Um pouco de primeira pessoa.

June 25, 2015 § 12 Comments

Há algumas semanas eu fiz uma postagem no facebook que despertou certo estranhamento na minha taimelaine e a preocupação de amigos e amigas próximos.

Na referida postagem, eu mencionei que “Bondade é a putaqueopariu. Humildade é a minha bunda. Amor ao próximo é o caralho.” e que “Vou readequar as ambições: se eu conseguir sair dessa vida com PACIÊNCIA me dou por satisfeito.”

Várias pessoas se preocuparam legitimamente com isso, acreditando que eu tenha estourado porque minha vida estaria uma merda e eu teria entrado em desespero. Isso é meia verdade: minha vida está uma merda mas eu não estou em desespero.

Mas, mais importante que isso, a postagem não é sobre a minha vida, meu problemas ou qualquer outra coisa do gênero. Para falar a verdade, é sobre o aprendizado que, para variar, vem dos lugares mais estranhos do mundo.

***

“Me perdoa, a vida é doce.”

Anos atrás o Lobão soltou essa música, uma das minhas favoritas em termos de composição, e que traz uma das imagens mais geniais da música brasileira: “sirenes que se atrasam pra salvar atropelados que viveram depressa demais”.

Viver depressa demais é um maravilhoso eufemismo pra morrer.

***

Esse semestre eu fiz algo imprudente, peguei dezoito créditos na faculdade e estou ralando a bundinha pra conseguir cumpri-los. Por quê eu fiz isso? Porque eu quero me formar logo, pra começar a dar aulas logo e poder desenvolver decentemente meu trabalho no mundo.

Resultado? Trabalhei mal, comi mal, treinei mal, me fodi de verde, amarelo, branco e azul anil. Minha resistência foi pras cucuias. Minha vida pessoal foi pra pqp. Até minha saúde ficou comprometida.

Tudo isso porque eu tentei viver depressa demais.

***

No entanto, preparando um trabalho de faculdade, me deparo com um texto no qual o autor menciona que a educação mudou. Antes, acreditava-se que uma faculdade formaria profissionais. Hoje se entende que isso acontece de forma contínua. Todos precisam estudar continuamente. Daí a proliferação de pós-graduações caça-níquel.

Ou seja, se a proposta educacional do mundo hoje é a formação continuada, é ESTÚPIDO eu ter pressa para terminar a faculdade.

Melhor eu ir com mais calma e desenvolver um bom trabalho do que fazer essa coisa idiota que é viver da promessa do futuro.

***

Um grande amigo meu, do meu time de Rugby, se formou na faculdade uns doze anos antes de mim, e me deu o prazer de jogar rugby com ele. Aos quase cinquenta anos, o preparo físico dele não era mais o mesmo, então ele não corria muito em campo. Mas ele se posicionava muito bem, portanto, sempre era um jogador chave para o time.

Quantas décadas de rugby ele precisou pra aprender isso? Pra aprender a estar no lugar certo e na hora certa?

***

Quanto tempo eu precisei de estudo, treino, poesia, trabalho pra perceber que talvez eu estivesse fazendo merda ao tentar viver depressa demais?

Dava pra adiantar todo esse sofrimento?

Não, porque não é porque as coisas não acontecem quando eu quero que elas não acontecem no tempo certo.

***

Minha letra ficou razoável nos últimos seis meses. Durante a infância era ilegível. Por mais que eu me esforçasse, não tinha resultado.

Eu aprendi a andar de bicicleta com dez anos. Por mais que eu me esforçasse antes, não tinha resultado.

***

Desviar de um trem-bala é fácil. É só sair dos trilhos.

***

Quando aprendemos algo de verdade? Quando as dezenas de peças se encaixam? Quando que acontece de o trabalho de faculdade conversar com a música no rádio, com a aula na segunda à noite, com o jogo de rugby e o livro de cabeceira? E tudo isso forma um todo que conversa entre si?

Fácil: na hora certa.

***

O post, portanto, não foi sobre raiva ou desespero. Foi sobre um breve momento de clareza que me fez me sentir tapado em seguida: Como demorou tanto tempo pra eu perceber que estava sendo duro demais comigo mesmo? Que estava exigindo de mim mais do que eu conseguia fazer? Quanto sofrimento e danos isso me causou? Demais.

Se eu fosse mais paciente comigo mesmo, talvez eu tivesse aprendido antes.

Se eu conseguir sair da vida com paciência, me dou por satisfeito.

***

E mais importante do que isso: Paciência é humildade de saber que ocasionalmente não cabe a você decidir o tempo das coisas. É bondade para não exigir de nada nem de ninguém mais do que esse possa dar. E amar ao próximo pois sabe que “ele está no tempo dele” e tá tudo certo.

Se eu sair dessa vida com paciência, eu me dou por satisfeito. Porque se eu sair dela com paciência, eu terei tudo que meu tamanho me permite almejar hoje.

***

Amém. Shelá.

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§ 12 Responses to Um pouco de primeira pessoa.

  • carol says:

    Engraçado como as pessoas só se chocam com o que não tem a menor importância. Gostei da tua frase no Face. certamente as pessoas não gostaram, porque elas adoram ter penas de si mesmo, se sentirem injustiçadas, se ofenderem por tudo, tem que ser ‘bonzinho” com todos….
    E se vc, está vivendo no caos, que ótimo; o Nietzsche tem um pensamento maravilhoso que diz que é no caos que nossa vida se renova, que as melhores coisas podem ser construídas.

    Adorei o texto. Escreve sempre!

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  • Lívia Ludovico says:

    Deus é devagar, seu moço. ;)

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  • birdy says:

    Acredito sim, que os comentários dos amigos tenham sido bem intencionados (afinal, vc joga uma “bomba” destas no face! Triste seria se ninguém tivesse dado a mínima! rsrsrs). Infelizmente, não tenho fones de ouvidos, então não consegui ouvir a música.

    Mas adorei toda a questão da paciência.
    Dos estudos. Da bicicleta. Do rugby. Da formação contínua.
    Até hoje não entendo a ansiedade humana. Eu mesma, sou uma criatura ansiosa por natureza e não deveria ser.
    Afinal, é fácil saber quando as coisas acontecem: na hora certa.

    Te desejo muita paciência (e sabedoria também)
    E se a sua vida está uma bosta, na hora certa ela vai melhorar
    (esta ultima frase eu escrevi para mim)

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    • Anonymous says:

      Ansiedade? Menos mal. Hoje temos tantas alternativas: Padres, pastores, gurus, psicanalistas, psicólogos, psiquiatras.

      Já filosofia, antropologia, sociologia, isso,não, pois só enfraquece a gente!

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    • Anarcoplayba says:

      Obrigado, Birdy… e alguém que começa um blog em pleno 2015 merece meu respeito… deixa eu fuçar um tiquinho lá…

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  • Anonymous says:

    Eu me pegunto como os seus amigos tem paciência com um cara presunçoso como vc. Há quanto tempo vc escreve esse blog pra ter pouco mais de 50 likes no FB.Chatice organizada em capítulos.

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    • Anarcoplayba says:

      Meu querido, se eu quisesse likes, entrava no instagram, que é mais fácil, mais rápido, tá na moda e não exige que as pessoas leiam.

      Agora, eu não sei nada sobre você, só que a sua noção de “sucesso” é meio tosquinha.

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      • Anonymous says:

        Anarco, esse anonymos 2 só pode ser alguma mulher que vc deu um fora ou um homem com muita inveja de vc. hahaha.

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      • Anonymous says:

        Eu vou ler e trollar outro blog, meu querido. Anarquia por aqui, só no nome mesmo.

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  • Anarcoplayba says:

    Trolls… trolls everywhere.

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