Um texto longo que ninguém (espero) vai ler sobre o ENEM.

October 25, 2015 § 2 Comments

Pois bem, passou o Enem e agora minha taimelaine tá bombando de memezinhos feministas a respeito de Simone Beauvoir na prova do Enem.

 

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A respeito da prova, em primeiro lugar, nada contra a luta pela igualdade de gênero. Pessoalmente eu não acredito que os gêneros sejam iguais, mas acredito que eles devem ser tratados equitativamente. Existem falhas ainda, mas estamos melhorando. Entretanto, eu discordo das ações afirmativas como um todo. Por exemplo, no meu entender de jurista, a Lei Maria da Penha se aplica também para defender o homem em casos de agressão. São casos mais raros? Vamos assumir que sim, mas o que importa é combater a violência em geral. Pelo menos na minha opinião.

Dito isso, o tema de redação NÃO foi um absurdo. Nem a questão a respeito dos movimentos feministas. AMBOS os temas abordados são uma mera análise de questões de fato do mundo. VOCÊ NÃO TEM QUE SER MACHISTA OU FEMINISTA PARA PERCEBER O MUNDO. O cara pode ser o ser humano mais misógino do mundo e ele TEM que saber que existe uma discussão enorme a respeito da violência contra a mulher e ações afirmativas. NEM QUE SEJA PARA DISCORDAR.

Você pode defender o que bem entender, mas defenda com inteligência e conheça a opinião contrária.

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Por outro lado, devo deixar novamente claro, eu nunca gostei do Enem.

Eu considero o Enem uma prova secundária em seu aspecto técnico, que privilegia elementos abstratos do processo cognitivo ao invés do conteúdo. Na Faculdade de Educação menciona-se que isso se deve ao fato de que o Governo pretende avaliar de forma homogênea o país e, para isso, tem que lidar com desigualdades sócio-econômicas. Para evitar distorções, ao invés de avaliar o conteúdo se avalia a capacidade de correlacionar informações. É algo válido, mas eu discordo.

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Na minha opinião a escola tem basicamente duas funções: mostrar pro aluno os unknown unknowns e dar para ele repertório.

Os unknown unknowns são as informações que o aluno não sabe que não sabe. Na Teoria dos Jogos são três tipos de informações: o que você sabe, o que você sabe que você não sabe e o que você não sabe que você não sabe. O que você sabe é onde você está bem. O que você sabe que você não sabe é onde você pesquisa ou procura um especialista. O que você não sabe que você não sabe é onde você precisa tomar muito cuidado para não fazer merda.

Usando uma metáfora: Ao entrar em uma sala você pode ver os móveis e evitá-los. Se a luz está apagada você sabe que normalmente numa sala existem móveis, portanto, é bom tomar cuidado. Agora se naquela sala existir um alçapão é algo inesperado e desconhecido. E é nisso que você se fode.

Ou seja: esse é mais um glorioso dia da minha vida no qual eu não usei Báskara pra nada… mas eu sei que Báskara existe, posso procurar na internet ou posso perguntar pra alguém que sabe. Não saber que Amoníaco com Água Sanitária faz gás mostarda é perigoso pois eu posso fazer merda sem nem saber.

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Além disso a escola oferece repertório ideológico para o aluno pensar o mundo. Se ele não tem conhecimento a respeito dos demais que pensaram o mundo antes dele, dificilmente vai conseguir compor ideias próprias. A esse respeito, vide Everything is a Remix.

Portanto, se eu não avalio o conteúdo, eu não avalio se aquela criança tem repertório intelectual pra pensar o mundo. E isso é ruim. É priorizar pessoas que apenas conseguirão responder ao mundo se houver um manual diante deles. Isso leva a uma sociedade no qual um aluno de Ensino Médio garantidamente possui nível de Ensino Fundamental, um Universitário possui nível de Ensino Médio, um Mestre possui nível de Universitário e um Doutor possui nível de Mestre.

E junto a isso, a prova de redação do Enem é a única que pede proposta de intervenção. Então pedimos a crianças sem experiência de vida e sem conteúdo teórico que sugira uma solução para um problema no mundo. É um estímulo ao imbecil com iniciativa.

Ou seja, a meu ver, é uma prova que não cobra coisas importantes (conteúdo) e demandam um posicionamento a respeito de uma questão complexa que os alunos (me perdoem) ainda não possuem conhecimento de mundo pra possuir. Resultado? Chovem propostas do tipo “o Governo deveria fazer uma Lei para” ou “o Governo deveria investir em”.

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No entanto, o Enem se tornou o principal meio de ingresso em universidades federais. E uma coisa eu digo, enquanto professor, eu não sou pago pra discutir a realidade, eu sou pago pra resolver um problema: colocar meus alunos nos melhores vestibulares do País. Se o Enem é a maior porta de entrada, automaticamente os alunos (e professores) se prepararão mais pra ela. Nada mais natural.

Assim, se o Enem é uma prova com falhas conceituais, estimular os alunos a se prepararem pra ela é estimulá-los a se preparar pra uma prova com falhas conceituais. Algo perigoso. Não é um desastre e não é terrível, pois estamos falando de uma ciência humana, onde os seres humanos que farão a diferença. Se os alunos saírem do Ensino Médio despreparados a culpa não é do Enem, é do professor que não o preparou. (Ou seja, eu.)

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Só que existe mais um problema e ele é abordado no que eu chamo de Aula Zero do meu curso de Redação: Vestibulares não selecionam os melhores alunos. Eles selecionam um PERFIL de aluno. O cara que passou no ITA (cuja prova tem Exatas, Português e Inglês) não tem o mesmo perfil do cara que passou na Poli (que cobra todas as matérias no Vestibular) ou da Unicamp (que tem um vestibular muito mais “humanista”). São Perfis diferentes que são preferidos por Universidade diferentes.

As três maiores escolas de Economia do Brasil são USP, UNICAMP e PUC-RJ. Cada uma segue uma linha ideológica distinta. As três melhores faculdades de Direito do País são a USP, o Mackenzie e a PUC-SP. Cada uma segue uma linha ideológica distinta. Porque essa é uma das funções da universidade: pensar o mundo, discordar, discutir, possuir linhas de pensamento que se batem, se digladiam, vencem e perdem. O pensamento PRECISA de discordância. Sem discordância vivemos numa idade média ou numa ditadura (não precisamos de choque no saco e pau-de-arara pra isso).

E quando unificamos o processo seletivo, unificamos o pensamento.

Não existem mais perfis dos alunos que entram em Universidades Federais. Existe perfil. Todos fazem a mesma prova, estudam as mesmas matérias e treinam o mesmo estilo de prova. E os alunos que entrarem serão os que farão a pós-graduação lá e virarão professores (Ah, a geração incestuosa nas universidades…). Sem Autonomia Universitária para a preparação de provas não há autonomia na escolha de perfis de alunos. Isso tende a homogeneizar os perfis universitários.

Discute-se muito hoje na Universidade a dificuldade em se pesquisar assuntos diferentes porque os Professores possuem linhas de pesquisa homogêneas. Isso é ruim. Não se traz ideias novas, incensa-se pensadores tradicionais e se quebra a voz discordante.

Todos amam citar a frase acima do bigodudo e falar de poesia, artes e espiritualidades. Mas ninguém gosta de lembrar dela quando um “reaça” fala que o país está indo a caminho de uma crise. Nessa hora é um bando de derrotista, com complexo de vira-lata, que não gosta de ver pobre na universidade. Quando uma espécie se reduz demais entende-se que ela está ameaçada de extinção porque não existe mais diversidade genética para garantir resistência a doenças e elementos nocivos. Quando as ideias se reduzem a um tipo só é a inteligência que fica ameaçada de extinção.

Ou seja, nada contra Hume. Mas será que não seria legal uma prova que também cita Bacon?

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