Vitória.

October 9, 2017 § Leave a comment

Eu tenho um fraco pela escrita.

Em retrospecto, sempre tive um fraco pela escrita. Costumo dizer que todo mundo escreve na adolescência, mas poucos de nós continuam escrevendo após a adolescência.

A escolha da faculdade foi motivada primordialmente por isso. Nos dizeres de um velho professor a respeito da minha dúvida entre Jornalismo e Letras: “Anarco, você gosta de escrever e a faculdade que ensina a escrever é Direito, não Jornalismo ou Letras.”

Com anos de advocacia, onde, no fundo, eu ganho pra escrever, eu resolvi ser professor de Redação. Após ser escolhido Paraninfo da formatura dos meus alunos, momento no qual eu escrevi um dos melhores textos da minha vida, retornei à advocacia, onde, resumidamente, eu escrevo.

No meio do caminho, tive a oportunidade de trabalhar uns seis meses em uma agência de publicidade, no departamento de “Criação Verbal”. Meu trabalho, de forma resumida, era criar a “Identidade Verbal” para algumas marcas na comunicação institucional interna e externa. Eu era a Voz dessas companhias.

Acho que o bottomline de tudo isso é o fato de que eu escrevo. É isso que eu faço pra viver. Escrevo como advogado, ensinava a escrever (e tinha um prazer egocêntrico gigante em escrever em sala para mostrar para os meus alunos a técnica) e escrevi para empresas.

Eu traço um dos pontos mais importantes dessa atividade toda ao finado Malandricus Bar & Vodka, nos idos de 2003, quando começamos um blog de natureza confessional (como todo blog tem o direito de ser).

Naquela época havia um certo sonho de “escrever profissionalmente”, o que quer que isso significasse. Era o boom dos blogs. Quando o Ruy Goiaba lançava livro e era convidado a ser colunista. Blogs eram a porta de entrada para as mídias tradicionais. Acreditávamos que poderia acontecer com a gente também.

Isso, ainda, não aconteceu. Não escrevi um livro, não me tornei colunista, não tive um filho (que eu saiba) mas plantei uma pá de árvore.

Porém, uma Vitória merece reconhecimento: em parceria com a Legeek assumi a Criação Verbal e Comunicação Institucional da Mansão Rubi. Resumidamente, isso significa que eu fui contratado para escrever. Bi-semanalmente no Facebook e frequentemente no site e nas campanhas. Sou o porta-voz de uma Empresa. De certa forma, sou o Oráculo desse empreendimento.

Eu passo minha vida dividido entre a autocrítica e o auto-reconhecimento. Ainda não tenho meus livros escritos. Ainda não lancei meus cursos. Ainda não conquistei todas as montanhas e picos que ambiciono.

Mas fui escolhido para ser o escriba e orador de um Projeto que traz o coração de seus empresários.

E é uma Honra ser o Oráculo do Coração de alguém.

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Necrofilia.

February 6, 2017 § Leave a comment

Existem centenas de fetiches no mundo. Provavelmente um fetiche diferente para cada ser humano vivo. Ou ao menos para cada grupo pequeno de seres humanos. Eu posso estar errado, mas acho que se chutarmos um fetiche diferente para cada grupo de cinquenta seres humanos, estamos bem.

Fetiche por saltos altos. Certeza.

Fetiches por queijo cottage dentro de saltos altos? Deve ter.

Fetiche por mulheres asiáticas vestindo scarpins cheios de queijo cottage e pisando no mindinho esquerdo de um travesti vendado? Quase certeza que se eu publicar um site sobre isso alguém vai se interessar.

Dos diversos tipos de fetiches que existem, alguns são aceitáveis e outros não.

Tudo bem amarrar uma asiática e enrabá-la.

Sem problemas se vestir de Nazi e querer chicotear alguém.

Prender uma mulher em um móvel e usá-la de objeto sexual não é sem precedentes.

No entanto, pedofilia é um “no no”.

Bestialismo, apesar de não causar grandes problemas é socialmente reprovável.

E necrofilia é um tabu.

E para falar sobre isso hoje que eu vim aqui. Eu sou um Necrófilo.

Sim, eu sou um necrófilo.

Mas por favor, não me entendam mal. Nunca invadi cemitérios ou qualquer coisa do gênero. Isso seria muito baixo e bárbaro. Eu sou adepto de um tipo muito específico e simples de necrofilia. Me considero quase um connoisseur, com um nicho muito específico.

E tenho tesão por amores mortos.

Sim, isso mesmo. Eu fui amaldiçoado com a percepção da minha realidade. E fui amaldiçoado com o dom de ver as coisas mortas. É quase uma mediunidade, mas sem todos os poderes legais envolvidos nela. Eu vejo amores mortos. O tempo todo. Enxergo fantasmas andando pela casa. Vultos de flores mortas e cartas guardadas. Sou capaz de ver plenamente todos os sinais de um amor morto. Os olhos opacos, a boca seca, os lábios contraídos, o mau cheiro e rigor mortis.

Mas não consigo me desvencilhar deles. Eu sei que uma pessoa normal sentiria nojo ou ojeriza ao pensar em fazer amor com um amor morto. Mas eu não sou uma pessoa normal. Diante da certeza da morte do amor eu me sinto compelido a tentar mais. A tentar a ressuscitação mais um pouco (“Já são três dias, mais um pouco e vai dar!”). A me esforçar para ver se, tal qual um Lázaro, o amor morto sai da caverna caminhando sem chagas e dando o testemunho de um milagre.

Mas isso nunca acontece. O amor apodrece e se quebra, revelando o interior decomposto e carregado de vermes que eu sei, mas não quero acreditar.

No fim, enquanto escorre e se mistura, podre, com a terra eu sinto sair do cheiro de carniça, entranhas e vermes, que mastigam carne morta e viva como se uma única coisa fosse, a frase que joga na cara a incapacidade e incompetência:

“Podemos ser amigos.”

Só é despedida quando você não quer que seja. Parte II.

August 7, 2016 § 2 Comments

Ou “Eu não amadureci tanto assim nos últimos dez anos”.

“A morte, o destino, tudo, estava fora de lugar. Eu vivo pra consertar.”

Mais de dez anos atrás um grande amigo saiu de sampa pra ir pro RJ. Por n motivos, mas resumindo, várias coisas ruins aconteceram e ele decidiu começar de novo. Ele fez uma festa de despedida na qual eu não consegui ir, mas como ele era meu colega de apartamento, não faltou a chance de uma última cerveja. E nesse dia eu falei “respeito sua decisão, mas não gosto. Eu gosto dos meus amigos perto de mim.” E ele me respondeu da forma ainda mais surpreendente: “Na minha despedida foram todos os meus amigos de faculdade e trabalho. Mas você foi o único que falou que queria que eu ficasse.”

E era verdade. Eu sabia o que ele queria. E eu queria outra coisa. Porque eu achava o melhor pra ele. Porque eu me importo com o mundo ao meu redor.

Em n motivos eu sou um filho da puta. Às vezes eu rezo pra que um meteoro me esmague e livre o mundo da minha existência. Eu sou bom em uma pá de coisas ruins. Eu sei mentir, eu sei brigar, eu sei tocar a música certa pra fazer as pessoas dançarem. Eu sou um desperdício de matéria orgânica na face da Terra. Seria melhor dividir meu corpo entre três etíopes. Mas eu tenho UMA coisa boa. Uma e apenas uma: eu quero ver as pessoas felizes.

Isso e apenas isso.

Mas tem um problema. Eu quero ver as pessoas felizes, mas não consigo fazer as pessoas felizes. Eu não consigo nem cuidar da minha vida, quanto mais cuidar da vida dos outros. Eu mal consigo cuidar de dois gatos. Quanto mais ajudar um amigo que está de mudança pra Alemanha porque a mãe da filha dele fez alienação parental e ele concluiu que não restou nada ora ele aqui se ele não tem a filha dele.

A morte. O Destino. Tudo. Está fora de lugar. Eu vivo pra consertar . E fracasso.

Eu falei anos atrás que eu queria o Algoritmo da Alma Humana. Porque eu queria consertar almas tortas. Deus do céu. E até hoje eu não consegui. Nem a minha. Nem dos meus familiares. Nem dos meus amigos. Não consegui. Nada. Eu sou aquele que vê a casa caindo e nem consegue tirar o carro da garagem. Pra quê eu sirvo na face da terra se eu não consigo nem ajudar as pessoas que eu amo?

Uma vez eu falei pra um amigo que tem polaridade política oposta à minha que eu só conversava com ele sobre política porque nós dois queremos a mesma coisa: Um mundo melhor. Discordamos do caminho pra isso. Mas desejamos.

E deus do céu… Como é difícil fazer alguma coisa que preste. A metáfora da semeadura é perfeita. Centenas de sementes pra dezenas de brotos e unidades de plantas. Deus do céu. Eu quero ver mais plantas.

Eu não sei o que vai ser do futuro. Mas eu vou consertar o mundo ou morrer tentanto. E se for pra não conseguir resolver nada, que pelo menos o morrer tentando chegue logo.

E sim. Isso é um post desabafo.

Minha faca.

April 25, 2016 § Leave a comment

Cheguei em Cruzeiro hoje, depois de uma semana que envolveu, na falta de um, dois foras por whatsapp. E descobri que meu avô meu deu uma faca de presente. Ele me mandou um áudio avisando que ela estava numa caixinha no alto de um armário. Disse que não sabia se seria muito útil, mas que talvez servisse pra churrasco ou coisa do gênero:

promoção

Não sei se meu avô sabia o que estava fazendo. Mas junto com essa faca nova de churrasco, um brinde, estava essa faca velha e maltratada:

antes

Essa faca velha e maltratada foi a minha primeira faca. Comprada em 1996. Vinte anos atrás.

Nesses vinte anos (como parece óbvio) eu a perdi de vista. Eu havia comprado, na época, para acampar com meu pai. Não é uma faca muito boa. A marca é Tramontina (nada customizado, ou de alguma cutelaria profissional). O desenho dela é meio tosco. O Cabo é em plástico (nada de osso de Cervo ou coisa que o valha). Mas é a minha faca.

***

Anos atrás eu fiz uma paródia do poema “My Rifle”, o “My Knife”.

This is my knife.
There are many like it.
But this one is mine.
My knife is my best friend.
It is my life.
I must master my knife as I must master my life.
And I will.

***

Quando eu recuperei minha faca dei uma olhada boa nela. Tinha umas manchas de ferrugem, causadas pela Água, um denteado FEIO na lâmina e bastante marca de uso. Parece que, sem eu saber, deram uma bela zoada na minha faca. Mas agora ela voltou pras minhas mãos. E agora eu tenho as ferramentas necessárias para arrumá-la.

Desci para a oficina. Minha primeira preocupação era em consertar aquela marca grosseira de denteado. Como se tivessem usado ela pra cortar um prego ou algo que era duro demais, sujeitando-a a algo para o qual ela não fôra feita.

Quando a lâmina é fundida, ela passa por um tratamento térmico. Primeiro você aquece o metal ao rubro, no Fogo, e depois esfria rapidamente, na Água. O choque deixa o aço duro. Para ser útil, ele passa por um aquecimento moderado, para relaxar. Sem isso, qualquer choquezinho quebra ele.

O correto seria eu tirar o tratamento térmico, voltar ela para o formato original e depois temperá-la de novo. O problema é que ela já tem um cabo, para manejar a faca com tranquilidade, e isso me faria perdê-lo. Eu poderia até tentar fazer outro, mas o controle que o cabo oferece é tão importante quanto o fio da lâmina.

Dei uma marteladinha para quebrar a marca e passei no esmeril, molhando bem com Água para garantir que o aço não perdesse a têmpera. Depois lixei para tirar a ferrugem e as marcas. Aço bom enferruja. Armas têm que ficar longe da Água. Só aço ruim, morno, nem quente nem frio que não sofre com a umidade.

Outro problema é que o Esmeril desbasta o metal, mas não presta para dar Fio. Fio se dá na Pedra. Simples assim. Água, Pedra e Paciência. Isso é que garante o corte da arma: passar repetidamente e com calma pela mesma Pedra.

Terminada a afiação, tentei lixar e polir a faca para deixá-la espelhada, como nova. Mas não deu… Precisaria de muito tempo e muitas lixas diferentes. Me contentei com deixá-la brilhante. Afinal, é uma faca, não um espelho. Por fim, passei uma camadinha de óleo pra proteger da umidade futura.

depois

***

Minha faca é minha vida. Pode não ser um espelho, mas consigo me enxergar nela.

Quem tiver ouvidos que ouça.

 

O Apocalipse de Paulo Tarso.

April 17, 2016 § Leave a comment

Não é nenhuma novidade que eu tenho um fraco pelos textos religiosos.

Com a idade, muito para minha surpresa, me aproximei da mitologia Judaico-Cristã. O suficiente para estudar hebraico. Se algum Cristão ler isso vai estranhar eu me referir a “Mitologia Judaico-Cristã”. Sim, mitologia. Hércules era filho de um Deus com uma Mortal. Aquiles era filho de uma Deusa com um Mortal. Jesus era filho de um Deus com uma Mortal. Simples assim.

O ponto da mitologia não é uma prova irrefutável da existência ou não de algo. O ponto da mitologia é apresentar um ponto a respeito ou não do ser humano. E em se tratando de seres humanos, a definição de um paradigma é um ideal, não um fato. Se eu afirmo que o ser humano é honesto naturalmente, longe de isso ser um fato comprovado, é uma ambição humana.

Nesse sentido, quando o autor bíblico fala que o ser humano é terra e sopro divino ele não está falando que somos primos do tijolo. Está falando que temos natureza dual, uma parte que precisa apenas de comida, sono e sexo. Outra parte (que nem precisa vir desse amigo invisível chamado de deus) que quer transcender o mínimo, deixar para trás a mediocridade. Ser mais do que se é. A Mona lisa não foi pintada pela parcela tijolo de DaVinci.

Nesse sentido, um dos livros mais difíceis de se entender é o Apocalipse. Primeiro porque é em linguagem simbólica. Então acaba havendo certa relevância toda informação dada. Vinte e quatro tronos. Por que não 15? Quatro animais. Por que não oito? É como um código que se faz necessário uma chave para se entender. Além disso, o Livro do Apocalipse fala de um tempo por vir, mas quando? E falam há séculos que o fim está próximo, mas ele nunca chega?

Eu sou astrólogo. E umas das minhas chaves favoritas, obviamente, é a astrologia. A astrologia (tradicional) trabalha com quatro elementos, sete planetas e doze signos. Isso desde muito tempo antes da bíblia ser escrita. E não à toa as constelações que davam a roda zodiacal alguns milênios atrás eram Touro, Áquila, Aquário e Leão. O Bezerro, a Águia, o Anjo e o Leão apresentado no Apocalipse. Aí você aplica os sete selos, igrejas, etc. aos planetas e chakras correspondentes e os doze signos à doze tribos de judá e tá tranquilo, tá favorável.

E a primeira coisa que tem que ser entendido sobre o Apocalipse é que Apocalipse significa revelação. O Livro do Apocalipse é o livro da Revelação. Revelação tem como origem duas palavras “Revel”, que é “aquele que não age” e “Ação”. O Apocalipse é a ação de não agir.

Tao Te King, Capítulo 2:

Por isso o sábio age sem nada fazer
e ensina sem nada dizer
As coisas surgem e Ele permite que venham,
as coisas desparecem e Ele as deixa ir.
Ele tem mas não possui
e age sem expectativas,
Quando seu trabalho está feito,
Ele o esquece.
E por isso ele dura para sempre.

O apocalipse é sobre a iluminação. Aquela clareza de sentido e de certeza que alguns tanto almejam. E é por isso que o número de salvos é fixo: 144.000 a revelação não é para todos.

Além disso, o livro é longo. Longo pra caralho. E tem sol escurecendo, lua virando sangue, nego a cavalo, peste, fome, guerra, etc. É tanta desgraça que parece até a lista de deputados eleitos do PMDB. Porque a iluminação não é agradável.

E revelação, em si, já é uma palavra complicada: aquilo que está oculto se mostra. E quem disse que o que está oculto é bom? Até onde eu sei, ninguém se esconde pra fazer coisas boas, justas e corretas.

E a última coisa: morre gente pra caralho no apocalipse. Porque nós somos humanos. Metade tijolo e metade filhos de deuses. Vivemos nossa rotina, se esforçando para alcançar o reconhecimento dos seus pares tijolos: estudamos muito para passarmos numa faculdade cara, para termos empregos caros, roupas caras, carros caros, esposas e maridos caros para gerarmos filhos caros e no fim da vida termos uma morte cara e sermos lembrados como o cara que montou uma empresa que dava emprego para mais de duzentos tijolos, termos comido mais de 100 tijolas na vida, viajar para os lugares mais disputados pelos demais tijolos e fazer inúmeras outras tijolices. Ao perceber os tijolos ao seu redor acaba rolando morte. Morte de amizades, de empregos, de carreiras, de amores. Porque os tijolos ao seu redor são os tijolos que você usou pra construir essa vida ao seu redor. E essa vida é mentirosa. Porque você é mentiroso. E enquanto você for mentiroso você não pode pretender o direito de viver em um mundo verdadeiro. Porque você é parte do seu mundo. A parte principal.

Eu queria que o Apocalipse fosse um meteoro caindo na Terra. Ou uma epidemia zumbi. Porque não teria que existir escolhas. E nada é pior do que escolher contrariamente àquilo que você sabe ser certo.

A ignorância é uma benção e a revelação uma maldição. Talvez por isso o Apocalipse prometa a Estrela-da-Manhã aos que por ele passam.

Paredes.

July 20, 2015 § 2 Comments

Na última semana passei alguns dias pintando as paredes do apartamento para o qual minha mãe irá mudar (e eu irei junto).

Durante algum momento da tarde, minha avó mencionou que “para alguém que nunca pintou uma parede, até que estava ficando bom”. Isso me deixou levemente ofendido porque, primeiramente, estava objetivamente bom e, além disso, eu já havia pintado umas quatro ou cinco casas na vida, entre apartamentos, casas e quitinetes.

Sim, objetivamente quatro ou cinco casas é pouco.

Mas quantas paredes uma pessoa pinta na vida? Se pensarmos que normalmente as pessoas pintam paredes quando mudam de uma casa ou mudam para uma casa, é uma conta razoavelmente fácil. Assumindo que a pessoa não pague alguém para fazer esse serviço por ela. Não acredito, portanto, que o número de paredes que uma pessoa pinta na vida seja muito maior que o que eu já pintei.

***

Eu acho esse tipo de trabalho bem legal e, se não tivesse um mundo de coisas que eu preciso e quero fazer, faria esse trabalho de bom grado. Quem trabalha com a mente deveria fazer mais trabalhos manuais pra descansar. E vice-versa, embora falar de vice-versa seja quase desmesurado, uma vez que as pessoas fazem muito mais trabalhos mentais que manuais atualmente..

Pessoalmente, acho essa desconexão com os trabalhos manuais algo negativo. Sim, de fato, é racional, uma vez que é mais inteligente pagar alguém para fazer um isso quando as minhas horas seriam mais lucrativas em outro trabalho. Mas é parte do meu mal colocado senso de romantismo a ideia de fazer mais as coisas que constroem a sua vida: cozinhar, pequenos reparos, limpezas, etc. Acho que isso serve bastante pra colocar nossas perspectivas no lugar.

Mas isso é só um mal colocado senso de romantismo.

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Pintar paredes também tem um simbolismo interessante. Pessoas não pintam paredes para deixar marcas, pintam para apagar marcas. Via de regra para apagar as marcas de outra pessoa ou as próprias e, assim, deixar a casa novamente virgem de história.

É algo um tanto quanto higiênico, sim, tal qual lavar as roupas que alguém usa. No entanto, não deixa de ser uma tentativa de apagar uma história.

Me lembro de um amigo de infância que, quando ia mudar de casa (a casa onde cresceu para a casa própria da família), ganhou do pai latas de spray para pixar o nome na velha casa. Era algo inócuo, uma vez que a casa seria pintada, mas ainda assim uma tentativa de deixar uma marca indelével em uma casa que se apresentaria virgem para o próximo morador, tal qual alguém que evita falar dos relacionamentos antigos em um encontro amoroso, como se fosse virgem de afeto e tivesse nascido quarenta e oito horas antes.

***

Pintar paredes é quase o diametralmente oposto de pintar um quadro, uma vez que aquele objetiva apagar marcas e este pretende criar marcas únicas e individuais e representativas de algo que apenas aquele ser humanos naquele momento poderia fazer.

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É… acho que pintei paredes demais na vida.

Um pouco de primeira pessoa.

June 25, 2015 § 12 Comments

Há algumas semanas eu fiz uma postagem no facebook que despertou certo estranhamento na minha taimelaine e a preocupação de amigos e amigas próximos.

Na referida postagem, eu mencionei que “Bondade é a putaqueopariu. Humildade é a minha bunda. Amor ao próximo é o caralho.” e que “Vou readequar as ambições: se eu conseguir sair dessa vida com PACIÊNCIA me dou por satisfeito.”

Várias pessoas se preocuparam legitimamente com isso, acreditando que eu tenha estourado porque minha vida estaria uma merda e eu teria entrado em desespero. Isso é meia verdade: minha vida está uma merda mas eu não estou em desespero.

Mas, mais importante que isso, a postagem não é sobre a minha vida, meu problemas ou qualquer outra coisa do gênero. Para falar a verdade, é sobre o aprendizado que, para variar, vem dos lugares mais estranhos do mundo.

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“Me perdoa, a vida é doce.”

Anos atrás o Lobão soltou essa música, uma das minhas favoritas em termos de composição, e que traz uma das imagens mais geniais da música brasileira: “sirenes que se atrasam pra salvar atropelados que viveram depressa demais”.

Viver depressa demais é um maravilhoso eufemismo pra morrer.

***

Esse semestre eu fiz algo imprudente, peguei dezoito créditos na faculdade e estou ralando a bundinha pra conseguir cumpri-los. Por quê eu fiz isso? Porque eu quero me formar logo, pra começar a dar aulas logo e poder desenvolver decentemente meu trabalho no mundo.

Resultado? Trabalhei mal, comi mal, treinei mal, me fodi de verde, amarelo, branco e azul anil. Minha resistência foi pras cucuias. Minha vida pessoal foi pra pqp. Até minha saúde ficou comprometida.

Tudo isso porque eu tentei viver depressa demais.

***

No entanto, preparando um trabalho de faculdade, me deparo com um texto no qual o autor menciona que a educação mudou. Antes, acreditava-se que uma faculdade formaria profissionais. Hoje se entende que isso acontece de forma contínua. Todos precisam estudar continuamente. Daí a proliferação de pós-graduações caça-níquel.

Ou seja, se a proposta educacional do mundo hoje é a formação continuada, é ESTÚPIDO eu ter pressa para terminar a faculdade.

Melhor eu ir com mais calma e desenvolver um bom trabalho do que fazer essa coisa idiota que é viver da promessa do futuro.

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Um grande amigo meu, do meu time de Rugby, se formou na faculdade uns doze anos antes de mim, e me deu o prazer de jogar rugby com ele. Aos quase cinquenta anos, o preparo físico dele não era mais o mesmo, então ele não corria muito em campo. Mas ele se posicionava muito bem, portanto, sempre era um jogador chave para o time.

Quantas décadas de rugby ele precisou pra aprender isso? Pra aprender a estar no lugar certo e na hora certa?

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Quanto tempo eu precisei de estudo, treino, poesia, trabalho pra perceber que talvez eu estivesse fazendo merda ao tentar viver depressa demais?

Dava pra adiantar todo esse sofrimento?

Não, porque não é porque as coisas não acontecem quando eu quero que elas não acontecem no tempo certo.

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Minha letra ficou razoável nos últimos seis meses. Durante a infância era ilegível. Por mais que eu me esforçasse, não tinha resultado.

Eu aprendi a andar de bicicleta com dez anos. Por mais que eu me esforçasse antes, não tinha resultado.

***

Desviar de um trem-bala é fácil. É só sair dos trilhos.

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Quando aprendemos algo de verdade? Quando as dezenas de peças se encaixam? Quando que acontece de o trabalho de faculdade conversar com a música no rádio, com a aula na segunda à noite, com o jogo de rugby e o livro de cabeceira? E tudo isso forma um todo que conversa entre si?

Fácil: na hora certa.

***

O post, portanto, não foi sobre raiva ou desespero. Foi sobre um breve momento de clareza que me fez me sentir tapado em seguida: Como demorou tanto tempo pra eu perceber que estava sendo duro demais comigo mesmo? Que estava exigindo de mim mais do que eu conseguia fazer? Quanto sofrimento e danos isso me causou? Demais.

Se eu fosse mais paciente comigo mesmo, talvez eu tivesse aprendido antes.

Se eu conseguir sair da vida com paciência, me dou por satisfeito.

***

E mais importante do que isso: Paciência é humildade de saber que ocasionalmente não cabe a você decidir o tempo das coisas. É bondade para não exigir de nada nem de ninguém mais do que esse possa dar. E amar ao próximo pois sabe que “ele está no tempo dele” e tá tudo certo.

Se eu sair dessa vida com paciência, eu me dou por satisfeito. Porque se eu sair dela com paciência, eu terei tudo que meu tamanho me permite almejar hoje.

***

Amém. Shelá.

Where Am I?

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