São Paulo, 95 de dezembro de 2016.

April 5, 2017 § Leave a comment

Caro Irmão de Armas, boa tarde.

Há tempos não escrevo. Há tempos não lhe escrevo. Há tempos não me embebedo na liberdade criativa que apenas a ficção pode nos proporcionar. Vergonhosa é a ausência de quem sente vergonha de se ausentar e ainda assim o faz.

Gostaria de me desculpar (novamente), mas não o farei. Mais vergonhoso seria fazê-lo. Desculpas desprovidas da intenção de não repetir o erro são inócuas tanto quanto mentirosas. A ficção não é uma mentira, mas uma verdade inventada. Saber a verdade e se afastar dela sim é um pecado.

A verdade que ora se apresenta, por sua vez, ainda que aparentemente nova, é mero desdobramento dos últimos acontecimentos. Por mais de uma vez eu disse que 2016 foi o ano em que virei um Dothraki. E os últimos meses me levaram novamente à essa conclusão.

Não pretendo aqui invocar a pretensão de andar a cavalo brandindo uma espada curva, queimando vilas e pilhando pessoas, embora isso me encha de nostalgia da década de 20. 1620, quando pilhávamos a cavalo a Ásia Menor.

Mas pretendo, sim, evocar uma bunda quadrada de banco de carro, inúmeras horas de direção rumo à guerra (sim, pois todo desafio é uma guerra) e uma questionável higiene de carro (limpo como um cavalo no deserto).

Se tal vida trouxe inegáveis incômodos e desgaste, tais incômodos e desgastes trouxeram, se não a Iluminação de um bodhisatva, ao menos a clareza de um faqir malnutrido.

No ano que se passou aprendi que o esforço nos leva a lugares inimagináveis, que podemos, com dedicação e empenho mudar nossa vida, a nós mesmos e ao mundo, que viajar leve nos permite perceber melhor as viagens e que incômodos são apenas incômodos e são incapazes de impedir o caminho de quem Quer.

Mas, acima de tudo, aprendi que isso tudo é irrelevante.

Sim, meu amigo, meu Irmão de Armas,  irrelevante.

Peço desculpas pelo anticlímax, mas creio que a sabedoria que não causa impacto não é sabedoria alguma.

Alcancei o mítico sonho de de contar uma história de Homem contra o Mundo e de Homem contra Si Mesmo. Fui There and Back Again, mas, como um Bilbo Baggins subnutrido não trouxe de volta riquezas incontáveis que não uma: a Guerra não é um fim em si. O Sacrifício é um meio. O Ascetismo é um Ritual. E o Ritual é uma série de Atos com uma Finalidade.

Aprender a viajar leve é gostoso, mas irrelevante se inexiste destino. Desconforto é mero desconforto e não enaltece. Um calhorda sofrido é apenas calhorda e sofrido, não um santo. Carregar uma Cruz não te faz filho de deus. Ser filho de deus te faz filho de deus.

Todo o resto é fetiche. E nenhum fetiche satisfaz. Exceto o fetiche por ruivas. Esse satisfaz.

As provações ultrapassadas trazem poucos prêmios além da alegria da vitória. E a alegria da vitória é fugaz. Passada a embriaguez do banquete, o sono reparador, o êxtase do orgasmo, volta a Guerra.

Avisem o Bardo Inglês: estão respondidas as questões.

Ser ou não Ser? Ser.

É mais nobre sofrer com as flechas e setas da sorte ultrajante ou erguer mão contra um mar de problemas e dar-lhes fim? Erguer mãos contra um mar de problemas e dar-lhes fim.

Simples. Sem plumas e paetês. Sem purpurina. Sem fumaça e espelhos.

Começo a entender a não-metafísica albertocaeiriana.

Gostaria de mais me delongar, mas tenho um mar de problemas para dar-lhes fim.

Fique em paz,
Abraços de Guerra,
Anarcoplayba.

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