Videogame.

February 14, 2018 § Leave a comment

Ano retrasado comprei um Playstation 4.

Depois de década afastado dos consoles (meu último foi um Nintendo 64), resolvi voltar a jogar. Como dito por um amigo, é mais barato que bar ou mulher.

De lá pra cá eu joguei poucos jogos, mas com intensidade. Basicamente, passeei por Fallout 4, Metal Gear Solid V e Witcher III.

O que mais chamou minha atenção (e me agrada na atual fase dos jogos) é o peso que a história e os personagens têm nos jogos. O desenvolvimento dos personagens ganhou laivos estilísticos de literatura. Mais de uma vez eu me peguei torcendo por um determinado personagem e até mesmo desenvolvi um certo afeto. Notoriamente por alguns dos Robôs em Fallout 4, o que gerou uma reflexão interessante (e esse post, dur).

Tema central de Blade Runner é o que nos torna humanos. Se eu tenho uma máquina que possui recordações, uma história e até mesmo livre arbítrio (tanto quanto nós temos – pausa pra discórdia, fim da pausa pra discórdia), podemos falar que ela ainda é uma máquina? Ou estamos diante de algo humano ou aproximado à humanidade? Robôs sonham com ovelhas elétricas?

Por outro lado, nos referidos jogos, não estamos falando nem de uma efetiva inteligência artificial: é uma imitação artística do que seria uma inteligência artificial. Um faz de conta, assim como Romeu, Julieta, Hamlet, Riobaldo, Dom Casmurro, etc. É uma mentirinha, como toda arte.

Não nos relacionamos com os personagens, nos relacionamos com a projeção que fazemos sobre aqueles personagens.

A existência do Capitão Ironsides, Riobaldo, Deckard é mera projeção de expectativas nossas. Projetamos na nossa interpretação do mundo que aqueles seres (que não existem objetivamente) possuem uma consciência (que, efetivamente, não existe).

Nesse sentido, ao torcer por algum personagem (de videogame ou da arte) estamos inventando (com o auxílio do autor, claro) uma entidade. Estamos emprestando uma profundidade inventada para algo que é plano: possui apenas a face que o autor cria e nos mostra.

Discutir se Capitu traiu ou não Bentinho é um exemplo maravilhoso disso: o Autor apresentou a personagem, elocubrações a respeito disso são apenas fruto de uma projeção nossa a respeito de uma Ficção.

A ironia é que até segunda ordem, o mesmo princípio se aplica às pessoas também.

Nada prova que as pessoas com as quais nos relacionamos no dia a dia são mais conscientes ou humanas que um Nexus 6. Projetamos nelas a expectativa que temos de que elas existem, possuem consciência, desejos, vontade, história.

O Outro, também, é uma projeção nossa, construída com base mais ou menos compartilhada e exposta por ele.

Nós não nos relacionamos com pessoas. Nos relacionamos com as projeções que fazemos sobre essas pessoas.

Cai por terra a afirmação de Platão de que a Arte é uma imitação da Vida. A Vida é Arte. Uma obra de Arte em rascunho, sem tempo de passar a limpo, sim, mas Arte none the less.

Diante disso, do fato de que as pessoas com que nos relacionamos são humanas apenas na medida em que projetamos isso sobre elas, apenas uma pergunta deve ser feita:

Você está andando em um deserto e olha pra baixo. Você vê um jabuti andando. Você o pega e vira ele sobre o próprio casco. Ele está lá, se debatendo e com a barriga voltada para o sol. Se ficar assim, ele vai morrer. Mas você não o ajuda. Por quê você não o ajuda?

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