Aos meus amigos.

December 26, 2015 § 1 Comment

São Paulo, 25 de dezembro de 2015.

A todo mundo.

Caros amigos, boa noite.

Gostaria de iniciar esta missiva por algum apecto perdoável, mas, efetivamente, não consigo. E a tentativa de explicar as desculpas talvez sirva como melhor pedido de desculpas que qualquer outra coisa.

Talvez.

Este blog é, e sempre foi (e provavelmente sempre vai ser), sobre o meu coração. Eu posso falar sobre a dilma (assim mesmo, com letra minúscula, porque não é a pessoa, mas o símbolo) que ele sempre vai ser sobre como o meu coração reage sobre alguma coisa. Nesse caso, a dilma.

Nesse sentido, eu insisto, há tempos, em escrever. Oras acerto, oras erro. Acontece. O fato é que eu tento falar algo sobre algo que seja pertinente. Pois eu creio que seja, sim, pertinente o que eu sinto sobre o mundo.

Natural, portanto, que o blog siga o ritmo da minha vida. Quando eu falo que  a regra geral é que “quanto mais sexo, menos posts”, é verdade. Mesmo que a vida fodendo seu cu com uma piroca de negão de 30 centímetros até você pedir penico seja uma espécie de sexo.

Minha vida está tensa. Não insuportável, nem ruim, meramente tensa. Tensa como um pássaro que não canta por medo de ser percebido pela cobra.

E eu asumi essa tensão como natural e parte da minha vida. E não é. Peço desculpas por isso. Eu sou canário do reino, canto em qualquer lugar.

Quer exista cobra, quer não.

Desde 2003 há o almoço de natal Malandricus.

Malandricus.

Esse nome perdeu, mais do que nunca, todo um sentido que, talvez, nunca tenha tido de verdade, exceto no meu coração. Mas não é problema, pois eu falo sobre o meu coração.

Desde 2003 há o almoço de natal Malandricus.

Nos últimos quatro, talvez cinco, eu hospedei esse almoço de natal.

Esse ano não. Esse ano eu avisei todo mundo antes e falei: “Olha, não vai rolar. Não dá. Não aguento. Não vou fazer nada. A casa caiu, a chapa esquentou e não vai dar. O mundo tá pesado demais, não sei pra onde eu tô indo e não sei o que fazer. Não sei quem eu sou e nem da onde eu vim ou pra onde eu vou. Cabe querer fazer um almoço de natal nessa situação? Cabe? Não cabe. Não rola. Desculpa.”

Eu esperava que falassem “que pena, então não vira. Relaxa. É norml. Afinal, o que é um ano a menos em treze anos?”

O Breno falou “Beleza, esse ano é em casa”.

Obrigado.

Eu não sei mais o que falar a não ser isso: Obrigado.

E agora, escrevendo isso, com lágrimas (talvez desnecessárias) nos olhos eu digo: Obrigado.

Obrigado por ser(em) meus amigos. Obrigado porque quando eu falei pro mundo “desculpa, não dá, quebrei”, alguém virou e disse “calma, guenta as pontas que vai dar”.

Obrigado, meus amigos, porque quando eu não consegui ser eu mesmo vocês falaram “guenta as pontas que a gente te ajuda a ser você mesmo”.

Vocês fazem ideia de como isso é importante? Como é ter alguém pra falar “relaxa, a gente segura as pontas pra você”. Não têm. Duvido que tenham.

Isso é escolher bons amigos: Escolher as pessoas que te ajudam a ser você mesmo quando você falha e pede arrego. Pede pinico. Pede licença e pede desculpas.

Vocês não sabem como dói falar “desculpas porque eu não consegui ser eu mesmo”. E vocês me ajudaram nisso.

Eu falei anos atrás ao Homem-Hipotérmico: “Eu amo meus amigos porque com vocês eu posso ser imperfeito como eu sou. E eu sou grato por isso.”

Meu maior poder é ganhar quando eu não mereço. Meu maior poder é ser um filho mimado de deus. Porque eu não mereço, mas Deus me ama. E estando perto de vocês eu sou melhor do que eu sou de verdade. Porque eu me cerco das melhores pessoas no mundo. Eu me cerco daqueles com quem eu posso falhar que eles vão dar um passo adiante e dizer “descansa, porque está tudo sobre controle”. Meus amigos são as mehores pessoas no mundo. Porque eles são bons quando eu não sou suficiente.

Muito obrigado a todos eles por tudo. Não só os que estavam lá.

E eu peço desculpas, direta e abertamente a todos, especialmente ao Sartre, porque eu não fiz o papel que eu deveria fazer no mundo. Eu deveria ser melhor que que fui. Deveria ter convidado todos aqueles que eu amo. Mas falhei nisso. Peço desculpas a quem eu falhei com, mas agradeço àqueles que não falharam comigo quando eu não fui eu mesmo.

Espero algum dia ter poder suficiente para retribuir. Mas eu duvido.

 

 

A Gravata.

November 5, 2015 § 1 Comment

Durante o tempo em que eu ainda trabalhava como advogado eu costumava falar que seu eu ganhasse na Mega-Sena eu pegaria todo o dinheiro, colocaria na poupança e passaria um mês trabalhando sem falar para ninguém que eu ganhei na Mega-Sena, só para sentir um gostinho de como seria o resto da minha vida. Então, no último dia, eu iria trabalhar de gravata.

de gravata.

***

Essa piada, devidamente roubada do Steinhaeger, lá no Malandricus Bar & Vodka, foi repetida diversas vezes, afinal, na época, eu ainda jogava bastante na Mega-Sena. Hoje eu mudei um pouquinho a piada. Basicamente em dois sentidos.

Primeiramente, eu só advogo se for de gravata. Só de gravata.

Segundo, não é piada. Eu só advogo se eu puder estar mesmo só de gravata.

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A grande maioria que me acompanha por aqui sabe que eu larguei a vida de escritório. O que talvez nem todos saibam é que eu ainda advogo. Em pvt, claro. Redijo as ações judiciais, escrevo, pesquiso e estudo. Só de gravata, afinal, estou no conforto do meu quarto, muitas vezes acompanhado de uma taça de vinho.

As vantagens da advocacia freelance.

Ocasionalmente eu tenho que fazer uma reunião, e como eu tenho que sair na rua eu acabo colocando mais roupa que só a gravata. Mas considero isso uma exceção de bom senso e bom gosto.

Fora que reunião não é nem trabalho de advogado direito. Trabalho de advogado tem que colocar a OAB na mesa, senão, poderia muito bem ser um trabalho qualquer.

***

A advocacia feelance tem várias vantagens associadas à política da peça de roupa única e da taça de vinho. Com uma ação judicial por mês eu coloco uma graninha boa na minha conta. E olha que eu me oriento, via de regra, pela tabela da Ordem. Sou o melhor advogado com honorários da tabela da Ordem que o dinheiro pode comprar. Mas advogo só de gravata e com uma taça de vinho.

Alguns clientes consideram absurdo o fato de eu não estar disponível das 9:00 às 18:00 num lugar e vestido. Entretanto, isso não é problema: se eles não querem um advogado que trabalhe no horário que bem entender, só de gravata e com uma taça de vinho, eu não quero eles como clientes.

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Óbvio que minha vida não se tornou algo tão anti-social assim. Tenho que dar aulas de português também, nas quais tenho que interagir com pessoas. Mas o código de vestuário é menos rigoroso que o da advocacia e mais rigoroso do que o da minha advocacia. Posso trabalhar de calça jeans, camiseta e tênis. Eu me visto para dar aula da mesma forma que me visto para ter aulas na USP, and that works for me.

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A comparação entre ambas as carreiras (a advocacia free-lance e o magistério) me ensinou muita coisa ao meu respeito. Em especial como a gente briga com a própria natureza.

Precisei de uma década de advocacia e um ano de magistério pra aprender duas coisas.

A primeira delas é que eu preciso trabalhar com algo que eu veja resultado e relevância.

A segunda é que eu trabalho com a língua.

***

Enquanto advogado, uma das coisas mais desesperadoras é ver a total ausência de conexão entre o seu trabalho e o resultado.

Às vezes você faz uma ação judicial coxa e ganha. Às vezes faz uma peça linda e perde. E às vezes o juiz te dá a vitória por algo que você nem colocou nos autos (o que significa que o que você escreve, praquele juiz, é irrelevante). E isso é desesperador. Trabalho tem que ter alguma recompensa além do contracheque no fim do mês.

E um aluno aparecer no facebook, mostrar a nota que tirou (9.0 de 10.0) e falar “Obrigado, sem você eu não conseguiria isso” é recompensa pra caralho.

***

Por outro lado, minha vida profissional é bizarra. Minha to-do list tem aulas pra preparar, provas pra corrigir, petições pra elaborar, audiências para comparecer, cursos pra criar e mais uma dezena de compromissos acadêmicos da faculdade. E tudo isso tem em comum apenas uma coisa: a Língua.

Uma amiga minha me disse anos atrás que ela me enxergava como escritor. E isso é verdade. Não tenho livros escritos (ainda), mas tudo o que eu faço envolve a língua. Esse blog. As aulas. A advocacia. Tudo. E eu enxergo isso com enorme felicidade hoje. Meu trabalho é escrever ou ensinar a escrever. E subitamente tudo faz muito mais sentido.

Advogar e escrever esse blog é parte do meu trabalho. Afinal, que espécie de professor eu seria se eu mesmo não escrevesse? Como eu posso pedir pra um aluno escrever um poema se eu mesmo não conseguir fazer a tarefa que eu estou exigindo? Como pedir para alguém dar uma forma correta a uma ideia específica se eu não conseguir fazer isso? Como pedir pra alguém se expor com um texto escrito se eu tiver vergonha disso?

***

Quando eu era advogado e alguém me perguntava o que eu fazia para viver eu respondia “Eu venço”, afinal, esse é o trabalho do advogado, vencer. Se eu venço muito eu sou bom advogado. Se eu venço pouco, sou mau advogado.

Hoje se alguém me perguntar o que eu faço para viver acho que eu respondo: “Eu Componho“.

Um texto longo que ninguém (espero) vai ler sobre o ENEM.

October 25, 2015 § 2 Comments

Pois bem, passou o Enem e agora minha taimelaine tá bombando de memezinhos feministas a respeito de Simone Beauvoir na prova do Enem.

 

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A respeito da prova, em primeiro lugar, nada contra a luta pela igualdade de gênero. Pessoalmente eu não acredito que os gêneros sejam iguais, mas acredito que eles devem ser tratados equitativamente. Existem falhas ainda, mas estamos melhorando. Entretanto, eu discordo das ações afirmativas como um todo. Por exemplo, no meu entender de jurista, a Lei Maria da Penha se aplica também para defender o homem em casos de agressão. São casos mais raros? Vamos assumir que sim, mas o que importa é combater a violência em geral. Pelo menos na minha opinião.

Dito isso, o tema de redação NÃO foi um absurdo. Nem a questão a respeito dos movimentos feministas. AMBOS os temas abordados são uma mera análise de questões de fato do mundo. VOCÊ NÃO TEM QUE SER MACHISTA OU FEMINISTA PARA PERCEBER O MUNDO. O cara pode ser o ser humano mais misógino do mundo e ele TEM que saber que existe uma discussão enorme a respeito da violência contra a mulher e ações afirmativas. NEM QUE SEJA PARA DISCORDAR.

Você pode defender o que bem entender, mas defenda com inteligência e conheça a opinião contrária.

***

Por outro lado, devo deixar novamente claro, eu nunca gostei do Enem.

Eu considero o Enem uma prova secundária em seu aspecto técnico, que privilegia elementos abstratos do processo cognitivo ao invés do conteúdo. Na Faculdade de Educação menciona-se que isso se deve ao fato de que o Governo pretende avaliar de forma homogênea o país e, para isso, tem que lidar com desigualdades sócio-econômicas. Para evitar distorções, ao invés de avaliar o conteúdo se avalia a capacidade de correlacionar informações. É algo válido, mas eu discordo.

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Na minha opinião a escola tem basicamente duas funções: mostrar pro aluno os unknown unknowns e dar para ele repertório.

Os unknown unknowns são as informações que o aluno não sabe que não sabe. Na Teoria dos Jogos são três tipos de informações: o que você sabe, o que você sabe que você não sabe e o que você não sabe que você não sabe. O que você sabe é onde você está bem. O que você sabe que você não sabe é onde você pesquisa ou procura um especialista. O que você não sabe que você não sabe é onde você precisa tomar muito cuidado para não fazer merda.

Usando uma metáfora: Ao entrar em uma sala você pode ver os móveis e evitá-los. Se a luz está apagada você sabe que normalmente numa sala existem móveis, portanto, é bom tomar cuidado. Agora se naquela sala existir um alçapão é algo inesperado e desconhecido. E é nisso que você se fode.

Ou seja: esse é mais um glorioso dia da minha vida no qual eu não usei Báskara pra nada… mas eu sei que Báskara existe, posso procurar na internet ou posso perguntar pra alguém que sabe. Não saber que Amoníaco com Água Sanitária faz gás mostarda é perigoso pois eu posso fazer merda sem nem saber.

***

Além disso a escola oferece repertório ideológico para o aluno pensar o mundo. Se ele não tem conhecimento a respeito dos demais que pensaram o mundo antes dele, dificilmente vai conseguir compor ideias próprias. A esse respeito, vide Everything is a Remix.

Portanto, se eu não avalio o conteúdo, eu não avalio se aquela criança tem repertório intelectual pra pensar o mundo. E isso é ruim. É priorizar pessoas que apenas conseguirão responder ao mundo se houver um manual diante deles. Isso leva a uma sociedade no qual um aluno de Ensino Médio garantidamente possui nível de Ensino Fundamental, um Universitário possui nível de Ensino Médio, um Mestre possui nível de Universitário e um Doutor possui nível de Mestre.

E junto a isso, a prova de redação do Enem é a única que pede proposta de intervenção. Então pedimos a crianças sem experiência de vida e sem conteúdo teórico que sugira uma solução para um problema no mundo. É um estímulo ao imbecil com iniciativa.

Ou seja, a meu ver, é uma prova que não cobra coisas importantes (conteúdo) e demandam um posicionamento a respeito de uma questão complexa que os alunos (me perdoem) ainda não possuem conhecimento de mundo pra possuir. Resultado? Chovem propostas do tipo “o Governo deveria fazer uma Lei para” ou “o Governo deveria investir em”.

***

No entanto, o Enem se tornou o principal meio de ingresso em universidades federais. E uma coisa eu digo, enquanto professor, eu não sou pago pra discutir a realidade, eu sou pago pra resolver um problema: colocar meus alunos nos melhores vestibulares do País. Se o Enem é a maior porta de entrada, automaticamente os alunos (e professores) se prepararão mais pra ela. Nada mais natural.

Assim, se o Enem é uma prova com falhas conceituais, estimular os alunos a se prepararem pra ela é estimulá-los a se preparar pra uma prova com falhas conceituais. Algo perigoso. Não é um desastre e não é terrível, pois estamos falando de uma ciência humana, onde os seres humanos que farão a diferença. Se os alunos saírem do Ensino Médio despreparados a culpa não é do Enem, é do professor que não o preparou. (Ou seja, eu.)

***

Só que existe mais um problema e ele é abordado no que eu chamo de Aula Zero do meu curso de Redação: Vestibulares não selecionam os melhores alunos. Eles selecionam um PERFIL de aluno. O cara que passou no ITA (cuja prova tem Exatas, Português e Inglês) não tem o mesmo perfil do cara que passou na Poli (que cobra todas as matérias no Vestibular) ou da Unicamp (que tem um vestibular muito mais “humanista”). São Perfis diferentes que são preferidos por Universidade diferentes.

As três maiores escolas de Economia do Brasil são USP, UNICAMP e PUC-RJ. Cada uma segue uma linha ideológica distinta. As três melhores faculdades de Direito do País são a USP, o Mackenzie e a PUC-SP. Cada uma segue uma linha ideológica distinta. Porque essa é uma das funções da universidade: pensar o mundo, discordar, discutir, possuir linhas de pensamento que se batem, se digladiam, vencem e perdem. O pensamento PRECISA de discordância. Sem discordância vivemos numa idade média ou numa ditadura (não precisamos de choque no saco e pau-de-arara pra isso).

E quando unificamos o processo seletivo, unificamos o pensamento.

Não existem mais perfis dos alunos que entram em Universidades Federais. Existe perfil. Todos fazem a mesma prova, estudam as mesmas matérias e treinam o mesmo estilo de prova. E os alunos que entrarem serão os que farão a pós-graduação lá e virarão professores (Ah, a geração incestuosa nas universidades…). Sem Autonomia Universitária para a preparação de provas não há autonomia na escolha de perfis de alunos. Isso tende a homogeneizar os perfis universitários.

Discute-se muito hoje na Universidade a dificuldade em se pesquisar assuntos diferentes porque os Professores possuem linhas de pesquisa homogêneas. Isso é ruim. Não se traz ideias novas, incensa-se pensadores tradicionais e se quebra a voz discordante.

Todos amam citar a frase acima do bigodudo e falar de poesia, artes e espiritualidades. Mas ninguém gosta de lembrar dela quando um “reaça” fala que o país está indo a caminho de uma crise. Nessa hora é um bando de derrotista, com complexo de vira-lata, que não gosta de ver pobre na universidade. Quando uma espécie se reduz demais entende-se que ela está ameaçada de extinção porque não existe mais diversidade genética para garantir resistência a doenças e elementos nocivos. Quando as ideias se reduzem a um tipo só é a inteligência que fica ameaçada de extinção.

Ou seja, nada contra Hume. Mas será que não seria legal uma prova que também cita Bacon?

A Metamorfose.

August 18, 2015 § Leave a comment

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco deputado do PMDB. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o bem assentado terno cinzento dividido em riscas de giz, sobre o qual a pasta dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras notas de cem reais, que eram miseravelmente finas, escorregavam-se diante de seus olhos.

Que me aconteceu? – pensou. Não era um sonho. O gabinete, um vulgar gabinete humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de anotações de propina: Samsa era deputado da base aliada, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.

Mostrava uma senhora, de casaco vermelho, rigidamente sentada, a saudar a mandioca!

Gregor desviou então a vista para a janela e deu com o céu azul – ouviam-se os carros em Brasília passando pela avenida e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? – cogitou. Mas era impossível, estava habituado à posição de aliado e, como deputado da situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por manifestar uma posição ideológica, tornava sempre a rebolar, ficando aliado. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver seus colegas debaterem, e só desistiu quando começou a sentir na cueca um ligeiro comichão de dólares que nunca antes experimentara.

Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Conchavar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do lobbysta propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a corromper, preocupado com as ligações grampeadas, com a Polícia Federal e com as reuniões irregulares, com interesseiros casuais, que são sempre novos e nunca se tornam íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na gravata; arrastou-se lentamente sobre as costas, – mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas notas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gelado.

Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de viver em Brasília, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de civilização. Há outros corruptos que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o Congresso, de manhã, para tomar nota das propinas que recebi, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu partido: era logo despedido. De qualquer maneira, era capaz de ser bom para mim – quem sabe? Se não tivesse de me agüentar, por causa dos meus doadores, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o Presidente e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a um Ministério em plano elevado e falar para baixo para os coligados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter legislado o suficiente para pagar o que os meus doadores me cobram – o que deve levar outros cinco ou seis mandatos -, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o congresso fecha na Quinta.

Inferno.

June 22, 2015 § 3 Comments

Perdido, rodando e rodando,
Ouço alguém me chamar,
Envolto em pesado manto,
Me indica a estrada ao luar.

Pergunto seu nome ao estranho
e ele me ordena o calar
E disse que me mostraria o inferno
Para que eu pudesse contar.

“Acaso sois Dante encoberto?
Serás meu Virgílio a guiar?”
O silêncio me corta qual foice
E cesso o meu perguntar.

A estrada margeia um rio.
É o Letes, meu guia me aponta.
Diziam que as águas tiravam
Dos mortos a história que contam.

“Isso é mentira, preste atenção.
Uma armadilha para quem quer escapar.
O Letes amaldiçoa a memória
Daqueles que ousam tomar.

A memória não some, mas brilha
E reluz sem nada olvidar.
Tudo no inferno é armadilha.
E a maior é tentar escapar.”

Adentramos uma sala terrível
Em que as súplicas tomavam o ar
É a sala que pune aqueles
Que viveram do outro acatar.

Aqui descobrem o fim
Que obedecer leva a condenar
Passarão toda a eternidade
Aos juízes tentando apelar.

Mal sabem que a punição não aguarda
E que daqui não irão passar
O castigo é ouvir a sentença
E em vão tentar se exlicar.

“A mentira era o mais pertinente.”
“A honra não iria ajudar.”
“Tantos outros fariam como eu.”
“É injusto a mim condenar.”

Deixamos logo pra trás
A sala e seu castigar
A próxima seria pior
Que implorar sem se acreditar.

Lá se iria punir a preguiça
Daqueles que tentaram escapar
De viver uma vida plena
E de suas batalhas lutar.

Passarão o resto da vida
Vigiando o tempo imitar
Eternamente a vida que tinham
Sem nem mesmo um dia mudar.

Pois o tédio é o castigo daqueles
Que viveram sem nada enfrentar
E esquecem que maior derrota
É uma vida sem ter que lutar.

O terceiro círculo mostra
A história que querem contar
Ele pune a mentira daqueles
Que viveram de se enganar.

Quem em vida se justificou
Em morte vai ter que pagar
Com a língua pendendo da boca
Sem poder a mentira falar.

Aqui contarão a verdade
Que em vida foram ocultar.
Passarão uma eternidade
Contrariando o próprio falar.

O círculo de número quatro
É decorado todo de espelhos
E não guarda nenhuma piedade
Para quem viveu por vaidade.

Aquele que só quis ser amado
Viverá num inferno sozinho
Mendigará por amor e atenção
E sofrerá pra sempre no frio.

Pois aqui só existem aqueles
Que vivem pro próprio umbigo
E onde todos só querem pedir
Não existe quem possa doar.

O círculo que vem a seguir
É guardado a quem quis comandar
Aqui é uma grande guerra
Sem esperança de um dia acabar.

Se alguém um dia ordenou
Sem as ordens bem sopesar
Agora viverá ordenando
Sem ter a quem comandar.

O sexto círculo pune
Quem em vida foi violento.
Aqui fica quem se violou
E não se deu ao devido respeito.

Verão a saída do inferno
Tão perto, ao alcance da mão,
Mas para a liberdade alcançar
Mais do que aguentam então sofrerão.

O sétimo círculo pune
Quem tomou mais do que pôde dar
É o inferno que pune a gula
De quem cobra o que não quer doar.

O último e mais cruel
De todo o inferno e lugar
É onde se pode escolher
O castigo que irá enfrentar.

É um castelo de infinitas salas
Com torturas sempre a piorar
Mas ninguém sofre nenhuma
Pois procuram o pior torturar.

Esse é o inferno daqueles
que viveram intenso cobrar
de si mesmos sempre tentando
o perfeito um dia alcançar.

Chegando a viagem ao fim
Meu guia me lembrou de explicar
A todos que um dia ouvirem
De minha viagem ao inferno o cantar.

Devo a todos dizer
E em especial um grande alertar
Que pecar contra a própria vontade
É o pior de todo o pecar.

Pois não espera nem morte nem fim
Para ao inferno alguém condenar.
Quem nega a si mesmo o viver
Não precisa o inferno esperar.

Meu Arco.

March 13, 2015 § 1 Comment

Este é o meu arco. Existem muitos como ele. Mas este é o MEU arco. Ele é o meu melhor amigo. É a minha vida. Eu devo ter maestria sobre o meu arco assim como eu devo ter maestria sobre a minha vida. E eu vou.

***

É meio tosco começar um texto com uma mera paráfrase de “Meu Rifle”, mas é pertinente. Chegou hoje o meu arco. O primeiro arco que eu comprei (o outro foi herança de um projeto do meu tio). É simplesinho, coitado. Feito por um chinês, pago em dólares australianos e enviado por airmail. Taxado em cinquenta reais (o valor declarado era de vinte dólares) e feito em madeira, fibra de vidro e couro, ele não tem nada de mais.

Exceto que a tração dele é de oitenta libras. A maior tração de arcos comerciais modernos.

Oitenta libras é algo próximo a trinta e cinco quilos.

Para eu conseguir atirar com esse arco, precisarei segurar trinta e cinco quilos em uma corda em três dedos. É bastante, mas é o meu arco. E eu tenho que dominá-lo.

***

Acho que o feito físico mais impressionante que eu já fiz foi levantar noventa quilos em um braço.

Pra um culturista isso não é nada.

Eu estava descendo uma cachoeira com um amigo. Precisávamos pular sobre um vão. Passei primeiro, dei a mão para ele pular. Ele escorregou e eu o segurei. Com uma mão o levantei até a pedra. Não era um vão muito alto. Dois metros até a água, no máximo. Tinha correnteza, mas não tinha muitas pedras. Ele não ia morrer. Acho.

Foi fácil. Provavelmente porque foi o peso mais importante que eu já segurei.

***

Uma vez estávamos numa estrada e o rio lateral transbordou. O carro começou a ser arrastado. Saí do carro para evitar que ele fosse arrastado. Segurei ele na correnteza. Não foi tão difícil também. A correnteza não estava tão forte assim. Mas tinha gente no carro que não sabia nadar. Então não tínhamos muita opção.

Deve ter sido o maior peso que eu já empurrei.

***

Em um torneio de Karatê, que eu estava perdendo vergonhosamente, o adversário resolveu que ia ser uma boa ideia tirar um sarrinho da minha cara na luta.

Não foi.

Decidido a ser desclassificado, coloquei toda a força em um chute só. Acertou no meio do peito dele. Ele voou na terceira fileira da arquibancada. Uns cinco metros pra longe de onde eu chutei ele. Bem longe. Eu diria que nunca chutei com tanta força, mas eu não chutei com a perna. Chutei com o ódio.

***

Já carreguei quatro caixões. Do primeiro amor, do pai, da avó e do pai de um irmão.

É pesado. Muito pesado. Mas não foi sofrido. Prefiro que se alguém tiver que carregar um caixão, esse alguém seja eu. Sempre que possível, espero poder tirar esse peso (literal e metafórico) dos ombros das pessoas que eu amo.

Por isso que vou me esforçar para enterrar todos vocês. Espero ser o último a ser enterrado (ou morrer tentando). Porque ninguém deveria ter que enterrar alguém que ama. Então espero livrar vocês disso.

***

Meu arco tem uma tensão de oitenta libras. Trinta e cinco quilos. Pra segurar em três dedos, tracionar nas costas e controlar nos braços.

É fácil. Mais fácil que ter a cabeça erguida.

Só preciso de um motivo.

Ano Novo.

February 8, 2015 § Leave a comment

Minha resoluções de ano novo, historicamente, tendem a dar certo.

Obviamente isso não significa que o ano novo tenha algo especial que faça minhas resoluções darem certo. O ano novo é uma data como outra qualquer, sem nada de especial senão o sentido que se escolheu impor. É tão arbitrário, mas tão arbitrário, que a cada quatro anos enfiam um dia a mais no ano pra corrigir e não foder a paçoca de vez.

O ano novo astrológico, os solstícios e equinócios (que marcam as estações) são datas reais. Você olha pro mundo e elas existem. Hoje é o dia mais longo do ano, a noite mais longa, ou um dos dois dias em que ambos duram o mesmo. Isso faz sentido. Uma mudança de calendário não. Mas ainda assim minhas resoluções de ano novo, historicamente, funcionam.

***

Óbvio que  minhas resoluções não são coisas facilmente inferíveis. Raramente são coisas do tipo “perder cinco quilos”, “trocar de carro”, “conhecer a Suazilândia”, “arranjar uma namorada” ou coisa que o valha. Me parece um desperdício de resoluções.

Temos tão poucos anos pra resolver. Até agora, eu tive trinta e dois. Desses trinta e dois, só desde 2008 eu venho fazendo resoluções de ano novo. É muito pouca coisa. Muito pouco tempo. Ainda tenho que viver em paz, olhar a face de deus, reverenciar o olho de fogo do sol, construir um castelo na lua, dançar tango com a deusa de cabelos de cobre, bater lâminas com o Deus que se rejubila no sangue dos derrotados e contemplar a extensão do reino daquele que vê mais longe.

É muita coisa pra gastar como algo que um mortal consegue. Se é pra ambicionar, que seja algo fora da esfera humana. A Paz de deus, a paixão de Vênus ou a emoção da Lua. Qualquer coisa nesse sentido. Uma boa resolução de ano novo seria virar Shazam: A sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio.

Mas infelizmente não vivemos na época em que gigantes caminham sobre a Terra. Isso foi privilégio de Homero. Talvez tenhamos que nos contentar com a calma dos monges, a sorte dos irlandeses e a ira dos Anarquistas.

***

Como regra de polegar (algo muito mais legal que rule of thumb), me falaram que um bom começo é pensar no seu leito de morte. O que é aquilo que você quer conquistar pra essa vida. Algo que, se amanhã você batesse o carro e ficasse preso nas ferragens sem ninguém por perto, nesses últimos segundo, lhe fizesse sorrir e pensar “encontrei a paz”, “amei ao próximo”, “ajudei meu semelhante”, “mudei”, “contei uma história bela”. Qualquer coisa nesse sentido.

Isso vai colocar as coisas em perspectiva. No leito de morte não rola pensar que “esperavam de mim que”, “ética não era esperado de mim no momento” ou “ninguém nunca vai saber que”. Leito de morte é tenso. É você com você mesmo. Talvez por isso que o último verso (sim, verso é uma palavra apropriada) do “Pai Nosso” seja “agora e na hora de nossa morte”. Na hora da morte a única coisa que se sabe é que a vida passa diante dos olhos.

Que nós não nos envergonhemos de pedidos pequenos.

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Obviamente, “pequeno” é questão de perspectiva. Perder cinco quilos pode ser questão de vaidade ou retomar o império sobre o próprio corpo. Ser o melhor da sua área pode ser vaidade ou ultrapassar um limite supostamente impossível.

“Impossível é uma grande palavra usada por gente pequena pra viver no mundo em que está ao invés de mudá-lo” e blábláblá.

Perdoar pra uns é natural, pra outros é uma violência. Acordar às seis da matina é um sacrifício ou um prazer. Não comer o pudim é um esforço intangível ou uma decisão simples. Varia. Que bom. Sócrates já falava que Deus dá a rola conforme o cu. Ou coisa parecida. Ou foi outra pessoa. Whatever.

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O fato é que, graças sejam dadas, os desafios existem e são superáveis. Uma meta por vez. De inverno em inverno. A gente vai melhorando.

É tão bom que eu estou cogitando começar a incluir outros anos novos no meu calendário.

Tem o civil, o chinês, o astrológico, o celta, o judeu e o civil de novo. Cinco. Cinco resoluções. Imagina o quanto melhor pode ser uma pessoa com cinco resoluções por ano? Muito melhor. E com a chance de escolher uma por vez pelos meses que se seguirão. É pra ter esperança. Quase como ter várias mortes pra refletir sobre. Só que sem aquela coisa chata de morrer de verdade e tal.

Cinco objetivos pra atingir. Mesmo que pra descobrir que eles eram parciais, pequenos, egoístas e mesquinhos.

Porque o bom de alcançar um objetivo pequeno é descobrir que ele é pequeno.

Where Am I?

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