This is my Knife.

January 5, 2018 § 3 Comments

This is my knife.
There are many like it,

But this one is mine.
My knife is my best friend.
It is my life.
I must master my knife
As I must master my life.
And I will.

***

O Texto de hoje é sobre facas. Pra ser mais preciso, sobre uma faca em especial. Minha primeira faca. Não em propriedade, mas em criação.

À Esquerda a Faca 01. à Direita a Faca 00.

***

Meus experimentos com Cutelaria começaram cerca de três anos atrás. Infelizmente, se tanto, posso chamar isso de um hobby. Se tanto porque duas facas em três anos é ridiculamente pouco. Vida que segue: é uma diversão, não um trabalho.

A Faca 00 foi um balde de água fria. Todo o trabalho feito foi perdido em menos de um minuto:peguei uma talhadeira de pedreiro, tirei a têmpera, aqueci ao rubro, forjei, desbastei no esmeril, desbastei na lima, corrigi as imperfeições, poli, furei e, na hora do tratamento térmico, a faca derreteu na forja. Um ano e meio de trabalho perdido. Virou lixo. Serrei a parte queimada e guardei a adaga quebrada pra me lembrar desse fracasso.

Por muito tempo eu me esquivei da forja. Me senti incomodado com um erro tão primário. Mas, acabei voltando.

Na verdade, acho que esse foi um dos ensinamentos que eu vi na prática. Eu costumo falar, nas aulas de Astrologia, que essa história de “Virginiano é organizado”, “Escorpionino trepa bem”, “Capricórnio é ambicioso” é clichê. Ninguém, no meu entender, é bom em alguma coisa gratuitamente. O que existe é Amor, e aquilo que se ama você acaba fazendo bem porque gosta de fazer e quer que melhore. Eu amo trabalhos manuais, amo facas e amo cutelaria. Isso não significa que eu seja BOM nessas coisas. Mas significa que eu gosto. Portanto, vou melhorar nelas.

***

Outra coisa que essa faca me ensinou foi que eu estou muito acostumado a compensar falta de planejamento com esforço. Nenhuma das duas facas foram planejadas eu simplesmente “fui fazendo”. Isso implicou em alguns erros. Em alguns casos aparentes. Em outros não.

Just like my life.

***

Existe um prazer único em trabalhos manuais em geral e um prazer especial na cutelaria.

É algo único ser capaz de pegar materiais disponíveis no mundo e moldá-los de acordo com a própria vontade.

Encontrar um bom aço num ferro-velho, tirar o tratamento térmico na forja, cortar, desbastar, polir, afiar e, ao final, dar o tratamento térmico final.

A sensação é a de que você faz parte de uma linhagem de ferreiros de milênios atrás, testando, experimentando, descobrindo, fazendo algo que poucos seres humanos ousaram fazer. É um privilégio.

Além disso, existe o prazer de experimentar coisas que a gente “ouve falar”. O Ferro aquecido a rubro perde as propriedades magnéticas. A Faca temperada é mais dura. Metal ao rubro fica mole. Tantas coisas que a gente ouve falar. Que acredita. Mas não experimenta.

***

Admito que eu afirmei que a primeira faca foi um trabalho perdido para fins literários.

A primeira faca fracassou, mas eu não fracassei. Ela, inteira, foi um aprendizado de erros e acertos. Vocês não fazem ideia de como é difícil limar. Sim, lima. Coordenação motora, força, constância e ritmo. Muito tempo fazendo um trabalho muito repetitivo. Demanda uma paciência que eu não tenho. Ainda.

A Faca 00 foi uma experiência que me rendeu experiência. “Só”. A Faca 01 traz a Faca 00 dentro de si. Eu trago ambas dentro de mim.

Tente, erre, aprenda. Tente melhor, erre melhor, aprenda melhor.

***

Durante um tempo eu guardei os restos da Faca 00 como lembrança. Pra manter na mente que alguns cuidados devem ser tomados. Conheça suas ferramentas, mantenha a concentração, um deslize pode tudo a perder.

Hoje eu vejo que eu não preciso carregar esse cadáver para me lembrar disso. Existe uma linha tênue que separa o Rigor do Sadomasoquismo. Too many times I crossed it.

Posso deixar para trás esse erro (e junto com ele tantos outros). Talvez eu a dê para um rio, talvez eu a enterre no túmulo de minha família. Coerente de qualquer forma.

***

Anos atrás, num determinado ritual, numa determinada Ordem, recebemos a incumbência de “descer ao mundo dos mortos para encontrar dois filósofos caldeus e perguntar pra eles sobre um livro escrito por eles”. O que eu vi foram dois seres que me falaram que “o Livro foi fruto de uma vida inteira de trabalho e o menor de todos os resultados”. Minha interpretação é que o objetivo não é escrever um livro que sobreviva milênios, mas ser alguém que escreve um livro que sobrevive milênios.

Talvez eu tenha alucinado, talvez eu tenha inventado tudo isso, talvez eu tenha mesmo descido ao mundo dos mortos. De qualquer forma, se foi uma alucinação ou invenção, foi uma alucinação ou invenção sábia pra caralho e eu estou muito orgulhoso da minha capacidade de inventar e alucinar o que eu precisava ouvir.

Essa faquinha não será passada de pai pra filho. Não será uma herança de família. Não é grandiosa e nem perfeita. Mas é minha, feita por mim e traz a minha marca nela.

***

Hobbies são uma questão complicada. Por um lado, eles tiram energia que poderia ser aplicada a outras coisas. Por outro, eles permitem um aprendizado diferente daquele que você teria normalmente.

Hoje eu tenho uma faca de combate. Eu não pretendo andar com ela por aí. Na verdade, ela já está no meu altar e não pretendo que ela saia de lá.

Eu não perdi horas fazendo uma faca. Eu gastei horas aprendendo a fazer uma faca. E hoje eu sou um ser humano que sabe mais do que sabia antes.

Hora de começar a faca 02.

Advertisements

Pergunte-se sempre o que Cristo faria…

December 30, 2017 § Leave a comment

… Mas lembre-se que enfiar o pé na porta, virar a mesa e descer a chibatada na galera é uma das possibilidades.

***

Anton Szander Lavey é o fundador do Satanismo Moderno, uma filosofia que eu, particularmente abomino, conquanto reconheça ter certa beleza ácida.

Basicamente Lavey era um tocador de órgãos (o instrumento musical, não as pirocas) que tinha dois empregos: na igreja e no puteiro. O negócio ficou meio pesado quando ele viu que as pessoas que ouviam ele tocar na missa também ouviam ele tocar no puteiro (tocar no puteiro, não tocar o puteiro). Aí ele ficou emputecido (quanta putaria, meu deus) e resolveu criar uma religião pra zombar e atacar a hipocrisia católica.

Todo o Satanismo é uma grande trollagem ao Catolicismo. Sendo uma religião de negação, serve quando muito pra criticar, não pra construir.

***

A filha de Lavey, herdeira da Igreja Satânica, afirmou em entrevista recente que se a Igreja Satânica fosse fundada hoje, provavelmente zoaria com  budismo e hinduísmo, e toda essa galera good vibes que agradece sem conjugar verbo (“Gratidão” é substantivo, porra, se coloca como sujeito na frase, ô caralho) e acha que Namastê significa “A Divindade que Habita em Mim Saúda a Divindade que Habita em Você” (e nem desconfia que essa frase é bem grande pra uma palavra só).

***

A Raiz do Satanismo, ironicamente e na minha opinião, vem não de um desprezo pela religião, mas de um respeito pela Religião. Apenas alguém que leva a sério uma determinada religiosidade pode declarar guerra a ela porque seus fiéis são hipócritas. Só alguém que acha que o Catolicismo deve ser levado a sério ficaria puto com o cara do puteiro na missa.

Na minha opinião Romantizada, portanto, Lavey era um cara que achava que a Religião deveria ser praticada integralmente, e não seletivamente.

***

Obviamente, Lavey estava na contramão da História.

A religiosidade, como um todo, vinha sofrendo de uma amenização da serieade: o Judaísmo têm preceitos claros e específicos e demanda estudo. O Cristianismo é um judaísmo hippongo, que tira os preceitos e o estudo e troca isso por uma rodinha de violão no fim do churrasco cantando “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. O Protestantismo manda você ter fé. A Contra-Reforma deixou as coisas ainda mais leves.

Atualmente o ser humano médio acredita que basta você tentar ser bom (o que vale é a intenção), ficar com vergonha se não conseguir e reencarnar infinitas vezes que um dia todo mundo vai encontrar a salvação e ninguém nunca vai se foder.

Aí a gente tem católico que usa camisinha, Cabalista que não cortou o pau, Budista que fuma maconha, nego falando Namastê no churrasco, tudo isso porque a religião deve servir pra você aprender a viver bem com quem você é. Busca-se a confirmação daquilo no que já se acredita. A religiosidade virou uma instância de legitimação daquilo que você já é. Tudo pode, menos julgar. Tudo é permitido, mas se você for agredido, mostre a outra face. Não existe pecado, mas não faça mal aos outros, nem a quem merece. Porque você não pode julgar ninguém.

É a Nutellização da Religiosidade.

***

Eu sinto saudades do Velho Testamento.

David era um adúltero que mandou o melhor amigo morrer na guerra pra comer uma gostosa. Abraão era um covarde que escondeu o casamento por medo. Caim resolveu as tretas com Abel na ponta de faca (ou enxadada). O primeiro virou rei, o segundo é o Patriarca, o terceiro ganhou a proteção de D’us. Se o Velho Testamento ensina alguma coisa é que D’us não tem moralidade alguma. E até prefere os caras mais sangue ruim.

Isso abre uma nova frente de ironia: Não transar? Não comer porco? Não trabalhar aos Sábados? É a religião querendo controlar você e te transformar num cordeirinho manso! Você tem só que não julgar, não agredir, ser bonzinho, amar incondicionalmente e se afastar dos malvados que tá tudo certo.

Sure.

***

Eu sinto saudades de uma vida menos relativa. Em que julgamentos e batalhas sejam vistos com menos temor. Em que as pessoas não tenham medo de julgar.

Em retrospecto, acho que minha cagada foi lá em 2008, quando acreditei que nada era verdadeiro e tudo era permitido.

Pra um Cavaleiro, Boa Sorte é Dragão.

December 25, 2017 § 2 Comments

(Ou, a “Última Retrospectiva”.)

Desde o ano passado eu passei a utilizar um aplicativo de facebook chamado “Neste Dia”. Basicamente ele serve para mostrar as publicações feitas naquele dia um ano atrás, o que traz resultados interessantes. Da lembrança de uma boa piada às fotos com a ex-namorada, é interessante ver o que você postava em um determinado dia e/ou época.

Com a aproximação do fim do ano, em datas distintas, eu tive a oportunidade de rever pequenas postagens feitas nessa época e que traziam uma retrospectiva de um determinado ano.

Até agora, 2016 foi um ano foda,  2015 foi um ano tenso, 2014 foi um ano em que desejei esperança e acho que tudo começou em 2007, o ano que deixou um gosto de rola na boca. Eu adoraria passar ano por ano, retrospectiva por retrospectiva e ver o que cada ano trouxe, mas o denominador comum de cada um deles é que foram anos pesados.

***

Recentemente eu fiz essa brincadeirinha aqui na forma de meme:

Como a maior parte das minhas reflexões, ela começou como uma piada: “Quando você achar que está no inferno, que as coisas estão pesadas demais, que não vai dar pra aguentar, calma: logo você vai se acostumar e o inferno vai ser o seu novo normal”.

Sim, é isso. Não tenho mais esperanças que (depois de dez anos), um dia, as coisas melhorem, eu viva uma vida de paz e contemplação, trabalhe para ganhar o pão de cada dia, compre uma casinha com cerquinha branca no subúrbio, case com uma mulher que me ame e compre um labrador dourado.

Not gonna happen.

Se 2017 me ensinou alguma coisa (e oh, boy, como ensinou) foi que a rotina está virando saudades.

(Por favor, leia apenas as palavras pintadas em amarelo pelos alunos no muro do colégio que me contratou a primeira vez pra ser professor e que vai ser demolido. Obrigado.)

Eu cometi o erro de acreditar que eu poderia viver uma vida leve, tranquila, calma e plácida. “Deboísta”. Que eu poderia ensinar crianças a ler e escrever e, quem sabe, morrer velhinho com meus ex-alunos ainda próximos de mim.

Uma vida “boa”. Uma morte “boa”. Pra uma pessoa “boa”.

Mas aparentemente (e o Universo me deu evidências suficientes) que eu seja uma pessoa “boa”.

Na verdade, se eu tenho a agradecer algo a 2017 foi ter aprendido que o maior de todos os pecados é querer ser mais virtuoso que a vida, mais moralista que “deus” ou pretender colocar no universo alguma espécie de senso humanista de Justiça.

Justiça é o que acontece. Se não aconteceu melhor, você não mereceu melhor.

2017 destruiu minhas ambições de ser uma pessoa virtuosa. Matou meus planos de fazer bem ao mundo.

Give up sainthood, renounce wisdom,
And it will be a hundred times better for everyone.

Give up kindness, renounce morality,
And men will rediscover filial piety and love.

Give up ingenuity, renounce profit,
And bandits and thieves will disappear.

These three are outward forms alone; they are not sufficient in themselves.
It is more important
To see the simplicity,
To realise one’s true nature,
To cast off selfishness
And temper desire.

Ok. Os planos estão mortos. Vida longa aos planos! Mas dessa vez Planos de Guerra. I’m born to ride the crashing wave.

Termino 2017 como há dez anos atrás: Eu sozinho, contra o mundo, sem contar com nada além da minha capacidade de lutar. Se eu luto bem, eu vivo bem. Se eu luto mal, eu vivo mal. Sozinho. Contra o Mundo. Qualquer coisa menos do que isso seria covardia.

Peço, nesse instante, aos meus amigos e amigas que talvez estejam lendo esse texto (se é que alguém ainda lê esse blog) que não se sintam esquecidos. Depois que as lanças são postas em descanso, os escudos pendurados e a armadura bem oleada (ou o terno lavado a seco) o primeiro lugar onde parar é na taverna, pra beber a mais uma batalha sobrevivida.

Agradeço a vocês por estarem presentes na minha solidão. Afinal, a gente nasce sozinho, a gente morre sozinho, e toda experiência sere apenas a nós mesmos.

Por isso, mais do que nunca, e correndo o risco de me repetir, eu ofereço um brinde.

Um brinde aos amigos ausentes. Porque é muito importante saber que existe um porto seguro. De que ainda que à distância (com o fucking atlântico, nas planíces geladas da patagônia, pra lá ao norte do Rio Grande ao sul dos EUA, ou através do maior desafio da vida adulta, as terríveis “agendas”) eu sei que estamos juntos.

Um brinde aos amores perdidos. Porque nada ensina mais do que o amargo da derrota. Nada impulsiona mais que a Ira de Marte. Nada dá mais energia que a fúria carregada de sentido advinda da compreensão do erro crucial.

Um brinde à estação das lutas. Porque enquanto existe luta, existe Vida. Porque o Conflito é a Mola Mestre da História, dos Mitos e da Épica. Porque mar calmo não faz bons marinheiros. Porque quem nasce pra Ira constrói um Paraíso de Fogo e Enxofre.

E que cada um de nós dê ao Diabo aquilo o que ele merece, seja ele quem for, esteja onde estiver. Porque o Diabo, seu moço, é o Príncipe das Mentiras, filho da Mentira Rei com a Mentira Rainha. A Mais Bela de Todas as Mentiras, mas Mentira, ainda que Bela. E O Diabo merece apenas um destino: A Morte.

Amém. Shelá.

(P.s.: Se alguém se preocupou com minha vida quando leu “A Última Retrospectiva”, não se preocupem, não pretendo morrer. Apenas escolhi esse sub-título porque, hoje, depois de todo esse ano, não espero nenhuma retrospectiva diferente em todos os próximos anos da minha vida.)

Vitória.

October 9, 2017 § 1 Comment

Eu tenho um fraco pela escrita.

Em retrospecto, sempre tive um fraco pela escrita. Costumo dizer que todo mundo escreve na adolescência, mas poucos de nós continuam escrevendo após a adolescência.

A escolha da faculdade foi motivada primordialmente por isso. Nos dizeres de um velho professor a respeito da minha dúvida entre Jornalismo e Letras: “Anarco, você gosta de escrever e a faculdade que ensina a escrever é Direito, não Jornalismo ou Letras.”

Com anos de advocacia, onde, no fundo, eu ganho pra escrever, eu resolvi ser professor de Redação. Após ser escolhido Paraninfo da formatura dos meus alunos, momento no qual eu escrevi um dos melhores textos da minha vida, retornei à advocacia, onde, resumidamente, eu escrevo.

No meio do caminho, tive a oportunidade de trabalhar uns seis meses em uma agência de publicidade, no departamento de “Criação Verbal”. Meu trabalho, de forma resumida, era criar a “Identidade Verbal” para algumas marcas na comunicação institucional interna e externa. Eu era a Voz dessas companhias.

Acho que o bottomline de tudo isso é o fato de que eu escrevo. É isso que eu faço pra viver. Escrevo como advogado, ensinava a escrever (e tinha um prazer egocêntrico gigante em escrever em sala para mostrar para os meus alunos a técnica) e escrevi para empresas.

Eu traço um dos pontos mais importantes dessa atividade toda ao finado Malandricus Bar & Vodka, nos idos de 2003, quando começamos um blog de natureza confessional (como todo blog tem o direito de ser).

Naquela época havia um certo sonho de “escrever profissionalmente”, o que quer que isso significasse. Era o boom dos blogs. Quando o Ruy Goiaba lançava livro e era convidado a ser colunista. Blogs eram a porta de entrada para as mídias tradicionais. Acreditávamos que poderia acontecer com a gente também.

Isso, ainda, não aconteceu. Não escrevi um livro, não me tornei colunista, não tive um filho (que eu saiba) mas plantei uma pá de árvore.

Porém, uma Vitória merece reconhecimento: em parceria com a Legeek assumi a Criação Verbal e Comunicação Institucional da Mansão Rubi. Resumidamente, isso significa que eu fui contratado para escrever. Bi-semanalmente no Facebook e frequentemente no site e nas campanhas. Sou o porta-voz de uma Empresa. De certa forma, sou o Oráculo desse empreendimento.

Eu passo minha vida dividido entre a autocrítica e o auto-reconhecimento. Ainda não tenho meus livros escritos. Ainda não lancei meus cursos. Ainda não conquistei todas as montanhas e picos que ambiciono.

Mas fui escolhido para ser o escriba e orador de um Projeto que traz o coração de seus empresários.

E é uma Honra ser o Oráculo do Coração de alguém.

Necrofilia.

February 6, 2017 § Leave a comment

Existem centenas de fetiches no mundo. Provavelmente um fetiche diferente para cada ser humano vivo. Ou ao menos para cada grupo pequeno de seres humanos. Eu posso estar errado, mas acho que se chutarmos um fetiche diferente para cada grupo de cinquenta seres humanos, estamos bem.

Fetiche por saltos altos. Certeza.

Fetiches por queijo cottage dentro de saltos altos? Deve ter.

Fetiche por mulheres asiáticas vestindo scarpins cheios de queijo cottage e pisando no mindinho esquerdo de um travesti vendado? Quase certeza que se eu publicar um site sobre isso alguém vai se interessar.

Dos diversos tipos de fetiches que existem, alguns são aceitáveis e outros não.

Tudo bem amarrar uma asiática e enrabá-la.

Sem problemas se vestir de Nazi e querer chicotear alguém.

Prender uma mulher em um móvel e usá-la de objeto sexual não é sem precedentes.

No entanto, pedofilia é um “no no”.

Bestialismo, apesar de não causar grandes problemas é socialmente reprovável.

E necrofilia é um tabu.

E para falar sobre isso hoje que eu vim aqui. Eu sou um Necrófilo.

Sim, eu sou um necrófilo.

Mas por favor, não me entendam mal. Nunca invadi cemitérios ou qualquer coisa do gênero. Isso seria muito baixo e bárbaro. Eu sou adepto de um tipo muito específico e simples de necrofilia. Me considero quase um connoisseur, com um nicho muito específico.

E tenho tesão por amores mortos.

Sim, isso mesmo. Eu fui amaldiçoado com a percepção da minha realidade. E fui amaldiçoado com o dom de ver as coisas mortas. É quase uma mediunidade, mas sem todos os poderes legais envolvidos nela. Eu vejo amores mortos. O tempo todo. Enxergo fantasmas andando pela casa. Vultos de flores mortas e cartas guardadas. Sou capaz de ver plenamente todos os sinais de um amor morto. Os olhos opacos, a boca seca, os lábios contraídos, o mau cheiro e rigor mortis.

Mas não consigo me desvencilhar deles. Eu sei que uma pessoa normal sentiria nojo ou ojeriza ao pensar em fazer amor com um amor morto. Mas eu não sou uma pessoa normal. Diante da certeza da morte do amor eu me sinto compelido a tentar mais. A tentar a ressuscitação mais um pouco (“Já são três dias, mais um pouco e vai dar!”). A me esforçar para ver se, tal qual um Lázaro, o amor morto sai da caverna caminhando sem chagas e dando o testemunho de um milagre.

Mas isso nunca acontece. O amor apodrece e se quebra, revelando o interior decomposto e carregado de vermes que eu sei, mas não quero acreditar.

No fim, enquanto escorre e se mistura, podre, com a terra eu sinto sair do cheiro de carniça, entranhas e vermes, que mastigam carne morta e viva como se uma única coisa fosse, a frase que joga na cara a incapacidade e incompetência:

“Podemos ser amigos.”

Só é despedida quando você não quer que seja. Parte II.

August 7, 2016 § 2 Comments

Ou “Eu não amadureci tanto assim nos últimos dez anos”.

“A morte, o destino, tudo, estava fora de lugar. Eu vivo pra consertar.”

Mais de dez anos atrás um grande amigo saiu de sampa pra ir pro RJ. Por n motivos, mas resumindo, várias coisas ruins aconteceram e ele decidiu começar de novo. Ele fez uma festa de despedida na qual eu não consegui ir, mas como ele era meu colega de apartamento, não faltou a chance de uma última cerveja. E nesse dia eu falei “respeito sua decisão, mas não gosto. Eu gosto dos meus amigos perto de mim.” E ele me respondeu da forma ainda mais surpreendente: “Na minha despedida foram todos os meus amigos de faculdade e trabalho. Mas você foi o único que falou que queria que eu ficasse.”

E era verdade. Eu sabia o que ele queria. E eu queria outra coisa. Porque eu achava o melhor pra ele. Porque eu me importo com o mundo ao meu redor.

Em n motivos eu sou um filho da puta. Às vezes eu rezo pra que um meteoro me esmague e livre o mundo da minha existência. Eu sou bom em uma pá de coisas ruins. Eu sei mentir, eu sei brigar, eu sei tocar a música certa pra fazer as pessoas dançarem. Eu sou um desperdício de matéria orgânica na face da Terra. Seria melhor dividir meu corpo entre três etíopes. Mas eu tenho UMA coisa boa. Uma e apenas uma: eu quero ver as pessoas felizes.

Isso e apenas isso.

Mas tem um problema. Eu quero ver as pessoas felizes, mas não consigo fazer as pessoas felizes. Eu não consigo nem cuidar da minha vida, quanto mais cuidar da vida dos outros. Eu mal consigo cuidar de dois gatos. Quanto mais ajudar um amigo que está de mudança pra Alemanha porque a mãe da filha dele fez alienação parental e ele concluiu que não restou nada ora ele aqui se ele não tem a filha dele.

A morte. O Destino. Tudo. Está fora de lugar. Eu vivo pra consertar . E fracasso.

Eu falei anos atrás que eu queria o Algoritmo da Alma Humana. Porque eu queria consertar almas tortas. Deus do céu. E até hoje eu não consegui. Nem a minha. Nem dos meus familiares. Nem dos meus amigos. Não consegui. Nada. Eu sou aquele que vê a casa caindo e nem consegue tirar o carro da garagem. Pra quê eu sirvo na face da terra se eu não consigo nem ajudar as pessoas que eu amo?

Uma vez eu falei pra um amigo que tem polaridade política oposta à minha que eu só conversava com ele sobre política porque nós dois queremos a mesma coisa: Um mundo melhor. Discordamos do caminho pra isso. Mas desejamos.

E deus do céu… Como é difícil fazer alguma coisa que preste. A metáfora da semeadura é perfeita. Centenas de sementes pra dezenas de brotos e unidades de plantas. Deus do céu. Eu quero ver mais plantas.

Eu não sei o que vai ser do futuro. Mas eu vou consertar o mundo ou morrer tentanto. E se for pra não conseguir resolver nada, que pelo menos o morrer tentando chegue logo.

E sim. Isso é um post desabafo.

Minha faca.

April 25, 2016 § Leave a comment

Cheguei em Cruzeiro hoje, depois de uma semana que envolveu, na falta de um, dois foras por whatsapp. E descobri que meu avô meu deu uma faca de presente. Ele me mandou um áudio avisando que ela estava numa caixinha no alto de um armário. Disse que não sabia se seria muito útil, mas que talvez servisse pra churrasco ou coisa do gênero:

promoção

Não sei se meu avô sabia o que estava fazendo. Mas junto com essa faca nova de churrasco, um brinde, estava essa faca velha e maltratada:

antes

Essa faca velha e maltratada foi a minha primeira faca. Comprada em 1996. Vinte anos atrás.

Nesses vinte anos (como parece óbvio) eu a perdi de vista. Eu havia comprado, na época, para acampar com meu pai. Não é uma faca muito boa. A marca é Tramontina (nada customizado, ou de alguma cutelaria profissional). O desenho dela é meio tosco. O Cabo é em plástico (nada de osso de Cervo ou coisa que o valha). Mas é a minha faca.

***

Anos atrás eu fiz uma paródia do poema “My Rifle”, o “My Knife”.

This is my knife.
There are many like it.
But this one is mine.
My knife is my best friend.
It is my life.
I must master my knife as I must master my life.
And I will.

***

Quando eu recuperei minha faca dei uma olhada boa nela. Tinha umas manchas de ferrugem, causadas pela Água, um denteado FEIO na lâmina e bastante marca de uso. Parece que, sem eu saber, deram uma bela zoada na minha faca. Mas agora ela voltou pras minhas mãos. E agora eu tenho as ferramentas necessárias para arrumá-la.

Desci para a oficina. Minha primeira preocupação era em consertar aquela marca grosseira de denteado. Como se tivessem usado ela pra cortar um prego ou algo que era duro demais, sujeitando-a a algo para o qual ela não fôra feita.

Quando a lâmina é fundida, ela passa por um tratamento térmico. Primeiro você aquece o metal ao rubro, no Fogo, e depois esfria rapidamente, na Água. O choque deixa o aço duro. Para ser útil, ele passa por um aquecimento moderado, para relaxar. Sem isso, qualquer choquezinho quebra ele.

O correto seria eu tirar o tratamento térmico, voltar ela para o formato original e depois temperá-la de novo. O problema é que ela já tem um cabo, para manejar a faca com tranquilidade, e isso me faria perdê-lo. Eu poderia até tentar fazer outro, mas o controle que o cabo oferece é tão importante quanto o fio da lâmina.

Dei uma marteladinha para quebrar a marca e passei no esmeril, molhando bem com Água para garantir que o aço não perdesse a têmpera. Depois lixei para tirar a ferrugem e as marcas. Aço bom enferruja. Armas têm que ficar longe da Água. Só aço ruim, morno, nem quente nem frio que não sofre com a umidade.

Outro problema é que o Esmeril desbasta o metal, mas não presta para dar Fio. Fio se dá na Pedra. Simples assim. Água, Pedra e Paciência. Isso é que garante o corte da arma: passar repetidamente e com calma pela mesma Pedra.

Terminada a afiação, tentei lixar e polir a faca para deixá-la espelhada, como nova. Mas não deu… Precisaria de muito tempo e muitas lixas diferentes. Me contentei com deixá-la brilhante. Afinal, é uma faca, não um espelho. Por fim, passei uma camadinha de óleo pra proteger da umidade futura.

depois

***

Minha faca é minha vida. Pode não ser um espelho, mas consigo me enxergar nela.

Quem tiver ouvidos que ouça.

 

Where Am I?

You are currently browsing the Projeto Insanidade category at AnarcoBlog.