Stranger Things is an Anagram to Stephen King!

July 30, 2016 § Leave a comment

Ou quase.

Ou “O que a Augusta tem a ver com Netflix.”

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Na Década de 2000 a Rua Augusta, em São Paulo, era parte da “Boca do Lixo”. Uma área de botecos, puteiros, putas de rua e drogados. Ok, ainda é uma área de botecos, puteiros, putas de rua e drogados, mas os drogados são filhos da Classe Média-Alta fumando maconha e cheirando cocaína, não os mendigos crackudos. Os botecos, salvo raras exceções, viraram botecos sujos com preço de limpinhos. E as prostitutas e puteiros estão cada vez menos presentes. Se não me engano uns dois ou três puteiros tradicionais foram incorporados em prédios residenciais de classe média-alta.

E tudo isso teve um estopim: Vegas.

O Vegas era uma balada que abriu em um determinado momento da década de 2000 (não, não vou procurar datas. Isso é um blog, não a wikipedia.) e foi um sucesso. Captando o público “alternativo” e gls (hoje lgbtt) a casa foi um sucesso e abria de quarta a domingo. E pra uma casa noturna, abrir de quarta a domingo é bastante coisa. Subitamente a Augusta entrou no circuito underground de baladas. A rua que antes era alternativa de lazer de Office Boy querendo gastar o salário no puteiro virou ponto de artistas, publicitários, atores, e demais profissionais ditos “criativos”.

Um dos efeitos do Capitalismo e da Livre Concorrência é que todos querem ganhar dinheiro. Portanto, boas ideias tendem a ser copiadas à Exaustão. Nos anos que se seguiram, inúmeros outros barzinhos, pubs, casas de show, baladas and whatsoever abriram na região, tirando a Augusta do roteiro underground de baladas pro roteiro mainstream. Sem uma gota de esforço estatal a região se revitalizou. Os aluguéis aumentaram, a segurança aumentou e o que antes era falta de opção para muitos se tornou opção para poucos: morar na Rua Augusta. Por ironia do destino, os aluguéis subiram tanto que o Vegas, pioneiro da revitalização, fechou suas portas por não conseguir mais arcar com tal custo.

Esse efeito foi estudado na Inglaterra, em bairros que deixaram de ser “ruins” e se tornaram referência cultural. De forma resumida, as ondas de consumo seguem um caminho padrão: Um grupo pequeno que quer se diferenciar dos demais. Em seguida isso vira uma moda em um nicho específico. Tempos depois a moda se populariza e alcança toda a sociedade. Em breve a moda vira mainstream e logo o grupo pequeno que quer se diferenciar lança uma nova moda. Indie Rock, óculos de armação grossa, barba e bigode, camisetas com ícones pop da década de 80/90, Rua Augusta, etc. É quase uma Lei da Natureza Humana, disponível para quem souber usar.

***

O último grande sucesso do Netflix (e do Universo da Cultura em Geral)  foi “Stranger Things”. Uma série produzida pelo próprio Netflix que paga tributo e homenagem aos filmes da Década de 80. Os Goonies, ET, Carrie, Conta Comigo, and so on. As referências vão desde a abertura que se vale de uma tipografia que sugere Stephen King a uma menção explícita a esse autor em um determinado episódio. Há também referências gráficas aos Langoliers em “Uma Fenda no Tempo” e outas dezenas de sugestões.

Tal “exagero” nas referências não é um problema porque a série é boa e as referências efetivamente bem feitas e acabam não pesando. A série não é ótima, não é maravilhosa, mas é boa. Cria-se um suspense bom, o Drama funciona bem, os personagens, ainda que caricatos, amadurecem e a história é bem contada. A série funciona bem, mas não é algo que vai ser lembrada daqui a cinco anos como algo maravilhoso e que precisa ser assistido de novo como Breaking Bad (mas talvez eu pague a língua), portanto, o sucesso alcançado precisa ser melhor explicado. E ela fez o sucesso que fez pelo mesmo “Efeito Augusta”.

Assim como na vida real, a Internet possui um grupo pequeno que faz muito barulho. São os fanboys que querem que as obras que eles gostam façam sucesso e tratam de espalhar isso para todos. Nada contra ser fanboy. Eu sou fanboy de uma pá de coisa.

Ao bater nessa “classe” da Internet, as obras podem ser aceitas ou rejeitadas. Mas se forem aceitas, terão propaganda gratuita. Especialmente na Internet, em que a quantidade de produtos é infinita, tendemos a seguir indicações de pessoas que sabemos que possuem um gosto parecido com o nosso. Breaking Bad ganhou propaganda gratuita dos que trabalham com literatura, artes e cinema em geral. O Roteiro é perfeito, ponto. Isso fez com que algumas pessoas fizessem propagando, inúmeros fossem assistir e, desses inúmeros, alguns odiaram e outros amaram. Mas fez sucesso.

Stranger Things mirou outra base de fanboys. Nerds que tiveram a infância na década de 80. A série permitiu lembrar, de forma nostálgica, todas as coisas que deram um “boom” naquela época: videogames, hq’s, RPG, ET, etc, etc, etc. Conclusão? A Série ganhou propaganda gratuita. Vi pessoas que falaram que a série “ganhou eles no primeiro episódio, com os garotos jogando RPG”. Nada contra. Mas me parece pouco pra ser ganho assim, num primeiro episódio.

Toda a Série me deixou com a impressão de que é um frankenstein de séries, filmes e conceitos feitos para agradar a audiência. Ser um frankenstein não é ruim. O próprio monstro é legal pakas. (E não me encham o saco falando que Frankenstein é o cientista, não o monstro). A série ficou até algo parecido com os filmes do Tarantino, se o Trantino não fosse um psicótico doente que gosta de virar o mundo de pernas para o ar. Mas a marca da produção artística atual é a releitura e as referência. Fazer uma obra baseada em referências e releituras tende a agradar o público (vide Star Wars e Tarantino).

Eu não considero ruim quando alguém cria uma obra pensando em agradar a audiência. Também não considero automaticamente bom. É apenas um fato. Baseado em algo muito próximo de uma Lei Humana. É saber usar as cordinhas inconscientes que nos movimentam. Nada contra cordas. Mas gosto mais delas conscientes.

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