A Metamorfose.

August 18, 2015 § Leave a comment

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco deputado do PMDB. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o bem assentado terno cinzento dividido em riscas de giz, sobre o qual a pasta dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras notas de cem reais, que eram miseravelmente finas, escorregavam-se diante de seus olhos.

Que me aconteceu? – pensou. Não era um sonho. O gabinete, um vulgar gabinete humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de anotações de propina: Samsa era deputado da base aliada, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.

Mostrava uma senhora, de casaco vermelho, rigidamente sentada, a saudar a mandioca!

Gregor desviou então a vista para a janela e deu com o céu azul – ouviam-se os carros em Brasília passando pela avenida e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? – cogitou. Mas era impossível, estava habituado à posição de aliado e, como deputado da situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por manifestar uma posição ideológica, tornava sempre a rebolar, ficando aliado. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver seus colegas debaterem, e só desistiu quando começou a sentir na cueca um ligeiro comichão de dólares que nunca antes experimentara.

Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Conchavar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do lobbysta propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a corromper, preocupado com as ligações grampeadas, com a Polícia Federal e com as reuniões irregulares, com interesseiros casuais, que são sempre novos e nunca se tornam íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na gravata; arrastou-se lentamente sobre as costas, – mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas notas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gelado.

Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de viver em Brasília, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de civilização. Há outros corruptos que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o Congresso, de manhã, para tomar nota das propinas que recebi, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu partido: era logo despedido. De qualquer maneira, era capaz de ser bom para mim – quem sabe? Se não tivesse de me agüentar, por causa dos meus doadores, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o Presidente e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a um Ministério em plano elevado e falar para baixo para os coligados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter legislado o suficiente para pagar o que os meus doadores me cobram – o que deve levar outros cinco ou seis mandatos -, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o congresso fecha na Quinta.

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