Inferno.

June 22, 2015 § 3 Comments

Perdido, rodando e rodando,
Ouço alguém me chamar,
Envolto em pesado manto,
Me indica a estrada ao luar.

Pergunto seu nome ao estranho
e ele me ordena o calar
E disse que me mostraria o inferno
Para que eu pudesse contar.

“Acaso sois Dante encoberto?
Serás meu Virgílio a guiar?”
O silêncio me corta qual foice
E cesso o meu perguntar.

A estrada margeia um rio.
É o Letes, meu guia me aponta.
Diziam que as águas tiravam
Dos mortos a história que contam.

“Isso é mentira, preste atenção.
Uma armadilha para quem quer escapar.
O Letes amaldiçoa a memória
Daqueles que ousam tomar.

A memória não some, mas brilha
E reluz sem nada olvidar.
Tudo no inferno é armadilha.
E a maior é tentar escapar.”

Adentramos uma sala terrível
Em que as súplicas tomavam o ar
É a sala que pune aqueles
Que viveram do outro acatar.

Aqui descobrem o fim
Que obedecer leva a condenar
Passarão toda a eternidade
Aos juízes tentando apelar.

Mal sabem que a punição não aguarda
E que daqui não irão passar
O castigo é ouvir a sentença
E em vão tentar se exlicar.

“A mentira era o mais pertinente.”
“A honra não iria ajudar.”
“Tantos outros fariam como eu.”
“É injusto a mim condenar.”

Deixamos logo pra trás
A sala e seu castigar
A próxima seria pior
Que implorar sem se acreditar.

Lá se iria punir a preguiça
Daqueles que tentaram escapar
De viver uma vida plena
E de suas batalhas lutar.

Passarão o resto da vida
Vigiando o tempo imitar
Eternamente a vida que tinham
Sem nem mesmo um dia mudar.

Pois o tédio é o castigo daqueles
Que viveram sem nada enfrentar
E esquecem que maior derrota
É uma vida sem ter que lutar.

O terceiro círculo mostra
A história que querem contar
Ele pune a mentira daqueles
Que viveram de se enganar.

Quem em vida se justificou
Em morte vai ter que pagar
Com a língua pendendo da boca
Sem poder a mentira falar.

Aqui contarão a verdade
Que em vida foram ocultar.
Passarão uma eternidade
Contrariando o próprio falar.

O círculo de número quatro
É decorado todo de espelhos
E não guarda nenhuma piedade
Para quem viveu por vaidade.

Aquele que só quis ser amado
Viverá num inferno sozinho
Mendigará por amor e atenção
E sofrerá pra sempre no frio.

Pois aqui só existem aqueles
Que vivem pro próprio umbigo
E onde todos só querem pedir
Não existe quem possa doar.

O círculo que vem a seguir
É guardado a quem quis comandar
Aqui é uma grande guerra
Sem esperança de um dia acabar.

Se alguém um dia ordenou
Sem as ordens bem sopesar
Agora viverá ordenando
Sem ter a quem comandar.

O sexto círculo pune
Quem em vida foi violento.
Aqui fica quem se violou
E não se deu ao devido respeito.

Verão a saída do inferno
Tão perto, ao alcance da mão,
Mas para a liberdade alcançar
Mais do que aguentam então sofrerão.

O sétimo círculo pune
Quem tomou mais do que pôde dar
É o inferno que pune a gula
De quem cobra o que não quer doar.

O último e mais cruel
De todo o inferno e lugar
É onde se pode escolher
O castigo que irá enfrentar.

É um castelo de infinitas salas
Com torturas sempre a piorar
Mas ninguém sofre nenhuma
Pois procuram o pior torturar.

Esse é o inferno daqueles
que viveram intenso cobrar
de si mesmos sempre tentando
o perfeito um dia alcançar.

Chegando a viagem ao fim
Meu guia me lembrou de explicar
A todos que um dia ouvirem
De minha viagem ao inferno o cantar.

Devo a todos dizer
E em especial um grande alertar
Que pecar contra a própria vontade
É o pior de todo o pecar.

Pois não espera nem morte nem fim
Para ao inferno alguém condenar.
Quem nega a si mesmo o viver
Não precisa o inferno esperar.

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O Castelo na Lua.

January 16, 2015 § Leave a comment

Dizem que na Lua existe um castelo.

Chegar nele é fácil. Saia da planície de Manilus, ande pela estrada que separa o Mar da Tranquilidade e o Mar da Serenidade, vire à esquerda e siga até o Lacus Somniorum, o lago dos sonhos.

No lago dos sonhos peça para os cisnes brancos ou negros te levarem até o Castelo do Lago dos Sonhos. Mas cuidado: um deles fala a verdade, outro mente. E não adianta tentar usar a solução clássica desse problema porque, às vezes, o que fala a verdade mente e o que mente fala a verdade. E se você disser que isso é injusto, eles rirão da sua cara e dirão que a Lua não é lugar de justiça, e eles não tem nenhum compromisso nem com a verdade e nem como a certeza.

Mas supondo que você saiba distinguir a verdade da mentira e escolher a indicação correta, você caminhará até o Castelo do Lago dos Sonhos. Melhor, você correrá até o castelo, mas não será o único. Por uma ilusão de ótica, você vai achar que ele está muito mais perto do que de fato está, e, ansioso, correrá. Ironicamente, no entanto, correndo ou andando, você chegará no momento correto. Alguns psicólogos dirão que isso é um efeito da percepção do tempo em um momento de ansiedade. Os cientistas dirão que é um efeito da difração da luz. Alguns poetas dirão que o castelo te esperaria mais tempo. Mas,novamente,  assim como nos cisnes, é melhor você saber distinguir a verdade da mentira.

Na porta do Castelo há um Grifo e um Dragão. É muito importante que você não ouça o que eles dizem. Via de regra eles falam sobre o tempo, mas com frequência começam a discutir sobre notícias, política, futebol e escândalos. Muito provavelmente eles brigarão sem parar e você não receberá informação alguma deles. Talvez eles te mostrem uma selfie em Cancún, uma foto amamentando um Leão, beijando um golfinho ou outra coisa fútil. Apenas ignore.

Você então parará perante a porta e poderia jurar que ela é feita de alabastro. Mas isso seria falso. Você não conhece alabastro. Provavelmente ninguém que você conhece conhece alabastro e provavelmente você precisaria de mais do que seis conhecidos-de-conhecidos para encontrar alguém que conhece alabastro. É uma palavra perdida nos livros, fadada a ser esquecida, como tantas outras.

Então você pensará em bater à porta. E se questionará porquê. Há a necessidade de adentrar assim? Por que não beijá-la? Acariciá-la? Talvez conversar com ela, perguntar se ela conhece alguém que conhece alabastro ou outra coisa para quebrar o gelo. Com o tempo ela se abrirá e você entrará. Talvez você se sinta constrangido de deixá-la para trás, afinal, não se cruza duas vezes o portão do Castelo da Lua, mas não se sinta. Ela não guarda rancores.

Você deixará os cisnes para trás, os que falam verdades e mentiras, os guardiões do castelo, que falam futilidades, e a porta, que nada disse, e talvez seja de quem você sinta mais saudades, e então você entrará no salão de festas, e se sentirá triste por não ter festa alguma. Talvez você pergunte onde estão as pessoas, mas suas perguntas não terão resposta. Aqui é a Lua, não um lugar de respostas.

Sem respostas para suas perguntas, você continuará em frente, rezando para que algo aconteça e desejando para que o que acontecer seja bom. Tudo isso é irrelevante. Aqui não é lugar de orações nem de desejos. Você encontrará uma sala com dois tronos. Nele não estão sentados nem um Rei e nem uma Rainha. Há muito esse castelo não tem nem Rei e nem Rainha. Dizem que se o Eclipse do Sol cair num domingo você pode encontrar os legítimos Regentes. Mas faz tanto tempo que isso não acontece que ninguém se lembra mais e, se acontecer, talvez os confundam com mais um funcionário ou outro turista, o que seria verdade, fosse a Lua um lugar de verdades.

Esse é o Salão dos Segredos e Mistérios. Em um dos tronos senta um dos guardiões. No outro o outro. Você perguntará qual é qual. Um não responderá, outro lhe perguntará qual a diferença. De qualquer forma, ambos responderam. Talvez você peça um mistério. Talvez você peça um segredo. E você receberá. Mas não saberá se é um mistério ou um segredo. Temendo se trate de um segredo, não perguntará a ninguém o mistério. Acreditando ser um mistério, perderá um segredo. Guarde silêncio. O tempo das palavras ficou na porta. E por isso você sentirá saudades da porta.

Carregando seu segredo nas mãos, você encontrará vários espelhos. E eles rirão de você. Isso é injusto, mas aqui não é local de justiça. É local de espelhos. Não se apegue a eles. Espelhos mostram você e o que fica atrás de você. Uma dessas coisas vai mudar, a outra não. E é muito perigoso trocar uma pela outra.

Tão logo você pare de se importar com os espelho (você não deveria nem ter começado), você será conduzido ao quarto de hóspedes, mas não poderá dormir nele. Quando você perguntar por quê, não receberá resposta. Talvez você se pergunte se isso é mais um mistério ou mais um segredo. Mas, novamente, você ficará sem respostas. Não se questione se a falta de respostas é um novo mistério ou segredo. O tempo é curto e o paradoxo de Zenão há muito foi resolvido.

Se você não tiver mais dúvidas, você sairá do quarto. Se você ainda tiver dúvidas, andar lhe ajudará a pensar e você sairá do quarto onde não pode dormir. A primeira porta que você encontrar lhe levará à saída. As demais também, mas você parará de procurar na primeira. Você sairá pelo lado escuro do castelo, no lado escuro da lua. De lá você não tirará nem mistérios e nem segredos, mas talvez relembre toda a viagem inúmeras vezes, sem sequer se atentar para o mais importante.

Desce.

August 16, 2014 § 5 Comments

– Desce!

A porta do elevador parou quase fechando e se abriu novamente. Ele pensou que era um milagre que ainda existissem pessoas educadas. Ao entrar no elevador o milagre se explicou: quem segurara a porta fora uma velhinha muito mais idosa que ele, recém-chegado aos seus quarenta e cinco anos de vida e se sentia na típica meia idade.

– Obrigado! Eu ia me atrasar ainda mais se tivesse que esperar o elevador voltar.

– Não tem de quê, meu filho, eu sei como você andam apressados hoje em dia. – A velhinha sorriu por trás de seus óculos de armação amarelada que mal permitiam ver o escuro dos olhos, e o homem percebeu que um dos olhos dela estava tapado com um curativo, talvez resultado de uma cirurgia. Suas roupas discretas lhe caíam bem. Eram muito bem cuidadas, embora parecessem antigas. Um perfume mal-lembrado cutucava seu cérebro. Uma mistura de talco ou sabonete com móveis antigos. Se algum dia quisesse desenhar uma vivó, com certeza teria uma modelo perfeita à sua frente.

Apertou o botão para descer para a garagem e viu a porta se fechar. Após o movimento do elevador quebrou o breve silêncio constrangedor:

– A senhora é mãe de algum morador? Nunca te vi no prédio antes…

– Sou sim… Ou melhor, era… Era mãe do morator do 303. Vim arrumar as coisas que eram dele para doação.

– Eram? – perguntou apreensivo.

– Sim, ele faleceu há duas semanas.

– Ah. Sinto muito. – disse arrependido por ter substituído o silêncio constrangedor pelo diálogo constrangedor.

– Não sinta. Foi melhor assim. Ele estava muito velho e muito cansado.

Involuntariamente seus lábios se contraíram. Não estivesse constrangido por já ter cometido um faux pas, riria abertamente.

– É engraçado, não?

– Não, é que…

– Não se justifique, sim, eu sei que é engraçado. Uma velha falando que seu filho estava muito velho e cansado. Não é algo que se vê todos os dias.

– Me desculpe, é que…

– Também não se desculpe… Você não tem culpa de nada. Vocês que estão acostumados a associar cansaço à velhice… Se isso fosse verdade, não teria tantos de vocês se arrastando por aí.

Tentou falar algo, mas o peso dos ossos o fez concordar. Quantas vezes não desejara que o dia não amanhecesse apenas para não ter que se levantar? Mas o sol insistia em amanhecer.

– Sabe, ele nunca mais se recuperou do falecimento da esposa. Quando eles se casaram eu sabia que ela era a razão dele viver. Quando ela morreu, eu sabia que ele não duraria muito tempo.

– Ela morreu faz muito tempo?

– Trinta e cinco anos.

Mais uma vez sua expressão o traiu. Talvez tenha sido o virar de face para a encarar, talvez o olhar surpreso, ou até as narinas, que sempre se dilatavam quando era surpreendido, mas novamente a senhora percebeu.

– O que foi? Surpreso por eu chamar trinta e poucos anos de pouco tempo?

– Não, surpreso por ele nunca ter superado a morte da esposa em trinta e cinco anos. É o tipo de história de viuvez que eu pensei que não existia mais. Sei lá… ele nunca se interessou por mais ninguém?

– Sim, se interessou. Teve outras namoradas e até se casou novamente. Mas isso não é superar. É fingir. Poucas pessoas superam alguma coisa hoje em dia. Saudades é um gás fedorento. Você se acostuma com o cheiro, mas, se deixar, ele rouba o espaço do oxigênio. Então as pessoas andam, correm, conhecem outras pessoas, ficam em movimento como tubarões, porque sabem que se afogam em saudades se parar. E assim sobrevivem. Mas se pararem, morrem. E todo mundo cansa um dia. Só existem dois tipos de morte: assassinato e saudades.

– Nossa… isso não é um pouco exagerado?

– Saudades da Tina?

Não tentou disfarçar. Suas pálbebras se fecharam como se quisessem cortar suas retinas, lágrimas se precipitaram e ao mesmo tempo que seu joelhos fraquejaram suas unhas cortaram suas mãos. Suas mandíbulas contraíram e talvez ele tenha trincado dois dentes. Um nó na garganta amarrou o ar nos pulmões e um soluço escapou ranhento.

– Quem é você? Como você sabe?

– Eu sou uma velha que veio empacotar as coisas do filho. E eu sei porque não dá pra não saber. Você respira o nome dela, o rosto dela está queimado nas suas retinas e na sua mão direita ainda tem um resto da pintinha que ela tem no colo. Ela é o amor da sua vida e você não é o dela. Você acha mesmo que eu saber dela é tão mais estranho que esse elevador não ter chegado ainda ao sub-solo?

– Mas… Por que?

– Não sei. Desisti de saber faz muito tempo. Vocês têm essa mania de procurar causa pra tudo. Nem sempre foi assim, sabia? Teve um tempo em que as coisas aconteciam “porque deus quis”. Acho que eu não consegui me livrar dos velhos hábitos.

– Quantos anos você tem?

– Não sei. Todas essas mudanças de calendário bagunçam a cabeça de uma velha. Até hoje eu não entendo por que criar esse tal de ano bissexto.

– Isso é impossível!

– Não, não é. Já te falei: só existem dois tipos de morte: saudades e assassinato. Alguns têm sorte e morrem rápido. Os que têm azar morrem de saudades. Perdem um amor aqui, um amigo ali, o cachorro acolá, se arrependem de não ter ido falar com alguém, de não terem aprendido a dançar… e quando menos esperam, morrem de saudades. Sim, uns vão falar que foi um acidente de carro, outros que foi doença, outros que ele se alimentava mal. Mas em quê você acha que o motorista estava pensando? Por quê alguém fumaria tanto? É tão difícil assim comer a salada? Vocês são muito orgulhosos. Preferem passar por viciados, maus motoristas, bêbados e descuidados a simplesmente admitir que sentem saudades.

– SIM, É VERDADE, EU AMO A TINA! E DAÍ?!

-E daí nada. Ela ama alguém que não a ama, e assim vocês humanos vão vivendo. Sabia que ninguém vai ficar com o amor da própria vida? Deu tudo errado no comecinho. Por isso o crime de Caim foi tão grande. Abel, aquele paspalho, passava os dias vendo plantinhas crescerem. Um desperdício de vida na face da Terra. Mas era o amor de Irruá. Caim o matou e dali em diante nada mais deu certo. E aqueles velhos excluíram Irruá da história. Nunca confie em quem tem o poder de censurar.

– Espera… Você quer me dizer que você conheceu Caim? aquele Caim? O que foi condenado por Deus por assassinato?

Uma gargalhada gostosa, que mostrou todos os dentes da senhora o surpreendeu.

– Assassinato? Desde quando assassinato é crime? Assassinato é como colocar laxante na comida de alguém. Você só está antecipando um evento natural. Matar alguém não é um pecado contra Deus, é um pecado contra as pessoas. Por isso Deus puniu Caim com a vida eterna: não pela morte de Abel, mas por estragar a Terra. Você nunca se perguntou por quê alguém seria punido com a vida eterna? E sim… conheci Caim. Jantamos de vez em quando.

-…

– Você quer saber como viver pra sempre, não? Todos querem. Quer saber o segredo? Eu vou te dizer: Não tenha saudades. Não deseje voltar praquela tarde no parque em que seus dedos massagearam as curvas dela enquanto você sentia o perfume de seu cabelo. Esqueça.

– É impossível…

-Eu sei. Por isso vocês se chamam “mortais”.

DING!

A porta do elevador interna se abriu e ele saiu empurrando a porta externa. Parou abrindo a saída para a velhinha, retribuindo aqilo que ele confundira com uma gentileza pouco antes, enquanto se esforçava para sustentar o olhar em seu rosto.

– Não, obrigado – ela disse – já cheguei onde queria chegar.

Casa V.

December 6, 2013 § 11 Comments

Vamos pra casa? Não pra sua ou pra minha. Pra casa de infância. Casa de avó. Pra casa de sonhos, na qual somos piratas, ninjas, cavaleiros e astronautas. Na casa onde a sobremesa vem antes da janta e não precisamos comer a salada.

Vem e me guarda. A sete chaves e com chave de ouro. Me guarda no peito, no bolso e no olhar. Não me economiza. Me guarda sem medo de gastar. Se veste de noiva pra nadar no mar. Joga futebol no seu baile de debutantes. Toma iogurte em taça de prata.

Vamos que com você eu sou mais eu. Pra você eu sou mais eu. Porque eu quero a prisão da sua queda livre. Eu trocaria o paraquedas por uma pirueta. Eu bateria asas pra acelerar.

Você é o destino meu livre arbítrio. O cumprimento sem compromisso. A promessa quieta sem juro ou risco. Um casamento sem padre nem testemunha. Sem aliados nem alianças, pois beijos e abraços não são promessas e contratos.

Vai, me recebe na sua casa. Abre as portas e fecha as janelas. Me recebe como se eu fosse o último hóspede. Porque você é minha última estada. Perdoa o atraso. A estrada era longa e a noite foi negra. Deixei minhas lágrimas e perdi estrelas. Carreguei muitas malas enquanto você se cansava.

Vem descansar, amor. Descansa no hoje que o amanhã vai vir. Viva no agora que ele vira pra sempre. Dorme na noite até ela virar um sol, rompendo em aurora e socando as retinas. Rompendo as pálpebras dos bêbados e das cafetinas. Segura minha mão que o sol já vai nascer e é hora de dormir. É hora de sonhar enquanto os padres rezam as missas, os banqueiros fecham contratos e os ternos vazios ligam os computadores.

Vem que nós vamos rasgar as pálpebras das estátuas de pedra, correr a cavalo nos trilhos do metrô, comer pão com manteiga molhado no café com leito, ofender o bom senso, o carro do ano e a previdência privada.

Vem viver de brinde surpresa e manhã de natal. De subversão e de ser voluntário. Guerrear contra o ordenado e o ordinário. Vamos arremessar pétalas de rosas ao mundo enquanto nos agredimos a golpes de beijos. Vamos grafitar com tinta invisível praças, pontes e leitos. Que hoje o agora é pra sempre.

Eu Sempre Tive um Pouco de Medo das Noites sem Lua.

April 9, 2013 § 14 Comments

Eu sempre tive um pouco de medo das noites sem lua, sabe? Não sei dizer porque. É desde criança.

A primeira coisa que eu me lembro foi quando eu ouvi um gato chorando como um bebê. Já ouviu um gato chorando como bebê? É horrível. Começa como uma porta rangendo ou uma dobradiça muito enferrujada. E segue crescendo, como uma sinfonia, uma sinfonia de choro, tocada num violino, num violino de cordas vocais.

Era numa noite sem lua.

Conforme fui crescendo, o medo foi crescendo, como um buraco, sabe? Um buraco de escuro, um buraco num tecido, um tecido que se estica e se deforma e se alarga muito esticado e que você sabe, você sabe, simplesmente sabe, okey?, que nunca vai voltar pro tamanho certo.

Obviamente eu nunca perdi o controle. Não, isso nunca, isso nunca. O mais estranho que podia acontecer eram recusas a bons convites. “Tô passando meio mal.” “Já tenho um encontro.” “Acordo cedo amanhã.” Sabe essas desculpas? Essas desculpas que todo mundo usa? Então, eu usava pra me esconder, pra me esconder das noites sem lua.

Era uma alergia. Uma alergia mental. Uma alergia mensal. Se sou alérgico a abelhas, fujo de abelhas. Se sou alérgico a gatos, me escondo de gatos. Eu me escondia das noites sem lua.

Sim, é verdade: noites sem lua nunca me deixaram com o nariz escorrendo. Mas eu sabia, entende?, EU SABIA que alguma coisa ruim ia acontecer se eu não me escondesse, se eu não me escondesse das noites sem lua.

E eu me escondia.

Mas aí ela aconteceu.

Era inverno e eu estava correndo para chegar em casa. No inverno fica tarde mais cedo. É desesperador. Eu passei na padaria. Para comprar leite e pão e queijo e, meu deus, e mais alguma coisa, mais alguma comida, mais qualquer coisa para ficar em casa na noite sem lua.

E ela apareceu. No início da noite sem lua. Toda de branco. Linda. Eu a vi e ela viu que eu a vi. E nos vimos. E ela sorriu. Um sorriso de pequenas luas brancas, simétricas e úmidas, protegidas por lábios. Não um sorriso de falsa tímida. Nem um sorriso de sedutora pretensiosa. Sorriu. Me deu um sorriso crescente e eu, com pressa, respondi com um aceno minguado.

Tenta entender, tenta entender: eu não sou tímido. E nem inseguro. Era culpa da noite. Da noite sem lua. Eu tinha que correr. Tinha que voltar pra casa. E eu corri. E esqueci o celular no caixa.

Quando cheguei em casa, liguei pro meu celular. Ela atendeu. E ela tinha a voz. A voz da lua que faltava. A voz da lua que ME faltava naquela noite. Toda de branco. Linda. E me disse que estava na padaria me esperando. Me devolveria o celular. Se eu tomasse um café com ela. Ela me convidou. ELA!

Eu nunca me perdoaria se eu não fosse. Eu tinha que ir. Não haveria noite sem lua naquela noite. Não haveria noite sem lua nunca mais! NUNCA MAIS, entende? Ela seria minha lua. Se eu conseguisse fazer isso, eu não teria mais que fugir.

E eu voltei. Não correndo. Não fugindo. Caminhando. Caminhando numa estrada de estrelas que me levaria pra lua. Pra minha lua.

Mas quando eu cheguei lá. Quando eu cheguei, meu deus, quando eu cheguei. Eu não entendi direito. Era uma mistura de vermelho e azul, girando e girando. Me falaram alguma coisa sobre um trombadinha, sobre um celular e sobre uma faca e sobre um não, um me dá, um não, um quer morrer, um socorro e um tarde demais. Um tarde demais.

E eu fugi, eu fugi, eu fugi da noite sem lua e da lua caída no chão, toda de branco, linda, escorrendo vermelho e me convidando para um café. Corri para as minhas portas e trancas e chaves e fechaduras e pra me proteger da noite sem lua.

A noite sem lua que fez isso. Que me fez esquecer o celular. E fez ela me esperar. E me desafiou a andar devagar. Eu não podia saber. Foi sem querer. Eu juro que foi sem querer. Não foi minha culpa esquecer o celular. Não foi minha culpa andar devagar. Foi culpa da noite. Da noite sem lua.

Harley Davidson.

February 20, 2013 § 16 Comments

Kajeesh Rajal estava em seu laboratório trabalhando até mais tarde novamente.

Não que “mais tarde” fosse algo relevante naquela noite ou em qualquer outra. “Mais tarde”, na verdade, seria apenas uma exceção se comparado aos demais professores do departamento. Kajeesh não era uma exceção em hábito, apenas uma exceção em intensidade. Muitos trabalhavam até muito mais tarde. Muitos trabalhavam até mais tarde com frequência. Poucos trabalhavam até muito mais tarde com frequência.

Kajeesh estava entretido em seu estudo, adiantando o trabalho do dia seguinte. Não que mais esforço pudesse fazer com que sua pesquisa terminasse mais cedo. Isso não ocorreria: precisava que os dados fossem coletados em um intervalo de tempo preciso. Por isso não tinha pressa. Sabia que  Murtington ganharia o Nobel daquele ano, se não tivesse mais uma crise de solidão e procurasse a ex-esposa novamente. Se isso ocorresse sua pesquisa se atrasaria em 17 semanas e ele só ganharia o Nobel no próximo ano, o que era o plano de Kajeesh.

Se Murtington se desesperasse, Kajeesh esperaria mais um ano. O pobre diabo precisa de algum sonho se realizando na vida dele, afinal.

Enquanto aguardava que seu computador vetorizasse todos os dados coletados Kajeesh aproveitava para reavaliar seus apontamentos teóricos na parede pintada de quadro negro de seu laboratório, uma pequena excentricidade feita sete anos atrás que reduziria suas promoções dentro do departamento em cerca de 20%. Valera cada centavo.

Sem se desconcentrar, Kajeesh ouvia passos de salto alto feminino no corredor, algo que lhe causara uma curiosidade saudável. Ninguém usando um salto que fazia aquele barulho ficaria até aquela hora. Ninguém a não ser alguém muito desesperado para ser notado e demonstrar trabalho. Deveria ser a menina nova, assistente de Murtington.

À medida em que os passos se aproximavam de sua porta a curiosidade a respeito da dona dos passos foi substituída pela curiosidade a respeito das razões de sua aproximação. Era praticamente óbvio que ela iria até aquele setor do laboratório. Batidas soaram à porta. “Entre”, disse Kajeesh.

– Com licença. – disse a jovem assistente à medida que entrava, um salto vermelho maior do que o recomendado para a função de assistente de um professor de renome, mas que talvez fizesse o pobre Murtington esquecer a ex-esposa e se dedicar à sua pesquisa, pensou Kajeesh.

– Por favor, tenha a bondade. – respondeu Kajeesh à medida em que se virava e reconhecia uma das velhas caixas do arquivo morto – Em que posso ajudá-la Senhora…?

– Mariana. E por favor, sem o Senhora, Professor Rajal.

– Então pode me chamar de Kajeesh – disse enquanto largava o giz sobre a mesa e limpava os óculos redondos e de armação fina – posso ajudá-la em algo?

– Sim, pode… quer dizer, eu acho. Dr. Murtington pediu que eu localizasse no arquivo morto suas pastas sobre suas velhas pesquisas a respeito de pseudo-cristais e…

– Ah sim, assunto fascinante. Achei mesmo que ele procuraria reativar tal pesquisa após a descoberta dos cristais não isomórficos. Se me permite uma indiscrição, acredito que ele deveria manter o foco em sua pesquisa de cristalização de isótopos radioativos. Me parece mais inovador e promissor que uma velha e despicienda teoria adolescente, ainda que muito curiosa. Você deverá encontrar tais pastas no balcão 17.

– Sim, sim… Balcão 17, armário 23. Deus sabe como aquilo está velho e empoeirado.

– Presumo que já as localizou, portanto. Há mais alguma coisa na qual eu deveria ajudá-la?

– Sim, há… Quer dizer, acho. Não sei bem ao certo.

– Perdão?

– É que… Bem, eu tive que passar por muitos armários antes de localizar a caixa correta. E antes de localizar a caixa correta eu passeei por diversas caixas, balcões e estantes… A Arquivista naquela época era um pouco desleixada e…

– Sim, sim, me lembro muito bem da Senhora Esteves. E?

– E eu encontrei encontrei uma pasta com um nome curioso. Projeto “Harley Davidson”.

– Ah. – Kajeesh levantou um pouco as sombrancelha, num breve franzir de cenho  – Imagino que você ficou horas lendo minhas velhas anotações, se atrasou com suas responsabilidades e veio aqui discutir comigo algum ponto que considerou revolucionário ou por demais complexo?

– Ambos. Não entendi, ao certo, nem metade das demonstrações teóricas. As aplicações práticas, então, me pareceram ininteligíveis. Mas…

– Mas?

– Eu vi referências… Ou sugestões, não sei… A um… um…

– Moto-Perpétuo? – Perguntou Rajeesh com certo enfado.

– Então é verdade? – Mariana dilatou o olhar, incrédula.

Heh. Mais ou menos. Para todos os fins teóricos, não. Harley Davidson foi uma brincadeira adolescente sobre a “Motocicleta Eterna”.

– Mas para fins práticos…

– Para fins práticos seria um Moto-Perpétuo. Pelo menos no sentido de que não haveria nenhuma fonte de energia auxiliar material.

– Mas o Moto-Perpétuo é impossível! Precisaríamos de uma saída de calor que estivesse em Zero Kelvin! Zero absoluto!

– Sim, sim, sim… eu sei. Perceba, eu não disse que era efetivamente um moto-perpétuo. Não para fins teóricos. Na verdade, eu nunca procurei o Moto-Perpétuo. Isso é o equivalente moderno científico de buscar a Pedra Filosofal. Isso foi apenas uma aplicação prática de uma descoberta teórica acidental. Imagino que você tenha estudado sobre as derivações matemáticas das infinitas dimensões possíveis, não?

– Claro.

– Pois bem. Na época, empolgado com a Teoria das Supercordas, estava derivando dimensões distintas. E encontrei diversas. Qualquer um poderia fazer o mesmo. Diversas pessoas fizeram. Salvo engano, é matéria de graduação. Perfumaria para a maioria das pessoas.

– Mas?

– Mas, primeiramente me perdoe se eu a poupar da explicação, mas se você passou horas lendo meus apontamentos e não os entendeu, não os entenderá agora. O resumo de tudo é: descobri uma forma de acessar tais dimensões. Acessar e fazer medições.

– Isso é Formidável! O Senhor deveria ter ganho um Nobel por isso! Por quê não publicou?

– Porque no curso da pesquisa, descobri algo ainda mais interessante: a medição emn dois pontos diferentes gerava uma certa diferença de potencial. E aparentemente as leis da natureza se aplicam à essa outra dimensão também. Heh. Eu quase explodi um laboratório com os experimentos.

– Então… Se tem diferença de potencial…

– Exato: você pode criar dois pontos de acesso e utilizando a diferença de potencial criar movimento. Criando movimento, cria-se energia. Muita energia, por sinal. É o mesmo princípio da utilização de imãs para gerar corrente elétrica, só que ao invés de acessar a dimensão magnética, que será descoberta provavelmente por um pesquisador alemão da Universidade de Bonn, que está no caminho certo mas você nunca deve ter ouvido falar, acessamos o que chamei posteriormente de dimensão Alpha.

– Então além de descobrir uma forma de acesso às dimensões o Senhor ainda descobriu como utilizar isso como forma de energia? Não entendo! Por que você não publicou, Professor? Poderíamos acaber definitivamente com nossa dependência de petróleo ou energia nuclear ou… ou… Qualquer coisa!

– Sim, sim, sim… Eu sei… Sabe… eu sinto saudades dessa emoção que você está sentindo agora…

– Mas se o Senhor sabia utilizar e se sabia as aplicações disso, por que não publicou? Ou patenteou? Isso seria equivalente à descoberta do Fogo!

– Não a culpo por pensar assim. Foi resumidamente o que eu pensei quando percebi as aplicações práticas da descoberta. Ao contrário de você, no entanto, e para o nosso bem, eu fui um pouco mais cauteloso e decidi fazer alguns experimentos. Comecei montanto em casa um gerador simples de energia. Pelos meus cálculos, seria suficiente para manter uma cidade pequena funcionando por alguns anos. Também fiz uma pequena adaptação no carro de minha falecida esposa. queria saber quanto tempo demoraria para que a energia se esgotasse. Para que a diferença de potencial virasse zero. Ou para que houvesse uma flutuação de corrente.

– E…?

– E muito para minha surpresa, a diferença de potencial não variava. O fluxo de energia Alpha era constante em minha casa. E no carro de minha esposa também. Era perfeito.

– Então por que o Senhor não Publicou?!

– Veja bem… a caixa que você trouxe era os arquivos que seriam remetidos à publicação. E eu os teria enviado não fosse pela doença de minha finada esposa. Você deve ter ouvido falar, não?

– Sim… Ela se matou, não? Estava deprimida, correto?

– Sim, sim, correto. Perceba, à medida em que se aproximava da época da publicação, sua condição se agravava. Aos poucos seu quadro depressivo se aprofundava. Fisicamente, estava perfeita. Nem sinal de qualquer alteração. Nem mesmo cerebral, o que fazia com que as drogas ministradas tivessem efeito pífio. Pedi afastamento por seis meses para cuidar dela. Tinha esperança de que poderia salvá-la. A dor… a dor de vê-la daquele jeito. Nada justificaria que eu deixasse ela morrer para colher um Nobel. Na pior das hipóteses, alguém poderia publicar meus trabalhos, caso fossem capazes de encontrar essa caixa e vissem em minha casa que a aplicação prática era possível. Em 7 anos uma equipe dessa Universidade entenderia os cálculos.

– Mas?

– Mas o estado de minha esposa se agravava. Ela não desejava comer. Não desejava beber. Se não fosse por mim, nosso cachorro teria morrido de fome… ou fugido. Eu a levava de médico a médico. “Está tudo ótimo” diziam. “É um problema psicológico” diziam. Mas nada resolvia. Primeiro tiveram que a alimentar. Depois ela se negou a comer de todas as formas. Precisamos colocar fraldas geriátricas nela. Ela não se importava de evacuar em si mesma. Passamos a alimentá-la por sondas. Ela estava quase catatônica.

– E o que aconteceu?

– Um dia eu entrei em seu quarto e ela havia furado repetidamente a própria jugular com a agulha do soro.

– O quê?!

– Sim, chocante. Fico pensando quanta dor ela deve ter sentido antes de morrer. Na prática ela descosturou a própria jugular, rasgando com as unhas a carne após perfurá-la. Mas acho que nem a dor mais importava para ela.

– Sinto muito…

– Sim, eu sei. Eu diria que “eu também”, mas eu não sentia. Estranho, não? Inicialmente eu achei que era uma estratégia de Luto. Pelo menos foi o que meu psicanalista dizia. Mas um dia eu encontrei uma carta dela. Dobrada em uma gaveta. Datada de poucas semanas antes de seu suicídio.

– E o que dizia essa carta?

– Leia você mesma – Disse Kajeesh enquanto abria a carteira e entregava uma folha amarelada cuidadosamente dobrada.

Mariana pegou a carta e abriu, com cuidado para não machucar o papel envelhecido. Dentro, escrito com batom vermelho, em letras quase analfabetas de tão descuidadas estava escrito “Eu não sonho mais”.

“Eu não sonho mais”? O que isso quer dizer?

– Aparentemente quer dizer exatamente o que diz. Ela parou de sonhar. Dizem que todos sonham e minha esposa, especialmente, tinha sonhos muito claros. Imediatamente entendi que tal fato estava associado à sua doença, talvez como causa, talvez como consequência. Mas minha maior surpresa foi verificar as leituras do “Moto-Perpétuo”. Na noite de sua morte houve uma significante flutuação de corrente. Como se o gerador tivesse se desligado dela e depois tivesse se ligado a outra pessoa. Se ligado a mim.

– Como assim?

– Aparentemente a Dimensão Alpha, e esse nome foi intendional e posterior ao falecimento de minha esposa, é a dimensão onde existem os sonhos. Poucos sonhos são criados. A maioria deles são re-sonhados todas as noites. Quando montei em minha casa o reator, ele se harmonizou com uma pessoa aleatória e próxima. Minha esposa. à medida que gerava energia, ia equilibrando a diferença de potencial na dimensão dos sonhos de minha ex-esposa. O que era preto ia se tornando cinza. O que era branco ia se tornando cinza. Todos os opostos iam se equiparando até que a diferença de potencial cessasse. E quando se ligou a mim… meus sonhos também estavam perdendo o contraste.

– Isso… isso é loucura!

– Loucura? Teorizam hoje sobre a dimensão na qual as frequêncais eletromagnéticas atuam. Teorizam que a Gravidade é uma distorção do Espaço-Tempo. Nós utilizamos diariamente ambas as dimensões para criar energia elétrica. Eu só usei uma dimensão desconhecida. A Dimensão dos Sonhos. Por deus… Ptolomeu já usava uma teoria semelhante para explicar a Astrologia.

– E o que… O que o Senhor fez?

– Desliguei a máquina. Desliguei a máquina usando uma marreta de dois quilos e meio. Se tivesse uma maior, teria usado.

– E depois?

– Depois eu voltei a sonhar? Depois eu decidi publicar os resultados? Não e não. Eu diria que “para meu desespero, a pasteurização da Dimensão Alpha é passageira”, mas seriam duas mentiras: não é passageira e eu perdi a capacidade de me desesperar. Também sou incapaz de odiar, amar, sofrer, me jactar, desejar e ojerizar. O mundo é uma grande xerox de xerox de xerox de uma identidade velha para mim.

Mariana permanecia em silêncio. Estaria de queixo caído, não mantivesse os lábios fechados.

– Depois eu queimei os documentos? – Prosseguiu Kajeesh – Como você pode perceber, não. Não tive vontade. Por sorte fui capaz de criar uma programação pessoal para viver. Me apeguei a valores morais arbitrários. Acho que se minha falecida esposa não tivesse ficado tanto tempo ligada à máquina, teria sido capaz de fazer a mesma coisa.

– Então… o que você pretende fazer?

– Nada. Perceba, decidi permanecer um indivíduo útil e mudei minha linha de pesquisa. Essa descoberta… esse invento, releguei à lata do lixo. É inútil. De que adianta um carro se você não deseja sair de casa? Um avião se ninguém deseja viajar? Para que serve o tempero para quem não deseja comida? De que adianta a pornografia para quem não deseja sexo? Para que serve toda a energia potencial do mundo a alguém que não tem sonhos? Por mim, incapaz de ter qualquer desejo sobre o que fazer com essa descoberta, levantei essa matriz no fundo da caixa.

Kajeesh se dirigiu à caixa e retirou um velho gráfico.

– Veja, pelas minhas contas, se esse produto fosse colocado no mercado, obviamente sem o conhecimento dessa externalidade onírico-destrutiva, em cerca de seis meses todos os usuários primários estariam mortos. Mais seis meses os secundários. Acredito que a maior parte das pessoas não se importaria ou não perceberia que estava sacrificando seus sonhos para não ter que gastar mais com gasolina. Em uma perspectiva pessimista, a civilização estaria destruída em 3 anos. Em uma otimista, eu entraria para a história como o pior ser humano já existente. Embora eu não ligasse para a perspectiva otimista, a pessimista seria um risco grande demais. Arquivei o projeto. O mundo não precisa de mais pessoas moendo os sonhos para andar num carro novo.

Mariana permaneceu em um frio e incrédulo silêncio. Era tudo por demais inacreditável… mas batia perfeitamente com toda a história da vida do Dr. Rajal.

– E agora, Senhora Mariana? O que a Senhora pretende fazer depois de saber que pode, com cerca de onze anos de estudo sozinha, ganhar um Nobel e condenar a raça humana?

– Queimar, – disse Mariana mecanicamente – queimar tudo, se o Senhor permitir, Professor.

– Permitir? Eu não me importo.

O alarme do celular de Kajeesh toco, fazendo com que ele o tirasse do bolso.

– Onze e meia – prosseguiu o professor enquanto recolocava o alarme no bolso – preciso ir comer algo e dormir. Senão meu rendimento vai cair vinte e três por cento amanhã. Peço que queime longe daqui esse arquivo, Senhora Mariana. E se me der licença, por favor, vá agora enquanto fecho minha sala.

–  Claro – disse Mariana enquanto pegava a caixa e se dirigia à saída.

– Ah, e Senhora Mariana?

– Sim? – disse Mariana se virando brevemente.

– Tenha bons sonhos.

Cortinas.

December 5, 2011 § Leave a comment

Começara durante o trabalho.

Era como se uma mancha residual, muito breve, permanecesse em sua visão após piscar.

Isto o deixara preocupado: tinha mais de cinquenta anos e se aproximava da aposentadoria. Trabalhar uma vida inteira em uma repartição pública para, na velhice, terminar cego seria mais uma prova da inegável injustiça da vida.

O médico, com sua camisa em monótono xadrez, no entanto, o tranquilizou: fora um aumentozinho na hipermetropia, ele estava ótimo. Sem chances de glaucoma, catarata, descolamento de retina e nem mesmo sujeira no liquor aquoso.

Mas a mancha continuava lá.

Um dia, no banho, lembrou-se de uma brincadeira de criança: abrir e fechar os olhos muito rapidamente, tendo a impressão de que o mundo se movia em câmera lenta. Disseram que era um truque de perspectiva usado por pintores.

Decidiu experimentar.

No início, a mancha meramente se fez visível, mas aos poucos, foi ganhando nitidez. Como se os olhos se acostumassem com aquele perpétuo movimento de abrupto encerrar e reiniciar de visão.

A mancha então ganhou braços, pernas cabelos e forma humana. De uma criança pequena, com olhos muito vermelhos e dentes afiados. Ao se ver percebida, sorriu e começou a andar em direção daquele que a vira, ficando mais próxima a cada piscada.

Sua família ouviu os gritos e arrombou a porta.

Os médicos disseram que poderiam usar soro fisiológico para umedecer os olhos, mas que ele precisava aceitar os enxertos.

Ele disse que arrancaria de novo as pálpebras se tentassem costurá-las de volta.

E pediu para nunca mais apagarem a luz.

Where Am I?

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