Pra um Cavaleiro, Boa Sorte é Dragão.

December 25, 2017 § 2 Comments

(Ou, a “Última Retrospectiva”.)

Desde o ano passado eu passei a utilizar um aplicativo de facebook chamado “Neste Dia”. Basicamente ele serve para mostrar as publicações feitas naquele dia um ano atrás, o que traz resultados interessantes. Da lembrança de uma boa piada às fotos com a ex-namorada, é interessante ver o que você postava em um determinado dia e/ou época.

Com a aproximação do fim do ano, em datas distintas, eu tive a oportunidade de rever pequenas postagens feitas nessa época e que traziam uma retrospectiva de um determinado ano.

Até agora, 2016 foi um ano foda,  2015 foi um ano tenso, 2014 foi um ano em que desejei esperança e acho que tudo começou em 2007, o ano que deixou um gosto de rola na boca. Eu adoraria passar ano por ano, retrospectiva por retrospectiva e ver o que cada ano trouxe, mas o denominador comum de cada um deles é que foram anos pesados.

***

Recentemente eu fiz essa brincadeirinha aqui na forma de meme:

Como a maior parte das minhas reflexões, ela começou como uma piada: “Quando você achar que está no inferno, que as coisas estão pesadas demais, que não vai dar pra aguentar, calma: logo você vai se acostumar e o inferno vai ser o seu novo normal”.

Sim, é isso. Não tenho mais esperanças que (depois de dez anos), um dia, as coisas melhorem, eu viva uma vida de paz e contemplação, trabalhe para ganhar o pão de cada dia, compre uma casinha com cerquinha branca no subúrbio, case com uma mulher que me ame e compre um labrador dourado.

Not gonna happen.

Se 2017 me ensinou alguma coisa (e oh, boy, como ensinou) foi que a rotina está virando saudades.

(Por favor, leia apenas as palavras pintadas em amarelo pelos alunos no muro do colégio que me contratou a primeira vez pra ser professor e que vai ser demolido. Obrigado.)

Eu cometi o erro de acreditar que eu poderia viver uma vida leve, tranquila, calma e plácida. “Deboísta”. Que eu poderia ensinar crianças a ler e escrever e, quem sabe, morrer velhinho com meus ex-alunos ainda próximos de mim.

Uma vida “boa”. Uma morte “boa”. Pra uma pessoa “boa”.

Mas aparentemente (e o Universo me deu evidências suficientes) que eu seja uma pessoa “boa”.

Na verdade, se eu tenho a agradecer algo a 2017 foi ter aprendido que o maior de todos os pecados é querer ser mais virtuoso que a vida, mais moralista que “deus” ou pretender colocar no universo alguma espécie de senso humanista de Justiça.

Justiça é o que acontece. Se não aconteceu melhor, você não mereceu melhor.

2017 destruiu minhas ambições de ser uma pessoa virtuosa. Matou meus planos de fazer bem ao mundo.

Give up sainthood, renounce wisdom,
And it will be a hundred times better for everyone.

Give up kindness, renounce morality,
And men will rediscover filial piety and love.

Give up ingenuity, renounce profit,
And bandits and thieves will disappear.

These three are outward forms alone; they are not sufficient in themselves.
It is more important
To see the simplicity,
To realise one’s true nature,
To cast off selfishness
And temper desire.

Ok. Os planos estão mortos. Vida longa aos planos! Mas dessa vez Planos de Guerra. I’m born to ride the crashing wave.

Termino 2017 como há dez anos atrás: Eu sozinho, contra o mundo, sem contar com nada além da minha capacidade de lutar. Se eu luto bem, eu vivo bem. Se eu luto mal, eu vivo mal. Sozinho. Contra o Mundo. Qualquer coisa menos do que isso seria covardia.

Peço, nesse instante, aos meus amigos e amigas que talvez estejam lendo esse texto (se é que alguém ainda lê esse blog) que não se sintam esquecidos. Depois que as lanças são postas em descanso, os escudos pendurados e a armadura bem oleada (ou o terno lavado a seco) o primeiro lugar onde parar é na taverna, pra beber a mais uma batalha sobrevivida.

Agradeço a vocês por estarem presentes na minha solidão. Afinal, a gente nasce sozinho, a gente morre sozinho, e toda experiência sere apenas a nós mesmos.

Por isso, mais do que nunca, e correndo o risco de me repetir, eu ofereço um brinde.

Um brinde aos amigos ausentes. Porque é muito importante saber que existe um porto seguro. De que ainda que à distância (com o fucking atlântico, nas planíces geladas da patagônia, pra lá ao norte do Rio Grande ao sul dos EUA, ou através do maior desafio da vida adulta, as terríveis “agendas”) eu sei que estamos juntos.

Um brinde aos amores perdidos. Porque nada ensina mais do que o amargo da derrota. Nada impulsiona mais que a Ira de Marte. Nada dá mais energia que a fúria carregada de sentido advinda da compreensão do erro crucial.

Um brinde à estação das lutas. Porque enquanto existe luta, existe Vida. Porque o Conflito é a Mola Mestre da História, dos Mitos e da Épica. Porque mar calmo não faz bons marinheiros. Porque quem nasce pra Ira constrói um Paraíso de Fogo e Enxofre.

E que cada um de nós dê ao Diabo aquilo o que ele merece, seja ele quem for, esteja onde estiver. Porque o Diabo, seu moço, é o Príncipe das Mentiras, filho da Mentira Rei com a Mentira Rainha. A Mais Bela de Todas as Mentiras, mas Mentira, ainda que Bela. E O Diabo merece apenas um destino: A Morte.

Amém. Shelá.

(P.s.: Se alguém se preocupou com minha vida quando leu “A Última Retrospectiva”, não se preocupem, não pretendo morrer. Apenas escolhi esse sub-título porque, hoje, depois de todo esse ano, não espero nenhuma retrospectiva diferente em todos os próximos anos da minha vida.)

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