La Petite Mort.

April 18, 2015 § 2 Comments

De Cruzeiro para São Paulo (e vice-versa), 17 de abril de 2015.

Caro Irmão de Armas,
Boa Noite.

“Ka Mate, Ka Mate, Ka Ora.”
“Morrer, Morrer, é Viver.”

Sei que, novamente, soa estranho qualquer espécie de saudação que sugira um período do dia (ou da noite) em uma carta aberta que, obviamente, permanecerá exposta ao escrutínio público nas mais diversas horas do dia ou da noite. Distração da minha parte, talvez pensem. Preocupação irrelevante, talvez você me critique. No entanto, devo deixar explícito: é noite, mas o Sol brilha.

Peço perdão pela vaguidão específica de tal afirmação, posto que a antítese demanda uma síntese, no caso, entre literalidade e metáfora. Seria Noite lá fora e Dia em mim? O contrário? A noite seria uma metáfora para a introspecção e o Sol para a vitalidade? O explícito da resposta tornaria essa missiva deveras menos interessante, de forma que me furtarei a tal explicação.

E me dou ao direito de não explicá-la pois esta carta esta prenhe de explicações. Talvez seja essa a grande função das cartas: explicar uma história a alguém.

E as explicações que acho que devo dizem respeito à quase morte deste blog.

Há meses não escrevo e, se escrevi, não escrevi com constância. A explicação que me sinto compelido a dar é que minha vida anda mais confusa que o Leste Europeu.

Resolvi que esse ano, depois de um breve momento de preparo e silêncio, eu assumiria as aulas de redação propostas por um grande amigo em Cruzeiro. Isso me rende 600 km de estrada por semana, dez horas de aulas na segunda-feira e uma rotina ainda mais atribulada. Paralelamente a isso, peguei mais matérias do que nunca na Faculdade e todos os demais projetos ainda estão vivos. Da Astrologia à produção de Roteiros. Uns mais vivos. Outros menos.

Essa explicação, no entanto, seria meia verdade. E como toda meia verdade, é igualmente uma meia mentira. A verdade inteira é que o Blog está morrendo porque eu estou morrendo.

Peço deesculpas pela pausa dramática, mas ela se fez necessária. Não pense de forma literal, como se fosse afligido por alguma doença sem cura. Nem pense que é de forma metafórica, tal qual toda mudança é uma espécie de morte. É algo mais literal, mas menos dramático.

Efetivamente, a rotina à qual me submeti é desgastante. Seiscentos quilômetros de estrada. Pouco sono. Pouco tempo. Muito trabalho. Tais flagelos impõe-se com um extremo catabolismo em mim. Estou cansado, desgastado e sem tempo. Uma semana caí doente. Noutras quase caí, mas me recuperei. Minha gargante sofre com dez horas de aula non stop. E me ausento do convívio dos meus entes queridos.

Trata-se de um efetivo desgaste físico. Nisso posso afirmar claramente, estou me matando um pouco todas as vezes que vou para lá.

No entanto, um efeito colateral se fez presente. Paradoxalmente ao desgaste, um sem precedente nível de vitalidade se fez presente. De onde concluo: Eu me sinto mais vivo quando estou me desgastando.

Sim, eu sei que parece paradoxal. Mas digo mais ainda: tal paradoxo é que impediu a percepção prévia de tal fato.

Durante os anos de treinamentos de artes marciais me senti mais vivo quanto mais desgastado.

Durante a faculdade, me senti mais vivo quanto mais desgastado.

Durante o Rugby costumávamos dizer que a melhor cerveja é a que vem depois de um jogo desgastante.

Por isso, inclusive, me lembrei do vídeo que encabeça esta carta. O Haka Maori. A Dança Maori.

À época, quando primeiro vi o vídeo, me questionei sobre o significado dos versos de abertura: “Morrer é Viver” ou “A Morte é a Vida”. Isso não fazia sentido. Tratei, portanto, em minha prepotência, de reinterpretar: O poeta deve ter querido dizer “Matar é Viver”. Faz sentido, afinal, é uma dança de guerra. Os selvagens querem apenas matar seus inimigo. É disso que a canção falou pra mim por tantos anos.

Tal conclusão hoje me envergonha. Primeiramente, por quebrar a primeira regra da interpretação de texto: se o autor quis dizer, por que não disse? E, em um segundo momento, por ter incorrido tão prontamente em um pecado mortal: recortar o mundo para que ele coubesse em mim ao invés de me abrir para o que o mundo pudesse me ensinar.

Hoje tudo parece tão óbvio, como num caleidoscópio de ideias: Morrer é viver, pois é se desgastando que se vive, é morrendo que se vive, tal qual uma vela que se consome enquanto queima. A busca de uma vida carregada de sentido é a busca de uma morte carregada de sentido. Esse é o símbolo do Cristo Crucificado, essa é a admiração que devemos ter: encontrar aquilo pelo qual vale à pena morrer e, por isso, se desgastar.

Obviamente (e por que não dizer, tristemente) as coisas não se resolvem com o encontro dessa verdade. Deus é aquele que está sendo. E nós somos sua imagem e semelhança. Estamos em constante movimento e a verdade de amanhã (muito provavelmente) não será a verdade de hoje.

No entanto, o mundo não muda. O mundo munda. E essa é a sensação que eu queria explicar, que eu queria compartilhar com você: a certeza carregada de sentido que a felicidade não se encontra no anabolismo, mas no catabolismo. Que a Felicidade é território do Sol, sim, pois ele sangra luz por todos os poros, mas também é de Saturno,  velho homem que carrega a foice. E, por que não dizer? Até mesmo de Júpiter, que doa mais energia do que recebe.

A morte em si não é felicidade, posto que isso seria mero fetichismo de fuga. Mero escape da mais assustadora responsabilidade que é criar uma alma: estamos morrendo o tempo todo. Se não direcionarmos nossas mortes, é perigoso que elas se tornem um sacrifício no altar errado. Cuidado. Como a estrada me disse: Anos e anos na correria faz leva e traz.

O catabolismo, bem direcionado, intenso e inteligente não destrói. Constrói. Seu corpo diz isso para você quando você treina. Você deveria ouvir o que ele lhe diz. Pois essa é a morte que constrói.

Talvez, por isso, em francês, orgasmo se diga “a pequena morte”.

Abraços de Guerra,
Anarcoplayba.

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§ 2 Responses to La Petite Mort.

  • Lívia Ludovico says:

    Escreveu tudo isso pra dizer q está transando mais, porra!? :P

    Mas, sério, vc sabe q precisa de pelo menos 6h de sono recuperador, né…

    Te cuida. ;)

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  • Anarcoplayba says:

    Não, manoa… Eu preciso de três horas por até três meses. Depois começa a dar ataque psicótico.

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