Feliz Aniversário, Anarco.

September 2, 2015 § Leave a comment

Caro Anarco, esse post deve lhe alcançar no dia do seu aniversário, tal qual uma carta numa garrafa. Não é uma carta muito longa, nem muito boa, uma vez que ela está sendo escrita meros três dias antes do seu aniversário. A garrafa também não é das melhores. Não um Beaujolais, nem uma Möet-Chandon. Mas é por uma boa causa. Dois dias atrás fui surpreendido com a pergunta sobre como eu estava me preparando para o seu aniversário de 33 anos e a resposta é simples: Não estou.

Sim, isso é estranho. Na verdade, estranho mesmo é que eu sequer havia percebido que seu aniversário estava tão próximo assim. Normalmente isso não acontece. Se eu tivesse que arriscar uma causa, não arriscaria uma, mas duas. A primeira é que a minha vida está (como sempre) ridiculamente corrida. Então entre as viagens para Cruzeiro, Taubaté, Caçapava e São Paulo, sequer percebi o tempo passando.

Uma segunda é que, pela primeira vez em anos (talvez em uma década) não percebi o Inferno Astral. Sério. Historicamente o último mês antes do seu aniversário é tenso. Esse está sossegado. Em paz.

***

Chaves

Um dia atrás (agora quatro dias atrás) você postou essa foto no facebook. Imprudente, posto que estava bêbado. Deveria tê-la guardado para esse post. São seus molhos de chaves. Normalmente você usa todas juntas. Da direita para a esquerda, é a chave de Cruzeiro, a de Caçapava, a de Sampa e a de uma Escola. Talvez seja besteira, talvez fosse a cabeça de um bêbado… mas te chamou a atenção… de todos os molhos de chaves, o de Sampa é o que tem menos peso.

Quem tem olhos para ouvir e ouvidos para ver que ouça e veja.

Não, pera, é o contrário.

***

Durante anos você, em alguns dos seus brindes, desejava a todos os brindantes a Calma dos Monges, a Sorte dos Irlandeses e a Ira dos Anarquistas.

Isso obviamente está na lista das coisas que você com frequência fala e que ficam apenas meio ditas… e a outra metada cala.

Toda vez que você pensa na calma dos monges você pensa nos Shaolins, não nos beneditinos. A calma de um monge pronto para quebrar o mundo em dois e cortar as estrelas fixas com um par de facões para alcançar a Deus. Qualquer que seja esse Deus. Ou ainda a calma para se queimar em praça pública em algum momento de protesto. Às vezes isso não significa nada. Às vezes isso derruba um governo. Será que algum dia você terá a plena calma de morrer por algo que valha a pena? E de viver por algo que valha à pena? Sim, pois, afinal, viver por algo que vale a pena parece mais difícil do que passar um dia numa cruz, três dias numa cripta e depois ter as aleluias e hosanas por toda a eternidade. Viver por algo que vale a pena… that’s tricky.

A sorte dos irlandeses é pior ainda. Primeiro porque é um ditado popular que perdeu o sentido no tempo. Originalmente a sorte dos irlandeses era puro azar. Apenas. Um esquema meio Josef Climber: Fome, peste, guerra, migração, subdesenvolvimento, mas ainda vivos. Tipo “Viu que sorte? Ele foi atingido por um raio e sobreviveu!”. Não, brother, sorte é não ser atingido por um raio, pra começar. Mas raios acontecem. E se eles devem acontecer, ao menos que sobrevivamos.

E a Ira dos Anarquistas é a Ira contra aquilo que merece morrer. Não disse aquilo que desejamos que morra, não disse aquilo que odiamos. Disse aquilo que merece.

Tudo morre. Cedo ou tarde. E a morte não é castigo ou prêmio. Ela é. Merece morrer não quem é um canalha, ou quem está sofrendo. Merece morrer que chegou à própria hora. Ao próprio tempo. Saber que o tempo que você deseja não é o tempo correto é onde nos perdemos. Tudo morre. Mas não quando você quer.

Como todo brinde, é um desejo. Você deseja que sejamos capazes de voltar nossas armas contra a opressão, mas que o fazendo, não odiemos, mas estejamos em paz (pois a cólera contra a injustiça também faz a voz ficar rouca e o ódio contra a baixeza também endurece os rostos). E se sofrermos derrotas, que sobrevivamos.

Esse vem sendo seus brindes. E demorou muitos anos, mas eles começaram a virar realidade. Você teve que brindar muito para conseguir (Não eram porres, eram desejos), mas, hoje você percebe pequenas vitórias. Agradeça por ter sido capaz de enxergar nas mentiras uma estrada pra verdade.

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Você sabe que corre um tremendo risco pretendendo alguma espécie de melhora real na sua vida, não? Pretender que, em algum aspecto, aquele novelo de medo e ódio dentro do peito… afrouxou… é algo deveras prepotente. Haverá quem, com certeza, te acusará de prepotência. Um crime de fato vergonhoso, uma vez que representa não apenas fraqueza, mas também falta de conhecimento a respeito da própria fraqueza.

Mas há décadas você vem lutando por isso. E as pequenas vitórias devem ser brindadas também.

Entretanto, superada essa batalha, as próximas se aproximam. Quais os próximos brindes? Quais os próximos desejos? É comum nos banquetes e nas comemorações, de copos cheios e no calor das carnes se tocando, que esqueçamos que o sol nascerá de novo e, com ele, novos desafios. Sim, porque o sol é sempre aquele que traz trabalho e desafios.

***

Paradoxalmente, creio que nos últimos meses encontrei a paz por meio do trabalho. Não que seja um trabalho especial e único e que nada no mundo seja mais importante do que isso. Não é. É apenas que eu não ando com tempo nem pra dançar comigo mesmo, quiçá para me desesperar. Se eu ganhei algo esse ano foi apenas a possibilidade de me desgastar carregando de sentido. That’s good enough for now.

***

É comum tomarmos cuidado com as coisas mais importantes. Afinal, se julgamos algo importante, temos medo de perder. Simples assim. No entanto, as coisas mais importantes, mesmo, não são frágeis. A Lua e o Sol continuam inteiros e belos, quase alheios aos nossos dramas e humanidades. Se algo pode ser desrespeitado, talvez não mereça cuidado. Paradoxal, não? Cuidamos do que é importante, mas o que é importante de verdade não necessita de cuidado. Ou como disse um velho amigo “parei de lutar por ideais que precisam ser defendidos”.

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Em Musashi surge o cotejo entre a Espada e a Agricultura. A Espada depende apenas do seu próprio esforço. A agricultura depende do mundo. Qual a hora de plantar? A de colher? A de adubar? Pergunte para a lavoura e ela lhe responderá. Tenha paciência, ela é a ciência da Paz.

A laranja não amadurecerá mais rápido porque você está batendo nela.

***

Ninguém é tão pobre quanto o homem que precisa encher a própria taça. Acho, portanto, que no fim um brinde é um momento coletivo. Então seria errado desejar para si algo que você não quer para os outros. Então, aproveitando esse momento. Aproveitando o novo ciclo, esses são os meus desejos para você:

Fale sempre a verdade, não porque mentir seja errado ou feio. Não é. Uma mentira bem colocada é uma obra de arte e a mentira é a única liberdade. Eu desejo que você fale sempre a verdade porque a mentira é a arma do fraco e eu desejo que você seja forte.

Sendo forte, desejo que você seja compreensivo. Compreenda os momentos de fraqueza do mundo e os seus próprios, pois força sem compreensão é tirania, e o tirano não compreende e assim lhe falta sabedoria. E eu desejo que você seja sábio.

Sendo sábio, desejo que não seja omisso nem ausente. Pois a omissão e a ausência são marcas de covardia, e eu quero que você tenha coragem. É preciso ter coragem. E coragem é agir com o coração.

Desejo que seus olhos se abram, suas rosas floresçam, o sol sempre nasça dourado e você sempre enxergue a justiça.

E como sempre é hora de rever os velhos hábitos,

Um brinde aos amigos ausentes,
Um brinde aos amores perdidos,
Um brinde à estação das lutas,
E que cada um de nós dê ao mundo exatamente o que ele merece.

Amém.
Shelá.

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