One Punch Man.

August 31, 2016 § Leave a comment

Dois fucking dias antes do meu aniversário e tudo que eu tenho a falar é sobre um fucking Mangá.

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One Punch Man é uma homenagem ao anticlimax. É um Mangá/Anime sobre um herói que consegue derrotar todos os inimigos com apenas um soco.

Pense em todos os mangás e animês até agora criados. Pense em todas as horas de sofrimento que o protagonista passa para conseguir vencer um inimigo claramente superior.

OPM é o contrário.

Com um soco ele vaporiza os inimigos durante o discurso de ameaça deles. E logo em seguida fica puto porque esperava que aquela luta representasse ALGUM desafio.

Saitama (identidade do OPM) é um ex “salary man” (termo usado em japonês para indicar o trabalhador de colarinho branco em funções de pouco prestígio nas empresas) que decide, em virtude do tédio, virar “super-hero for a hobby”. Sua pretensão com isso é preencher o vazio de sua vida com a adrenalina do desafio.

Dedicando-se a treinar durante três anos (fazendo 100 flexões, 100 agachamentos, 100 barras e correndo 10 quilômetros todos os dias) Saitama alcançou o nível de poder capaz de esmigalhar um meteoro com um soco. Wait. Wut? Sim, isso mesmo.

Depois de derrotar um monstro com um tapa, um ciborgue pede para ser seu discípulo. Relutantemente (por acreditar que não tem nada a ensinar) ele aceita. E descobre que para ser um super-herói ele precisa se filiar ao Sindicato dos Super-Heróis, ou será considerado apenas um louco.

Ele se filia e descobre que seu discípulo ciborgue está ganhando muito mais notoriedade especialmente por ser… bonito.

Em suas tentativas de subir em classificação de herói Saitama enfrenta heróis mais antigos que decidem sabotá-lo fazendo bad publicity dele para o povo.

OPM acaba trabalhando a vertente do humor nonsense em todos os episódios: No fim trata-se da história de um herói que resolve tudo sem emoção alguma.

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One Punch Man é um Mangá sobre um herói depressivo.

Um herói que era um white collar worker, sem razões para viver uma vida sem emoção, que não sentia prazer em nada, e que decidiu ser herói por hobby no tempo livre. Não estranhamente, ele se tornou melhor no hobby que no trabalho sem sentido que fazia mas, ainda assim, não encontrou qualquer prazer em nada.

Sua vida é sem desafios e mesmo o que pode parecer um grande risco se mostra apenas mais um dia. E a expressão bland and blank dele mostra isso.

Não bastasse isso, para ser reconhecido em seu hobby, ele precisa da aprovação de seus pares. Sem a aprovação do sindicato, liga, federação, whatever, não interessa o quão forte ele é: ele não existe.

E não basta fazer bem o trabalho: sem o famigerado “marketing pessoal” e o “networking” é muito mais difícil obter o sucesso.

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One Punch Man é uma história tristemente parecida com a realidade: uma vida sem sentido num emprego fungível que só ganha cores aos finais de semana. Uma vida na qual sem o reconhecimento de um grupinho você não é parte da “comunidade”. Uma vida na qual o marketing pessoal cria Bel Pesces da vida enquanto empreendedores desembolsam economias da vida num negócio que, às vezes, falha.

Um dos meus maiores problemas é superanalizar coisas bobas. E eu fiz isso de novo.

Mas que faz sentido… isso faz.

 

 

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Uma análise presunçosa sobre Game of Thrones.

June 28, 2016 § 5 Comments

(Que contém spoilers.)

Ok, terminou a sexta temporada e estamos indo para a última temporada (que assim como Breaking Bad vai ser esticada em duas, então sim, eu sei que tem mais dois anos, mas não, isso não faz duas temporadas) e é o momento perfeito para fazer uma análise que eu estou postergando faz tempo sobre a série (não, não li os livros ainda).

1) A Magia em Game of Thrones.

Uma das coisas que eu acho mais interessante em GoT é a magia. Existe magia, mas ela consegue ser ainda mais discreta que em Senhor dos Anéis. Melisandre queima uma sanguessuga e alguém morre. Coincidência? Não? Não dá para saber. A Magia em GoT está nas coincidências. Quem ofende as leis dos deuses acaba sendo castigado. Cai um meteoro na cabeça dele? Não. Mas ele morre exatamente como matou. Os arquitetos do Red Wedding morreram com um tiro de besta, esfaqueado no coração e com a garganta cortada diante do cadáver do filho.

Isso cria um capítulo completamente novo sobre “verossimilhança”. “Ain, que coisa tosca, aquilo na Batalha dos Bastardos foi deus ex machina”. Sim, foi. Assim como o que aconteceu com o Oberyn. E com a Arya. E com a Ygritte, que não erra um coelho a trinta metros, mas errou o Jon. O Cão deveria ter morrido também e não morreu. E por aí vai.

Outra coisa interessante é o Poder do Sangue. Filhos de Nobres são melhores que filhos de plebeus. Porque são nobres. Ponto. Um exército liderado por um nobre luta melhor. Um nobre é mais forte. Ponto. O Direito de Governar está ligado ao sangue. E funciona. Porque é mágico.

As pessoas possuem funções no grande esquema das coisas. Hodor tinha UMA função durante toda sua vida. Cumprida a função, ele pode morrer. Isso parece cruel para nossa vida individualista… Mas em uma terra na qual o que importa é que o Fogo vença o Gelo, isso é uma honra.

2) A Religião em Game of Thrones.

Essa é a parte mais legal de todas. Existem basicamente três panteões em GoT: Os Deuses Antigos, Os Sete e O Senhor da Luz.

Os Deuses Antigos são basicamente uma religião panteísta que idolatra árvores e elfos. Ops, quer dizer, Árvores e as Crianças da Floresta.

Os Sete são uma religião politeísta que idolatra sete personificações antropomórficas de aspectos da humanidade: O Estranho (A Morte/Saturno), a Sábia (Júpiter), O Guerreiro (Marte), O Pai (Sol), a Dama (Vênus), o Artesão (Mercúrio) e a Mãe (Lua).

O Senhor da Luz, cuja fé o proclama como o Único Deus e queima os hereges por aí.

Existe uma relação clara entre as religiões “reais” em ordem cronológica (Paganismo, Politeísmo Greco-Romano e Monoteísmo Judaico-Cristão) e as religiões de GoT. Cáspita, o catolicismo deles até queima bruxas por aí também.

E nesse aspecto, duas coisas saltam à vista: primeiro que todas as religiões funcionam. Os deuses antigos funcionam, atuam, influenciam nas coisas. Os Sete também. E o Senhor da Luz nem se fala. Isso sugere que o foco da religião não são os Deuses, mas os seres humanos. TALVEZ daí venha boa parte do Segredo de Atlântida, ops, quer dizer, Valyria e do Poder dos Maesters.

Além disso, tudo indica que a Fé do Senhor da Luz vai mesmo se estabelecer.

3) Um mundo de Transição.

Um dos tópicos mais fortes em GoT é a transição dos velhos modos para os novos modos. Ned morreu porque representava os velhos modos. A maior parte dos patriarcas foram mortos e destronados. Daenarys passou a maior parte das seis temporadas lutando contra os velhos modos (escravidão).

Foda-se o nome. Um Snow é Rei de Winterfell. Foda-se a tradição: Arya é Arya E é uma Sem Nome (ela bebeu do poço, não?). Acaba a Casa Frey. Acaba a Casa Bolton. Acaba a Casa Martell. Os Lannisters não têm mais herdeiros. A Patrulha da Noite não enfrenta mais os Wildlings. Morreu o último gigante. Os Greyjoy virarão comerciantes. Daenerys não quer ganhar a dança das cadeiras, quer quebrar a roda dos tronos. E por aí vai.

E eu acho que essa é a grande razão pela qual GoT faz sucesso hoje: ele fala de uma transição entre o passado e o presente, semelhante à que acontece entre a Idade Média e a Idade Moderna: Robert derrubou a maior dinastia já estabelecida e com isso mostrou que poderia ascender ao trono. Depois disso todos entenderam que o Trono de Ferro era viável. Direito de nascença o cacete. Aqui é livre arbítrio burguês.

Se eu fosse arriscar um palpite, portanto, diria que tudo caminha para um resultado “moderno”: As velhas casas caem, os bichos papões morrem junto com os outros seres mágicos (White Walkers, Crianças da Floresta, Dragões, etc.) e no final a gente termina com algo próximo a uma democracia.

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Para quem quiser mais umas brincadeiras sobre GoT: http://www.dorkly.com/post/79337/10-insane-details-game-of-thrones-fans-have-noticed

Carta a uma jovem escritora.

January 23, 2016 § 2 Comments

Minha cara, boa noite.

Antes de mais nada, peço desculpas por colocar tema tratado privativamente como tema de texto, mas espero que entenda: Seu questionamento levou a uma série de reflexões que desembocaram na resposta que eu te dei mas prosseguiram naquilo que demorei mais para elocubrar e não pude lhe dizer. Esta carta serve, portanto, para tentar organizar tudo o que eu tenho a dizer a respeito. É pouco e óbvio, mas que meu pecado seja afirmar o que para mim é óbvio e talvez, para os outros, não seja.

Você me perguntou que dicas eu tenho a dar para quem pretende se aventurar pela literatura. Fui questionado enquanto professor mas respondi como escritor, coisa que igualmente agora faço.

Em primeiro lugar, se você pretende se aventurar pela literatura, você tem que saber o que é literatura. O que é, como nasceu, para que serve e porque você deveria (se é que deveria) gastar horas, dias, semanas, meses e anos da sua vida fazendo isso. Pois bem, a literatura é o registro textual perene que busca levar ao leitor uma certa ideia ou um certo sentimento. Se o que você está fazendo não é isso, não é literatura. Não significa que não seja algo divertido, agradável ou que lhe faça feliz, mas é qualquer outra coisa. Vale dizer: uma selfie não é literatura, texto no facebook não é literatura, diário íntimo não é literatura and so on.

Tal definição não é purismo: serve para te orientar. O objetivo do texto literário é alcançar o leitor. Se você consegue entregar, com precisão, aquilo que você desejava entregar, missão cumprida. Seu maior treino será a Arte de fazer a intenção corresponder ao resultado. Por isso o seu texto tem que ser claro. Tem que ser inteligível. Ele não pode contar com a boa vontade ou companheirismo do leitor. Não pode depender da sorte.

Existe uma única exceção para essa regra: Se sua intenção for entregar ao leitor a confusão, a confusão do seu texto pode ser o meio para isso. Mas cuidado: essa técnica é arriscada e demanda extrema dedicação.

Em segundo lugar: Todo mundo escreve aos dezesseis anos. Poucos continuam aos vinte. Essa é a triste verdade. Se você pretende escrever tenha em mente que é um trabalho de persistência. Trabalhe o seu texto em termos de processo de vida. E nesse momento vem um dos maiores conselhos que eu posso te dar: organize seus arquivos. Desse conselho derivam os outros que eu já lhe disse: Escreva em um editor de textos e não escreva no facebook ou em qualquer rede social.

O Facebook foi feito para se comunicar, não para criar. Se algum dia você quiser encontrar aquele texto que você escreveu anos atrás, vai ser impossível localizá-lo. Minhas sugestões são: em primeiro lugar use um sistema de cloud storage. Aceite a realidade: usamos o computador para escrever. Ocasionalmente você rpecisará do papel, mas a regra é o uso de meios digitais. Guardar seus textos em UM lugar é pedir para, um dia, perdê-los. Isso é uma tragédia. Guarde seus textos em um computador E em mais algum lugar. Se possível, de tempos em tempos faça um backup mais seguro e revise-os. Um blog também ajuda, mas é um ponto secundário.

Em terceiro lugar: encontre harmonia entre a inspiração e a transpiração. Escreva, sim. Escreva muito, publique, debata, converse, troque impressões e opiniões. Mas também leia. Leia muito, ouça muita música, veja muitos filmes, passeie no parque e cuide de um jardim. É importante tomar cuidado com a figura do beneditino enclausurado no mosteiro escrevendo sobre a vida. Qual a sabedoria alguém que não viveu tem a falar sobre a vida? Viva a sua vida e viva a vida dos outros. A única forma de conseguir mais experiência de vida é pela experiência alheia. Filmes, livros, discos e conversas.

Melhore suas habilidades linguísticas, sempre. Português, inglês, francês, italiano, hebraico. O texto é uma forma para transferir uma emoção, mas não se separa forma de conteúdo. Você tem que estar em constante esforço consciente de aprendizado. Seja você mesma, mas também seja o seu melhor.

Sempre coloque a mão na consciência e se pergunte por que você quer escrever. Se você quiser contribuir para a Arte e para a Vida do seu leitor, escreva. Se seu objetivo for o reconhecimento, jogue a caneta no lixo. Nenhum bom autor nunca conseguiu nada escrevendo para si. Todo grande autor contribuiu para o mundo e, por isso, foi reconhecido. O egoísmo e o egocentrismo é desprezível em qualquer ser humano. E o escritor não tem o direito de ser desprezível.

É possível que critiquem você. E é possível que você receba dois tipos de crítica.

O primeiro tipo é aquele que acredita que sua obra não é boa o suficiente. Essa crítica vai apontar fundamentadamente alguns pontos que, na visão do crítico, são negativos. Essa crítica pode ser ou não pertinente. Se alguém lhe diz que para ele o texto não ficou bom, está falando a verdade.

O segundo tipo de crítica é aquele que não quer que você crie. Ponto. Esse tipo de crítica provavelmente será vaga e sem fundamento. Talvez se valha de senso comum para te desestimular. O famoso “isso não leva a nada”. Esse é o pior tipo de crítica, especialmente se você for como eu. Não se trata do questionamento a respeito da sua técnica, trata-se do esforço em fazer você não criar nada de novo. Nem um por cento da humanidade cria. Um pouquinho que você já faz já coloca você em outro patamar. Muita gente vai querer te manter no mesmo local. Tome cuidado. Se alguém falar de forma absoluta que o texto não presta, provavelmente é uma mentira.

Respeite seus limites, mas não muito. Comece curto, mas ambicione. Poemas, crônicas, contos, novelas. Quanto maior o texto, maior o esforço. É importante que você colha frutos rapidmente no começo, mas também é importante que você tenha projetos de longo prazo.

Sempre leia, pois é isso que vai te dar uma ideia de para quê serve a escrita. Sempre estude, nem que seja pouco, pois isso é o que vai te permitir ampliar os horizontes. E sempre escreva, nem que seja lentamente, pois é escrevendo que você criará o material que poderá ser peneirado, lapidado e polido.

Peço desculpas se contribuí pouco, mas é o que é possível para esse autor de pequena literatura.

Lhe desejo toda a sorte do mundo e que você possa contribuir para a Vida.

Abraços do front,
Anarco.

Write It.

July 31, 2015 § 2 Comments

Eu sempre começo a primeira aula de redação do ano com uma aula inaugural específica. Essa aula é sobre o valor da escrita.

Parto do pressuposto que nada vem do nada. Portanto, alguém só se dedica a se esforçar por algo se ganhar alguma coisa com isso. O prêmio padrão que a gente sugere é o vestibular que, de fato, é a preocupação mais imediata que existe.

Uma segunda preocupação, bem real, diga-se de passagem, é a comunicação interpessoal propriamente dita. Afinal, boa parte (boa mesmo) da interação humana hoje é verbal e escrita. Do memorando da emprea até aquelas mensagens safadas que você troca no whatsapp (yeah, we know it!) o uso da língua é constante.

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Tudo isso é real e muito verdadeiro. Mas é meia verdade. E falta a outra metade.

Escrever não é apenas transmitir ideias. Também é organizá-las. Colocar suas ideias em palavras é não apenas registrá-las, mas também estruturá-las. Estruturando-as as reconhecemos. E as reconhecendo, nos reconhecemos. Quem tem o prazer de escrever tem o prazer de revisitar seus escritos e perceber o quanto mudou e se recriou.

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Mário de Andrade disse a Fernando Sabino, quando questionado se a Arte demandava obrigatoriamente a insatisfação, respondeu que não, e que se ele só conseguisse escrever se insatisfeito “nunca deveria ter pegado numa caneta, pra começar”.

Acho isso meio pesado, indeed, especialmente porque entre o escritor e aquele que escreve há uma distância terrível: todos deveriam escrever, mas nem todos seriam escritores.

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Uma das coisas que eu mais sinto falta na década de 2000 é da explosão dos blogs.

Na época, como esse era o meio mais fácil de publicar na internet, os criativos se direcionaram pra isso. Hoje temos twitter, instagram, facebook, tumblr and god-know-what-else, plataformas muito mais simples de publicação. E na minha opinião, muito mais rasas. É difícil achar um blog novo. E é difícil achar um blog bom novo.

Pessoas que escrevem blogs acabam tendo outra prioridade. Querem expor suas ideiasa tantos quanto possível, não apenas aos seus “seguidores”. Tecnicamente (e novamente na minha opinião) blogs acabam trazendo à tona mais pessoas interessadas em falar do que em serem reconhecidas. Posso estar errado, mas os blogs anônimos são um bom exemplo disso.

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Estou me deliciando ultimamente com o http://birdywithabrokenwing.blogspot.com.br/.

Não faço a putíssima ideia de quem é a pessoa. Não é um blog de pretensões literárias. Na verdade, está muito próximo do que o Homem-Hipotérmico chamava de blog “suco de maracujá”. São narrativas a respeito do cotidiano da autora.

Mas cara… é bonito.

É bonito ver alguém colocando escrevendo a própria vida (lembrando que escrever é organizar) e fazia tempo que eu não me inscrevia num feed.

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Resumindo, fica aqui a puxada de saco da semana.

Tempos Interessantes.

August 7, 2014 § 3 Comments

“Quando nasci, uma velha bruxa, cega de um olho e muito enrugada, colocou seu polegar sobre minha fronte e disse: Eu lhe amaldiçoo a viver em tempos interessantes.” – Vergonhosamente chupinhado de um RPG.

Um dos problemas da Internet é a proporção de Pareto. Por essa “Lei”, 20% de algo é responsável por 80% do impacto: 20% dos cruzamentos respondem por 80% dos acidentes, 20% das pessoas respondem por 80% dos crimes (ou da riqueza), 20% dos livros respondem por 80% do mercado editorial, e por aí vai.

Os leitores um pouco mais críticos podem questionar a validade dessa “Lei”, e confesso que eu mesmo nunca efetuei nenhuma pesquisa ou cálculo matemático para comprová-la. No entanto, confiando nas palavras dos que o fizeram, tal Lei está errada em sua proporção, mas não em seu princípio: Menos de 20% dos eventos são responsáveis por mais de 80% das consequências.

Isso é algo a ser avaliado, notavelmente, quando nos damos ao trabalho de tomar a internet como universo amostral. 80% do barulho é feito pelos 20% mais barulhentos. São eles que vão fazer comentários odiosos e odientos nos blogs e sites de política e notícias. É esse tipo de cara que vai falar que a queda do avião na Malásia é culpa do PT.

Embora isso gere uma distorção, essa distorção não é nova, mas histórica. 20% dos autores são responsáveis por 80% dos movimentos literários e artísticos. J.K. Rowling vendeu (em alguns dos anos nos quais lançou livros do Harry Potter) mais livros que todos os demais autores da Europa. Juntos.

A história não é feita pelas massas. A história é feita pelos estandartes.

E essa é a função da Poesia.

A poesia não entretém, não vende, não dá lucro, não ensina alguma coisa clara nem pretende dar erudição. Ensaios dão erudição. Tratados dão erudição. Poesia dá desejo. E por isso é tão difícil traduzir poesia: é uma projeção do símbolo sobre o som: “Tiger, tiger, burning bright/ in the forests of the night/ what immortal hand or guide/ could frame thy fearful symmetry.”

Agora, para conseguir amealhar seguidores, para cativar as massas, a relação do Poeta com seus leitores não pode ser vertical. Ele capta o que os demais já sentem, e dá então a forma “como foi que eu não pensei nisso antes”. A tentativa de uma relação verticalizada é pretensão orgulhosa. São os fracassados que dizem que “as massas não estão à altura de sua arte”.

Bullshit. O problema não são as massas, é a sua incapacidade de olhar pra outra coisa que não seja a merda do seu umbigo. Babaca.

O artista compõe o estandarte que as pessoas reconhecem como belo e o carrega por um tempo. O Artista Imortal inspira outros a carregar seu estandarte também. Por isso Álvares de Azevedo influencia até hoje.

Agora, reconhecida a função da poesia, torna-se cada vez mais insuportável viver em uma época tão materialista e mesquinha, sem ideais ou ideologias, nos quais a medida da felicidade é consumir e postar fotos das viagens no instagram para ganhar likes anônimos.

O caralho.

Vivemos, provavelmente, em uma das épocas mais idealistas e sentimentais de todos os tempos.

Todos almejam uma vida bela, emocionante, cheia de sentido e realização. As pessoas dão risada das tirinhas e piadas do Dahmer não porque o mundo é frio e egoísta, mas sim porque elas reconhecem como valor um mundo que não seja frio e egoísta. Se não fosse um ideal, dariam de ombros com um resignado e indiferente “e daí?”.

Todos querem ser diferentes, todos querem ser admirados, todos querem um emprego que lhes dê felicidade (ou ao menos dinheiro para serem felizes). Como dito antes de mim: Vivemos num tempo em que alguém compra uma calça de quinhentos dólares e a rasga para dar um visual cuidadosamente descuidado. E para quê? Para impressionar Jennifer.

Todos se empenham em alguma coisa. Querem salvar os cachorros de rua, querem salvar o planeta, querem acabar com o sofrimento animal, querem acabar com o sofrimento humano, querem acabar com a escravização promovida pelo sistema financeiro internacional, querem conhecer mais pessoas, aprender algo novo, mudar de status civil, mudar de status social, mudar de status, se mudar. Todos querem uma outra vida, melhor, mais ampla, mais rica e mais confortável.

A insatisfação é a nossa marca de Caim: Queremos um mundo melhor o tempo todo. E isso é idealismo. Ainda que esse melhor seja um conceito muito arbitrário. Ainda que esse melhor seja muito individualista.

Pra falar a verdade, ainda bem que esse melhor é muito individualista. Querer melhorar o mundo, até hoje, deu merda. A guerra para acabar com todas as guerras deu origem ao nazi-fascismo. A revolução para acabar com os privilégios de nascimento descambou em um período meigamente chamado de “Terror”. A Revolução para acabar com a exploração do homem pelo homem deu na Rússia comunista.

Na atual conjuntura, prefiro um filho-da-puta egoísta a um self-righteous idealista.

E nossa Arte, hoje, reflete exatamente isso: a busca pela liberdade individual a todo custo. Depois do pós-modernismo vem o neo-romantismo e seu idealismo (graças a deus) egocêntrico, no qual todos querem ser mais do que realmente são.

(Tomara que isso vire logo boa literatura.)

F(arte).

June 2, 2014 § 5 Comments

Nas aulas de Literatura do colégio somos expostos aos movimentos literários como uma sequência clara e indistinta de movimentos artísticos. Essa metodologia configura, em verdade, um curso de história da literatura que, tal qual a maioria das disciplinas escolares, acaba sendo um amontalhado (se essa palavra não existe, deveria) de retalhos organizados de acordo com uma falsa obviedade.

O resultado disso é que nós estudamos a literatura como um evento passado e a ignoramos em seu caráter presente. Simplificamos: Drummond é Drummond porque é Drummond. O literato é um literato porque é um literato. Não estudamos o processo de composição dos escritores. Não avaliamos a pretensão dos mesmos. Tomamos a obra como se fosse óbvia e sequer imaginamos como o escritor a compôs.

Mario de Andrade dedicou seu primeiro livro ao mestre Mario de Andrade. Drumond dedicou seu primeiro livro ao mestre Mario de Andrade e seu segundo livro ao amigo Mario de Andrade. João Cabral de Melo Neto dedicou seu primeiro livro ao amigo Carlos Drummond de Andrade.

Apresenta-se, pois, uma declarada e intencional continuidade entre os autores, oriunda de uma visão global da Arte, ou da Função da Arte, ora chamada de F(arte) ou “Efe de arte”. Essa visão global está correlacionada a um ideal de mundo e arte e ao compromisso do artista para com esse ideal de arte.

O Realismo-Naturalismo é o resultado global do compromisso assumido pelos autores diante de um ideal de compreensão de mundo no qual as “Leis” da natureza moldam o mundo e o homem. O Modernismo é o resultado global do compromisso dos autores de romper com a Velha Arte e integrar em suas obras as mais novas descobertas filosóficas.

Os Autores que não se prestam a servir a um ideal de mundo acabam relegados ao segundo plano da história. Autores menores.

O problema de se enxergar as obras como causa e não consequência de um movimento literário é que isso abertamente nos joga em confronto com nossa mediocridade. Baudelaire é um clássico pois reconheceu (ainda que inconscientemente) um espírito de uma época, um zeitgeist, e se comprometeu com ele em uma relação simbiótica.

De tal constatação advém o questionamento: se a arte transcendente está de acordo com a F(arte) de um determinado momento, qual a arte transcendente de hoje? Quem serão os literatos estudados daqui a 100 anos? Quem organizará a Semana de Arte Moderna de 2022?

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Ontem (01/06/2014) fui assistir à peça “São Paulo Surrealista“, em cartaz no Teatro Incêndio.

A peça se propõe a, por meio de uma linguagem surrealista (duh) e iconoclasta repisar e repassar o território artístico da cidade de São Paulo, emprestando a Mário de Andrade, Pagu, Frida Kahlo e outros o status de mitos fundadores e patronos de uma cidade que se caracteriza pela desunidade linguística e artística.

Aproveitando o mito de Orpheu, reposicionando-o na Consolação (e não na Conceição, tal qual Vinícius), o herói ascende nos círculos do inferno da cidade, ou de seus inferninhos, do limbo da cracolândia, no qual corpos sem alma perambulam, aos altos círculos dos Jardins Paulistas, onde banqueiros e diplomatas se regojizam em sua gula, passando, como não deveria deixar de ser, pela Luxúria do Baixo Augusta.

São Paulo se vê retratada não como a esquina da Ipiranga com a São João, ornada de dura poesia concreta, mas como um inferno, um inferno que são os outros, vez que cada um escolhe os círculos que mais lhe aprazem. Acaso é mais nobre pagar por sexo com cartão de crédito do que com pensão alimentícia?

Ironicamente, o desafio da peça é uma proposta quase intransponível: como dar continuidade a um movimento cujo objetivo é romper com a continuidade? Como romper com a estética do rompimento? A solução para esse dilema acaba por ser uma abordagem dadaísto-surrealista que encontra no choque aos sentidos seu meio de impressão sensorial e que possui no lugar o eco que lhe torna possível: os sons, cheiros e texturas do centro de São Paulo constroem o Teatro do Incêndio e permitem que a plateia se torne o palco onde a peça é encenada.

Se o desafio da trupe era dar continuidade a um movimento que se propôs ao rompimento pelo choque, inegavelmente foram bem sucedidos: saindo da confissão do papa condenado à cadeira elétrica ou da exposição da exploração do corpo feminino, a peça encontra seus pontos altos na encenação de um Mário de Andrade enrustido e da tortura com a intenção de fazer da loucura sanidade. Afinal, após tantos anos de rompimento, apenas a simplicidade da nudez masculina e o escárnio do maior ideólogo modernista podem se propor a carregar a tocha do modernismo.

A peça permanecerá em cartaz até setembro, com espetáculos aos sábados e domingos, respectivamente às 21:00 e 19:00 horas, no Teatro do Incêndio, na Avenida da Consolação, 1219.

As mil e uma noites.

February 13, 2014 § Leave a comment

As mil e uma noites é um compilado de fábulas e contos árabes, hindus e persas (acredita-se) datado de um pouco antes do século IX.

Conta a história de Sheherazade, a mais nova esposa de Shariar, rei da Pérsia que, após descobrir que sua esposa o havia traído, decide que nenhuma mulher é digna de confiança, e mata todas as suas esposas após a noite de núpcias.

Sheherazade, sabendo da história, e decidindo impedir que o rei continuasse cometendo tais atos, começa a contar uma história por noite para o Rei, tomando o cuidado de deixar o Rei em suspense até a noite seguinte, quando, então, terminaria de contar a história anterior e iniciaria a próxima.

Hoje sabe-se que as histórias contadas por Sheherazade são contos anônimos existentes há muito tempo no Oriente Médio. Como sói ocorrer, os mesmos não eram invenções de Sheherazade, nem mesmo do autor do livro.

As mil e uma noites acabou entrando para a história não como uma coletânea de contos, mas apenas como a história de Sheherazade, que, espertamente, conseguiu manter o Rei distraído e ocupado com suas histórias para que o mesmo esquecesse de seus planos. Trata-se de um aspecto muito comum na mitologia do Oriente Médio, que valoriza o herói astuto ao herói forte. Imortalizou-se, assim, a figura da mulher astuta que distrai seu interlocutor com histórias e contos que lhe foram contados para enganá-lo.

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Telejornais são uma coletânea de histórias e notícias com pretensa imparcialidade e que pretende (acredita-se) informar a população. Sua criação é datada da segunda metade do século XX, apesar de a ideia ser muito anterior.

Eles contam histórias para seus telespectadores que tentam tomar com base nas notícias suas decisões sobre como se comportar, o que fazer e quais os maiores problemas a serem evitados.

Sheherazade, sabendo da história, e decidindo que é interessante fixar o foco da realidade em uma questão específica, começa a contar suas histórias para o Povo, tomando o cuidado de tomar um partido e abordagem extremado, fazendo, assim, que o Povo fique discutindo apaixonadamente as opiniões dadas até que a próxima opinião polêmica.

Hoje sabe-se que as opiniões dadas por Sheherazade não foram escritas por ela, nem mesmo pelo editor do telejornal, mas provavelmente são uma coletânea de velhas opiniões anônimas existentes há muito tempo no ocidente (e oriente, e nesse bananão chamado Brasil).

Os Telejornais acabaram entrando para a história não pelas notícias que deram, mas como a história de Sheherazade/Sakamoto/Chico Sá/Arnaldo Jabor/Etc. que, espertamente, conseguiram levantar grandes polêmicas que mantém as pessoas distraídas e lhes dá notoriedade. Trata-se de um aspecto muito comum na mitologia do Ocidente Mérdio, que valoriza as grandes entidades sociais ao indivíduo, que permanece discutindo as opiniões alheias ao invés de fazer alguma coisa de útil.

Where Am I?

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