Minha faca.

April 25, 2016 § Leave a comment

Cheguei em Cruzeiro hoje, depois de uma semana que envolveu, na falta de um, dois foras por whatsapp. E descobri que meu avô meu deu uma faca de presente. Ele me mandou um áudio avisando que ela estava numa caixinha no alto de um armário. Disse que não sabia se seria muito útil, mas que talvez servisse pra churrasco ou coisa do gênero:

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Não sei se meu avô sabia o que estava fazendo. Mas junto com essa faca nova de churrasco, um brinde, estava essa faca velha e maltratada:

antes

Essa faca velha e maltratada foi a minha primeira faca. Comprada em 1996. Vinte anos atrás.

Nesses vinte anos (como parece óbvio) eu a perdi de vista. Eu havia comprado, na época, para acampar com meu pai. Não é uma faca muito boa. A marca é Tramontina (nada customizado, ou de alguma cutelaria profissional). O desenho dela é meio tosco. O Cabo é em plástico (nada de osso de Cervo ou coisa que o valha). Mas é a minha faca.

***

Anos atrás eu fiz uma paródia do poema “My Rifle”, o “My Knife”.

This is my knife.
There are many like it.
But this one is mine.
My knife is my best friend.
It is my life.
I must master my knife as I must master my life.
And I will.

***

Quando eu recuperei minha faca dei uma olhada boa nela. Tinha umas manchas de ferrugem, causadas pela Água, um denteado FEIO na lâmina e bastante marca de uso. Parece que, sem eu saber, deram uma bela zoada na minha faca. Mas agora ela voltou pras minhas mãos. E agora eu tenho as ferramentas necessárias para arrumá-la.

Desci para a oficina. Minha primeira preocupação era em consertar aquela marca grosseira de denteado. Como se tivessem usado ela pra cortar um prego ou algo que era duro demais, sujeitando-a a algo para o qual ela não fôra feita.

Quando a lâmina é fundida, ela passa por um tratamento térmico. Primeiro você aquece o metal ao rubro, no Fogo, e depois esfria rapidamente, na Água. O choque deixa o aço duro. Para ser útil, ele passa por um aquecimento moderado, para relaxar. Sem isso, qualquer choquezinho quebra ele.

O correto seria eu tirar o tratamento térmico, voltar ela para o formato original e depois temperá-la de novo. O problema é que ela já tem um cabo, para manejar a faca com tranquilidade, e isso me faria perdê-lo. Eu poderia até tentar fazer outro, mas o controle que o cabo oferece é tão importante quanto o fio da lâmina.

Dei uma marteladinha para quebrar a marca e passei no esmeril, molhando bem com Água para garantir que o aço não perdesse a têmpera. Depois lixei para tirar a ferrugem e as marcas. Aço bom enferruja. Armas têm que ficar longe da Água. Só aço ruim, morno, nem quente nem frio que não sofre com a umidade.

Outro problema é que o Esmeril desbasta o metal, mas não presta para dar Fio. Fio se dá na Pedra. Simples assim. Água, Pedra e Paciência. Isso é que garante o corte da arma: passar repetidamente e com calma pela mesma Pedra.

Terminada a afiação, tentei lixar e polir a faca para deixá-la espelhada, como nova. Mas não deu… Precisaria de muito tempo e muitas lixas diferentes. Me contentei com deixá-la brilhante. Afinal, é uma faca, não um espelho. Por fim, passei uma camadinha de óleo pra proteger da umidade futura.

depois

***

Minha faca é minha vida. Pode não ser um espelho, mas consigo me enxergar nela.

Quem tiver ouvidos que ouça.

 

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