Quem matou a poesia?

February 17, 2016 § Leave a comment

Uma das perguntas clássicas nas aulas inaugurais que eu dou é “o que é poesia?”. Essa pergunta é uma puta de uma falta de sacanagem com os alunos. Eles não tem condições de responder o que é poesia. E a julgar pelo grupo de “poesia” que eu participei no FB, poucas pessoas conseguem. Era foto de cachorro, foto de avó, selfie com as tetas espremidas no decote e duck face e foto de artista de holywood, tudo isso com legenda “minha paçoca não é pura poesia?”, “minha avó é a maior poesia que eu já conheci”, so on and so on.

Sem entrar no mérito do valor do lirismo, isso traz em si um problema simples: se tudo é poesia, nada é poesia, e a palavra se esvai de significado, tornando-se irrelevante. “Ei, me ajuda a coisar o negócio?”. Tipo isso.

A melhor definição de poesia que eu achei foi “poesia é uma projeção da forma da língua sobre o conteúdo”. Ignoremos piadinhas sobre a forma da língua e como ela se projeta, a poesia demanda um objetivo. Ninguém escreve (boa) poesia sem querer. “Nossa, levantei, entrei no banho, escorreguei no box e pá! Compus um soneto!” É tipo engravidar por acidente. A mina está descendo uma escada, escorrega e cai montada em cima de quem estava passando embaixo. Que falta de sorte. O carro colidiu com um caminhão de transporte de sêmen. E foi uma porrada só.

Se para escrever é necessário um objetivo, o problema é que para ter um objetivo alguém precisa de uma razoável dose de fé. Sim, fé. No sentido ruim. Dogmático. Acreditar que algo é bom e que isso é imutável. Escolher escrever algo é pretender que dali a anos aquilo ainda será valioso. Pois as palavras voam, mas os escritos permanecem, como dito pelo meu veterano de faculdade Michel Temer. (E eu ainda não sei se ele ser meu veterano é motivo de orgulho. Talvez para alguém como eu, seja.)

Acho que esse é o maior problema atual do blog. Eu esperava que se eu pensasse direito o mundo. Pensasse muito. Entendesse cada vez mais, um dia eu poderia pegar minha biblioteca de certezas e usar apenas referências bibliográficas (de preferência no formato da ABNT, afinal, pra alguma coisa aquilo tinha que servir) para responder minhas dúvidas. Ou ainda usar um esquema meio que de Commom Law. Aprendida a lição, é só aplicá-la no resto da sua vida.

Mentira.

Infelizmente não existe saída pronta. Nem bolacha de água e sal é só água e sal e pretender ter alcançado um momento de certezas a respeito da vida é pretender abandonar aquilo que chamamos humanidade. Uma vida plena é carente de certezas. Talves as certezas sejam o colesterol da vida: Tem que ter, mas tem que ter baixo e do tipo bom. Mas talvez até mesmo na certeza da incerteza eu esteja errado.

O problema é que o “tudo que sei é que nada sei” é uma filosofia de vida linda. Até a página dois. (Talvez por isso Sócrates tenha morrido por causa da bebida. Ambos.) Meio difícil construir alguma coisa baseada nisso. “Sabe, eu pensei bastante e acho que cheguei a uma conclusão importante a respeito da qual eu posso certamente estar errado, por isso vou tomar o cuidado de expor e publicar de forma a garantir que eu possa deixar bem claro uma opinião a respeito da qual eu não tenho confiança alguma.” Sim, é tipo isso escrever um blog. Acho que por causa disso que eu enveredei pela ficção recentemente. É uma das poucas coisas que permite alguma estabilidade. Só a mentira não muda, porque ela não precisa corresponder à relidade. Só quem mente não precisa mudar.

Óbvio que chamar a arte de mentira é uma falsidade. A Arte é verossímil, não é verdadeira. Serve para contar uma verdade que esqueceu de acontecer. E se a arte não precisa de vínculo com a realidade, inesquecível a canção: “As mentiras da Arte são tantas. São plantas artificiais. Artifícios que usamos para sermos ou parecermos mais reais.” Nada garante que a Arte seja feita para o mundo. Em verdade, a maior parte da “Arte” “Produzida” hoje em dia é prostituição. Dos peitos espremidos nas selfies aos versinhos de pé-quebrado que querem chamar a atenção e assim tentar passar adiante os genes. E a arte pode ser ruim, pode ser presunçosa, pode ser elitista, pode ser popular, pode ser tudo… mas não pode ser interesseira.

Fatalmente, a arte que pretende vender algo é má arte. Arte politizada normalmente é mais política do que arte e é incensada pela ala ideológica representada. Toda arte transmite um ideal. E quando esse ideal é egoísta, o artista não deveria nem ter pego numa caneta, pra começar.

Acho que é por isso que ando escrevendo tão pouco.

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