humana. A Paz de deus, a paixão de Vênus ou a emoção da Lua. Qualquer coisa nesse sentido. Uma boa resolução de ano novo seria virar Shazam: A sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio.

Mas infelizmente não vivemos na época em que gigantes caminham sobre a Terra. Isso foi privilégio de Homero. Talvez tenhamos que nos contentar com a calma dos monges, a sorte dos irlandeses e a ira dos Anarquistas.

***

Como regra de polegar (algo muito mais legal que rule of thumb), me falaram que um bom começo é pensar no seu leito de morte. O que é aquilo que você quer conquistar pra essa vida. Algo que, se amanhã você batesse o carro e ficasse preso nas ferragens sem ninguém por perto, nesses últimos segundo, lhe fizesse sorrir e pensar “encontrei a paz”, “amei ao próximo”, “ajudei meu semelhante”, “mudei”, “contei uma história bela”. Qualquer coisa nesse sentido.

Isso vai colocar as coisas em perspectiva. No leito de morte não rola pensar que “esperavam de mim que”, “ética não era esperado de mim no momento” ou “ninguém nunca vai saber que”. Leito de morte é tenso. É você com você mesmo. Talvez por isso que o último verso (sim, verso é uma palavra apropriada) do “Pai Nosso” seja “agora e na hora de nossa morte”. Na hora da morte a única coisa que se sabe é que a vida passa diante dos olhos.

Que nós não nos envergonhemos de pedidos pequenos.

***

Obviamente, “pequeno” é questão de perspectiva. Perder cinco quilos pode ser questão de vaidade ou retomar o império sobre o próprio corpo. Ser o melhor da sua área pode ser vaidade ou ultrapassar um limite supostamente impossível.

“Impossível é uma grande palavra usada por gente pequena pra viver no mundo em que está ao invés de mudá-lo” e blábláblá.

Perdoar pra uns é natural, pra outros é uma violência. Acordar às seis da matina é um sacrifício ou um prazer. Não comer o pudim é um esforço intangível ou uma decisão simples. Varia. Que bom. Sócrates já falava que Deus dá a rola conforme o cu. Ou coisa parecida. Ou foi outra pessoa. Whatever.

***

O fato é que, graças sejam dadas, os desafios existem e são superáveis. Uma meta por vez. De inverno em inverno. A gente vai melhorando.

É tão bom que eu estou cogitando começar a incluir outros anos novos no meu calendário.

Tem o civil, o chinês, o astrológico, o celta, o judeu e o civil de novo. Cinco. Cinco resoluções. Imagina o quanto melhor pode ser uma pessoa com cinco resoluções por ano? Muito melhor. E com a chance de escolher uma por vez pelos meses que se seguirão. É pra ter esperança. Quase como ter várias mortes pra refletir sobre. Só que sem aquela coisa chata de morrer de verdade e tal.

Cinco objetivos pra atingir. Mesmo que pra descobrir que eles eram parciais, pequenos, egoístas e mesquinhos.

Porque o bom de alcançar um objetivo pequeno é descobrir que ele é pequeno.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading Ano Novo. at AnarcoBlog.

meta

%d bloggers like this: