Militares.

March 9, 2017 § Leave a comment

Somos todos saquinhos de sangue.

Muito se discute a respeito de alma, humanidade, auto-consciência e transcendência. Vida após a morte, senso de propósito e realização pessoal. Hedonismo, sacrifício e sacro-ofício.

Mas somos saquinhos de sangue.

Talvez sejamos algo mais. Talvez tenhamos uma alma imortal, descendente direta do Criador, imortal e tão velha quanto o Universo em si.

Mas somos saquinhos de sangue que, uma vez furados, vazam até esvaziar.

Todas as discussões, ambições, desejos e ideais têm esse denominador comum: um coração, dois pulmões, cinco litros de sangue. Perde um litro, cai a pressão. Perde dois litros, entra em choque. Perde dois litros e meio, desmaia e morre.

A história, no fim, é escrita pelos saquinhos de sangue que não esvaziaram. Livros, fé, ideais, bandeiras são apenas uma forma que as ideias encontraram de pular de saquinho de sangue em saquinho de sangue. Tal qual um vírus se propaga. E a militarização é a administração dos saquinhos de sangue.

Toda a militarização tem como fundamento a uniformização e equalização dos saquinhos de sangue. Os saquinhos de sangue têm que correr juntos, porque, em pelotão, os saquinhos de sangue são mais eficientes. Os saquinhos de sangue têm que coexistir sem grandes sobressaltos e percalços. Os saquinhos de sangue têm que ser proficientes com as mesmas armas, comidas e equipamentos. E acima de tudo, os saquinhos de sangue têm que se sentir parte de uma massa.

Por isso os saquinhos de sangue são colocados em um treinamento, recebem número, uniforme e ordens de higiene, corte de cabelo, barba. Quanto mais uniformes, mas os saquinhos de sangue se mostrarão dispostos a abrir mão da própria segurança em benefício de algo maior. (Maior, não melhor.)

Quanto menos identidade, menos conflito. O anonimato total permite que o saquinho de sangue faça qualquer coisa, por mais indizível. O carrasco usa máscara por isso. O franco-atirador usa a balaclava por isso. O anonimato torna uma vida desumana mais suportável.

Ultimamente venho me sentindo muito bem por trás da barba, do terno e da gravata.

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