Paredes.

July 20, 2015 § 2 Comments

Na última semana passei alguns dias pintando as paredes do apartamento para o qual minha mãe irá mudar (e eu irei junto).

Durante algum momento da tarde, minha avó mencionou que “para alguém que nunca pintou uma parede, até que estava ficando bom”. Isso me deixou levemente ofendido porque, primeiramente, estava objetivamente bom e, além disso, eu já havia pintado umas quatro ou cinco casas na vida, entre apartamentos, casas e quitinetes.

Sim, objetivamente quatro ou cinco casas é pouco.

Mas quantas paredes uma pessoa pinta na vida? Se pensarmos que normalmente as pessoas pintam paredes quando mudam de uma casa ou mudam para uma casa, é uma conta razoavelmente fácil. Assumindo que a pessoa não pague alguém para fazer esse serviço por ela. Não acredito, portanto, que o número de paredes que uma pessoa pinta na vida seja muito maior que o que eu já pintei.

***

Eu acho esse tipo de trabalho bem legal e, se não tivesse um mundo de coisas que eu preciso e quero fazer, faria esse trabalho de bom grado. Quem trabalha com a mente deveria fazer mais trabalhos manuais pra descansar. E vice-versa, embora falar de vice-versa seja quase desmesurado, uma vez que as pessoas fazem muito mais trabalhos mentais que manuais atualmente..

Pessoalmente, acho essa desconexão com os trabalhos manuais algo negativo. Sim, de fato, é racional, uma vez que é mais inteligente pagar alguém para fazer um isso quando as minhas horas seriam mais lucrativas em outro trabalho. Mas é parte do meu mal colocado senso de romantismo a ideia de fazer mais as coisas que constroem a sua vida: cozinhar, pequenos reparos, limpezas, etc. Acho que isso serve bastante pra colocar nossas perspectivas no lugar.

Mas isso é só um mal colocado senso de romantismo.

***

Pintar paredes também tem um simbolismo interessante. Pessoas não pintam paredes para deixar marcas, pintam para apagar marcas. Via de regra para apagar as marcas de outra pessoa ou as próprias e, assim, deixar a casa novamente virgem de história.

É algo um tanto quanto higiênico, sim, tal qual lavar as roupas que alguém usa. No entanto, não deixa de ser uma tentativa de apagar uma história.

Me lembro de um amigo de infância que, quando ia mudar de casa (a casa onde cresceu para a casa própria da família), ganhou do pai latas de spray para pixar o nome na velha casa. Era algo inócuo, uma vez que a casa seria pintada, mas ainda assim uma tentativa de deixar uma marca indelével em uma casa que se apresentaria virgem para o próximo morador, tal qual alguém que evita falar dos relacionamentos antigos em um encontro amoroso, como se fosse virgem de afeto e tivesse nascido quarenta e oito horas antes.

***

Pintar paredes é quase o diametralmente oposto de pintar um quadro, uma vez que aquele objetiva apagar marcas e este pretende criar marcas únicas e individuais e representativas de algo que apenas aquele ser humanos naquele momento poderia fazer.

***

É… acho que pintei paredes demais na vida.

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§ 2 Responses to Paredes.

  • Gueixa says:

    Sobre guardar lembranças.
    Mesmo que se deposite, ou pincele, muitas demãos de tinta nas paredes de nossa vida, as lembranças estarão guardadas na memória de quem viveu entre elas. Ainda que se aplique gelo.
    E sempre podemos deixar um colorido mais alegre. Memórias a serem eternizadas podem ser escolhidas.

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  • Fy says:

    – Hi Man , bem interessante seu texto.

    Me fez lembrar uma citação de Herbert, que já me fez pensar mto…

    • A process cannot be understood by stopping it. Understanding must move with the flow of the process, must join it and flow with it.

    [ – The First Law of Mentat, quoted by Paul Atreides to Reverend Mother Gaius Helen Mohiam – ]

    … às vzs, resignificar é sim, mais importante do que apenas significar.

    Mas mesmo assim, é preciso ter cuidado… – “buscar sentidos” – “significar contínuamente” – me parece sempre como correr atrás de um ponto final. Interrompe o processo, interrompe as sinceridades imediatas, o movimento, a criação, a contra-efetuação: o devir-ativo.

    Every day, waking up is to paint walls – isn’t it? – by the way, we have a lot of colors … not just merely those of our grandparents.

    bjs

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