O Prêmio pela Bondade.

July 10, 2016 § 2 Comments

A pergunta que mais destroça religiões é “Por que coisas boas acontecem para gente ruim?” e sua gêmea “Por que coisas ruins acontecem para pessoas boas?”. Gosto de pensar qu isso vem de um inerente e mal colocado senso de justiça humano ou da nossa vontade desagradável de antropomorfizar tudo.

Esperar que o Universo lhe trate bem porque você é uma pessoa boa é esperar que a chuva não molhe os injustos ou que o Sol não brilhe para os maus. O Sol nasce para todos e a chuva, resumidamente, cai em quem está na chuva.

Isso é fácil de se pensar quando falamos em Sol, Chuva, Verão e Inverno. Mas menos fácil quando falamos em um câncer, uma demissão, um acidente de carro, um infarto, um estupro ou uma leucemia numa criança de oito anos. Sim, é ruim. Não, não é punição. Se morrer fosse alguma punição não seria algo tão democrático (talvez a única coisa realmente democrática).

Os Católicos costumam responder a essa pergunta sobre coisas ruins com pessoas boas com um dos maiores clichês teológicos possíveis: “Deus tem planos e eles são insondáveis”. Bom, isso é problemático porque é ma ofensa àquele mandamento lá de não ter imagens de Deus. Pretender que Deus tem planos é achar que Deus tem interesses, vontdes ou o que quer que seja. Como se Deus tivesse realmente curiosidade pra saber o que você faz no sábado à noite, sua safadeenha.

Outro clásico é o famoso “tudo acontece por uma razão”. E com isso eu concordo. Burrice, por exemplo, é uma razão muito comum. Mas isso não responde. Se eu quebro meu pé bicudando uma pilastra, a causalidade é deveras evidente, coisa que não acontece quando um membro da família morre de repente.

Uma das minhas respostas favoritas ainda é a dos antigos cabalistas, que tiram D’us da parada e resumem a uma frase curta e hermética: “O Prêmio para a Bondade é a Bondade e a Punição para a Maldade é a Maldade”. Meu professor de Literatura Hebraica falou isso com um elevado ar professoral (sorry pelo trocadilho) e complementou “vocês conseguem imaginar como é ruim ser ruim?”.

Eu gosto da frase e desgosto da interpretação. Muito bonito, muito fofo, muito cuti cuti, mas não se sustenta. Olha para o mundo e veja se pessoas “más” (peço desculpas pelo aparente maniqueísmo, mas destaco que ele é apenas aparente) não se regojizam com sua maldade. Se regojizam. Um clássico das aulas de medicina legal é o prazer da confissão, quando criminosos contam o crime com detalhes cênicos, como se estivessem revivendo o momento do crime e reaproveitando-o. Não se trata apenas de cimes passionais, mas também de criminosos profissionais, como assaltantes a bancos, que se orgulham de seu profissionalismo.

Malandros se aprazem em serem malandros. Corruptos se aprazem em serem corruptos. Caridosos se aprazem na caridade. E por aí vai. Sem punições. Sem julgamentos. A vida segue e não há nada de novo sob o Sol. Apenas uma verdade que segue triunfante:

O prêmio por ser quem se é é ser quem se é.

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§ 2 Responses to O Prêmio pela Bondade.

  • LU says:

    Anarco, querido, que texto delicioso de ler.

    Coisas ruins acontecem com todos porque é da vida. E o que é ruim? uma doença pode ser uma grande chance de mudança, transformação ou, para outras, um martírio sem fim. ás vezes uma demissão é a melhor coisa que pode acontecer com alguém. O que é ruim ou bom, vai da potência de cada um.

    Beijo, seu lindo

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