Meu Arco.

March 13, 2015 § 1 Comment

Este é o meu arco. Existem muitos como ele. Mas este é o MEU arco. Ele é o meu melhor amigo. É a minha vida. Eu devo ter maestria sobre o meu arco assim como eu devo ter maestria sobre a minha vida. E eu vou.

***

É meio tosco começar um texto com uma mera paráfrase de “Meu Rifle”, mas é pertinente. Chegou hoje o meu arco. O primeiro arco que eu comprei (o outro foi herança de um projeto do meu tio). É simplesinho, coitado. Feito por um chinês, pago em dólares australianos e enviado por airmail. Taxado em cinquenta reais (o valor declarado era de vinte dólares) e feito em madeira, fibra de vidro e couro, ele não tem nada de mais.

Exceto que a tração dele é de oitenta libras. A maior tração de arcos comerciais modernos.

Oitenta libras é algo próximo a trinta e cinco quilos.

Para eu conseguir atirar com esse arco, precisarei segurar trinta e cinco quilos em uma corda em três dedos. É bastante, mas é o meu arco. E eu tenho que dominá-lo.

***

Acho que o feito físico mais impressionante que eu já fiz foi levantar noventa quilos em um braço.

Pra um culturista isso não é nada.

Eu estava descendo uma cachoeira com um amigo. Precisávamos pular sobre um vão. Passei primeiro, dei a mão para ele pular. Ele escorregou e eu o segurei. Com uma mão o levantei até a pedra. Não era um vão muito alto. Dois metros até a água, no máximo. Tinha correnteza, mas não tinha muitas pedras. Ele não ia morrer. Acho.

Foi fácil. Provavelmente porque foi o peso mais importante que eu já segurei.

***

Uma vez estávamos numa estrada e o rio lateral transbordou. O carro começou a ser arrastado. Saí do carro para evitar que ele fosse arrastado. Segurei ele na correnteza. Não foi tão difícil também. A correnteza não estava tão forte assim. Mas tinha gente no carro que não sabia nadar. Então não tínhamos muita opção.

Deve ter sido o maior peso que eu já empurrei.

***

Em um torneio de Karatê, que eu estava perdendo vergonhosamente, o adversário resolveu que ia ser uma boa ideia tirar um sarrinho da minha cara na luta.

Não foi.

Decidido a ser desclassificado, coloquei toda a força em um chute só. Acertou no meio do peito dele. Ele voou na terceira fileira da arquibancada. Uns cinco metros pra longe de onde eu chutei ele. Bem longe. Eu diria que nunca chutei com tanta força, mas eu não chutei com a perna. Chutei com o ódio.

***

Já carreguei quatro caixões. Do primeiro amor, do pai, da avó e do pai de um irmão.

É pesado. Muito pesado. Mas não foi sofrido. Prefiro que se alguém tiver que carregar um caixão, esse alguém seja eu. Sempre que possível, espero poder tirar esse peso (literal e metafórico) dos ombros das pessoas que eu amo.

Por isso que vou me esforçar para enterrar todos vocês. Espero ser o último a ser enterrado (ou morrer tentando). Porque ninguém deveria ter que enterrar alguém que ama. Então espero livrar vocês disso.

***

Meu arco tem uma tensão de oitenta libras. Trinta e cinco quilos. Pra segurar em três dedos, tracionar nas costas e controlar nos braços.

É fácil. Mais fácil que ter a cabeça erguida.

Só preciso de um motivo.

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