Cutelaria.

April 17, 2017 § 3 Comments

Uma coisa que eu sempre critico no Brasil é como nós não temos um mercado de hobbies desenvolvido. Eu acompanho alguns canais no youtube e me encanto como como o mercado nos EUA é aquecido. De pólvora para construir foguetes a armas de fogo, o americano médio tem acesso a materiais que permitem que ele realmente crie coisas novas e, ocasionalmente, perigosas.

Mas, se ocasionalmente alguém perde os dedos (algo ruim) isso estimula bastante o raciocínio e a capacidade de pensar. Fico triste pelos ocasionais manetas, mas, enquanto os dedos não forem os meus, é um preço baixo a se pagar para ter uma casta que tem como ideia de diversão fazer cerveja artesanal no quintal ao invés de sentar na frente da poltrona com uma cerveja vagabunda.

Eu, como alguns aqui sabem, estou me metendo a mexer na cutelaria. Um amigo meu define hobby como uma perda de tempo sistemática. Pessoalmente, eu gosto muito de pensar no hobby como o desenvolvimento de uma habilidade que pode ou não vir a ser útil na vida.

No meu caso, a cutelaria anda me ensinando muito a respeito de mim mesmo.

Minha primeira faca foi um aborto. Aos nove meses. Depois de dada a forma, preparado o cabo, tudo pronto, na hora da têmpera, a forja ficou quente demais e fundiu o aço. Isso me desanimou MUITO. Por um tempo eu cheguei a desistir. Mas a lição foi importante: não dá pra eu começar um projeto sem saber o que as ferramentas que eu tenho são capazes de fazer.

Esse final de semana eu comecei a segunda faca. Mais simples, mais direta. E me lembrei que meu avô sempre tinha uma oficina em casa. E ele sempre me deixou brincar com todas as ferramentas, exceto duas: o paquímetro e a ponteira de vídea (um metal muito duro e frágil usado para riscar o aço).

Hoje eu entendo porquê. Serrar, bater, furar, isso é fácil. A gente pensa que é muito trabalhoso, mas não é. Planejar é que é difícil. E o paquímetro e a ponteira de vídea são pra isso: medir e marcar.

É um pouco vergonhoso pra mim perceber que eu ainda sou meio tapado com o paquímetro. Me sinto meio desajeitado, sem muita habilidade. Usar o paquímetro não é só compreender o que é para ser feito. É conseguir fazer. Acho que esse é o significado da palavra “técnica” (ou me valendo do anglicismo skill) fazer a ponte entre o conhecimento e a realização.

Essa dificuldade em planejar a minha faca (essa é a segunda que eu começo a fazer sem nem elaborar um projeto) diz muito a respeito da minha dificuldade em planejar a minha vida. Eu resolvo problemas. Modéstia à parte, sou bom nisso. Me apresenta um desafio que eu encontro uma solução. Por vezes brilhante. Mas se eu sou bom em apagar incêndios, sou bem tapado em se tratando de projetar prédios.

Minhas facas são minhas criações. E toda criatura traz um pouco do seu criador. Minhas facas são minha vida: improvisadas, sem planejamento e dependentes exageradamente da minha habilidade e capacidade de resolver problemas.

Mas isso vai mudar.

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São Paulo, 95 de dezembro de 2016.

April 5, 2017 § Leave a comment

Caro Irmão de Armas, boa tarde.

Há tempos não escrevo. Há tempos não lhe escrevo. Há tempos não me embebedo na liberdade criativa que apenas a ficção pode nos proporcionar. Vergonhosa é a ausência de quem sente vergonha de se ausentar e ainda assim o faz.

Gostaria de me desculpar (novamente), mas não o farei. Mais vergonhoso seria fazê-lo. Desculpas desprovidas da intenção de não repetir o erro são inócuas tanto quanto mentirosas. A ficção não é uma mentira, mas uma verdade inventada. Saber a verdade e se afastar dela sim é um pecado.

A verdade que ora se apresenta, por sua vez, ainda que aparentemente nova, é mero desdobramento dos últimos acontecimentos. Por mais de uma vez eu disse que 2016 foi o ano em que virei um Dothraki. E os últimos meses me levaram novamente à essa conclusão.

Não pretendo aqui invocar a pretensão de andar a cavalo brandindo uma espada curva, queimando vilas e pilhando pessoas, embora isso me encha de nostalgia da década de 20. 1620, quando pilhávamos a cavalo a Ásia Menor.

Mas pretendo, sim, evocar uma bunda quadrada de banco de carro, inúmeras horas de direção rumo à guerra (sim, pois todo desafio é uma guerra) e uma questionável higiene de carro (limpo como um cavalo no deserto).

Se tal vida trouxe inegáveis incômodos e desgaste, tais incômodos e desgastes trouxeram, se não a Iluminação de um bodhisatva, ao menos a clareza de um faqir malnutrido.

No ano que se passou aprendi que o esforço nos leva a lugares inimagináveis, que podemos, com dedicação e empenho mudar nossa vida, a nós mesmos e ao mundo, que viajar leve nos permite perceber melhor as viagens e que incômodos são apenas incômodos e são incapazes de impedir o caminho de quem Quer.

Mas, acima de tudo, aprendi que isso tudo é irrelevante.

Sim, meu amigo, meu Irmão de Armas,  irrelevante.

Peço desculpas pelo anticlímax, mas creio que a sabedoria que não causa impacto não é sabedoria alguma.

Alcancei o mítico sonho de de contar uma história de Homem contra o Mundo e de Homem contra Si Mesmo. Fui There and Back Again, mas, como um Bilbo Baggins subnutrido não trouxe de volta riquezas incontáveis que não uma: a Guerra não é um fim em si. O Sacrifício é um meio. O Ascetismo é um Ritual. E o Ritual é uma série de Atos com uma Finalidade.

Aprender a viajar leve é gostoso, mas irrelevante se inexiste destino. Desconforto é mero desconforto e não enaltece. Um calhorda sofrido é apenas calhorda e sofrido, não um santo. Carregar uma Cruz não te faz filho de deus. Ser filho de deus te faz filho de deus.

Todo o resto é fetiche. E nenhum fetiche satisfaz. Exceto o fetiche por ruivas. Esse satisfaz.

As provações ultrapassadas trazem poucos prêmios além da alegria da vitória. E a alegria da vitória é fugaz. Passada a embriaguez do banquete, o sono reparador, o êxtase do orgasmo, volta a Guerra.

Avisem o Bardo Inglês: estão respondidas as questões.

Ser ou não Ser? Ser.

É mais nobre sofrer com as flechas e setas da sorte ultrajante ou erguer mão contra um mar de problemas e dar-lhes fim? Erguer mãos contra um mar de problemas e dar-lhes fim.

Simples. Sem plumas e paetês. Sem purpurina. Sem fumaça e espelhos.

Começo a entender a não-metafísica albertocaeiriana.

Gostaria de mais me delongar, mas tenho um mar de problemas para dar-lhes fim.

Fique em paz,
Abraços de Guerra,
Anarcoplayba.

Militares.

March 9, 2017 § Leave a comment

Somos todos saquinhos de sangue.

Muito se discute a respeito de alma, humanidade, auto-consciência e transcendência. Vida após a morte, senso de propósito e realização pessoal. Hedonismo, sacrifício e sacro-ofício.

Mas somos saquinhos de sangue.

Talvez sejamos algo mais. Talvez tenhamos uma alma imortal, descendente direta do Criador, imortal e tão velha quanto o Universo em si.

Mas somos saquinhos de sangue que, uma vez furados, vazam até esvaziar.

Todas as discussões, ambições, desejos e ideais têm esse denominador comum: um coração, dois pulmões, cinco litros de sangue. Perde um litro, cai a pressão. Perde dois litros, entra em choque. Perde dois litros e meio, desmaia e morre.

A história, no fim, é escrita pelos saquinhos de sangue que não esvaziaram. Livros, fé, ideais, bandeiras são apenas uma forma que as ideias encontraram de pular de saquinho de sangue em saquinho de sangue. Tal qual um vírus se propaga. E a militarização é a administração dos saquinhos de sangue.

Toda a militarização tem como fundamento a uniformização e equalização dos saquinhos de sangue. Os saquinhos de sangue têm que correr juntos, porque, em pelotão, os saquinhos de sangue são mais eficientes. Os saquinhos de sangue têm que coexistir sem grandes sobressaltos e percalços. Os saquinhos de sangue têm que ser proficientes com as mesmas armas, comidas e equipamentos. E acima de tudo, os saquinhos de sangue têm que se sentir parte de uma massa.

Por isso os saquinhos de sangue são colocados em um treinamento, recebem número, uniforme e ordens de higiene, corte de cabelo, barba. Quanto mais uniformes, mas os saquinhos de sangue se mostrarão dispostos a abrir mão da própria segurança em benefício de algo maior. (Maior, não melhor.)

Quanto menos identidade, menos conflito. O anonimato total permite que o saquinho de sangue faça qualquer coisa, por mais indizível. O carrasco usa máscara por isso. O franco-atirador usa a balaclava por isso. O anonimato torna uma vida desumana mais suportável.

Ultimamente venho me sentindo muito bem por trás da barba, do terno e da gravata.

Necrofilia.

February 6, 2017 § Leave a comment

Existem centenas de fetiches no mundo. Provavelmente um fetiche diferente para cada ser humano vivo. Ou ao menos para cada grupo pequeno de seres humanos. Eu posso estar errado, mas acho que se chutarmos um fetiche diferente para cada grupo de cinquenta seres humanos, estamos bem.

Fetiche por saltos altos. Certeza.

Fetiches por queijo cottage dentro de saltos altos? Deve ter.

Fetiche por mulheres asiáticas vestindo scarpins cheios de queijo cottage e pisando no mindinho esquerdo de um travesti vendado? Quase certeza que se eu publicar um site sobre isso alguém vai se interessar.

Dos diversos tipos de fetiches que existem, alguns são aceitáveis e outros não.

Tudo bem amarrar uma asiática e enrabá-la.

Sem problemas se vestir de Nazi e querer chicotear alguém.

Prender uma mulher em um móvel e usá-la de objeto sexual não é sem precedentes.

No entanto, pedofilia é um “no no”.

Bestialismo, apesar de não causar grandes problemas é socialmente reprovável.

E necrofilia é um tabu.

E para falar sobre isso hoje que eu vim aqui. Eu sou um Necrófilo.

Sim, eu sou um necrófilo.

Mas por favor, não me entendam mal. Nunca invadi cemitérios ou qualquer coisa do gênero. Isso seria muito baixo e bárbaro. Eu sou adepto de um tipo muito específico e simples de necrofilia. Me considero quase um connoisseur, com um nicho muito específico.

E tenho tesão por amores mortos.

Sim, isso mesmo. Eu fui amaldiçoado com a percepção da minha realidade. E fui amaldiçoado com o dom de ver as coisas mortas. É quase uma mediunidade, mas sem todos os poderes legais envolvidos nela. Eu vejo amores mortos. O tempo todo. Enxergo fantasmas andando pela casa. Vultos de flores mortas e cartas guardadas. Sou capaz de ver plenamente todos os sinais de um amor morto. Os olhos opacos, a boca seca, os lábios contraídos, o mau cheiro e rigor mortis.

Mas não consigo me desvencilhar deles. Eu sei que uma pessoa normal sentiria nojo ou ojeriza ao pensar em fazer amor com um amor morto. Mas eu não sou uma pessoa normal. Diante da certeza da morte do amor eu me sinto compelido a tentar mais. A tentar a ressuscitação mais um pouco (“Já são três dias, mais um pouco e vai dar!”). A me esforçar para ver se, tal qual um Lázaro, o amor morto sai da caverna caminhando sem chagas e dando o testemunho de um milagre.

Mas isso nunca acontece. O amor apodrece e se quebra, revelando o interior decomposto e carregado de vermes que eu sei, mas não quero acreditar.

No fim, enquanto escorre e se mistura, podre, com a terra eu sinto sair do cheiro de carniça, entranhas e vermes, que mastigam carne morta e viva como se uma única coisa fosse, a frase que joga na cara a incapacidade e incompetência:

“Podemos ser amigos.”

Soneto da Abissofobia.

February 2, 2017 § Leave a comment

Contemplando o Abismo antevejo
O vazio convidando pra bailar
Mãos geladas em profundo desespero
Danço a dança de uma pena com o ar.

Por mais breve que eu preveja tal romance
Ele dura até o voo acabar
É um voo em linha reta para o fundo
É um voo p’ra na sombra aterrizar.

Fosse um poço esperaria água ao fundo
Fosse um túnel uma luz para guiar
Preferível da certeza o desagrado

Ao terror dessa incerteza suportar.
O abismo não anuncia resultado
E cada escolha é um abismo a cortejar.

Feliz Ano Velho.

January 20, 2017 § Leave a comment

Cerca de cinco anos atrás eu tomei uma decisão: deixaria de advogar em escritório para me tornar professor de Língua Portuguesa. Entre 2013 e hoje eu tive a chance de, novamente, trabalhar como professor. Digo novamente pois já havia dado aula de matemática, química e física cerca de 13 anos antes.

(Cara… quando você começa a contar suas histórias com décadas de diferença entre os fatos é tão legal…)

Durante cinco anos eu tive a oportunidade de lecionar. Agora, por inúmeros problemas pessoais, tive que voltar a advogar. Consequentemente, uma vez que escritórios não gostam muito da ideia de dividir a sua alma com outras atividades profissionais, deixei de lado (ao menos por enquanto) o magistério.

Se alguém quiser saber o porquê, de forma resumida, eu precisava aumentar minhas receitas porque eu tenho dois gatos sob minha responsabilidade para cuidar. Aparentemente meu currículo como professor é muito ruim, mas como advogado é bem razoável.

A despeito de eu não gostar muito disso, as coisas mudaram e, consequentemente, meus planos de navegação tiveram que ser corrigidos.

Anos atrás eu disse que o mundo roda, roda, roda e para no mesmo lugar. Mas se o mundo parou no mesmo lugar, você não é mais o mesmo. E esses cinco anos foram de grande aprendizado.

Professor não é mal pago. Eu vou ganhar três vezes e meia como advogado o que eu ganhava como professor. E trabalhar quatro vezes mais. No mínimo. Economicamente isso é estúpido.

Mas ainda vivemos numa época em que poucas profissões podem se dar ao luxo de ter uma jornada variável.  As profissões que “pagam bem” exigem que você gaste bem. Gaste tempo de vida em trânsito, em almoço no escritório, em roupas, em imagem, em aparência. Ganhar bem é caro.

E isso coloca as coisas em outra perspectiva: uma coisa é você ganhar pouco com 16 anos. Outra é aos 34. Existe um tempo pra tudo. E fazer as coisas no tempo errado é muito caro. Tentei. Falhei. Talvez em tempos mais calmos eu tente de novo. Lição aprendida: não deixe nada para depois. Pode ficar impossível, muito difícil ou muito caro.

Advogar, em si, não é ruim. Eu adoro advogar de cuecas. Odeio sair de casa pra isso. Esse é o único problema.

Lecionar não é apenas bom. Deus, como eu odeio diários de classe.

Mas tem uma coisa que detona a comparação. Lecionar tem Salário Afetivo.

Eu brinquei que eu ficaria muito feliz se eu tivesse um aluno que queria ser fisiculturista. Não que eu ache uma carreira muito grandiosa. Mas porque eu gosto de ver gente com ambição, que quer algo diferente, que quer mais. E o fisiculturismo demanda um esforço e uma dedicação ímpar. E eu tive um aluno fisiculturista.

Um aluno meu quer ser padre. Padre mesmo, à moda antiga. Eu não acho que o catolicismo seja A Via. Mas é uma via. E embora eu não concorde com tudo o que ele fala, eu reconheço como útil que algúem defenda essa visão.

Gente que quer medicina, porque é só coração. Gente que quer medicina, porque é só cérebro.

Gente que odeia estudar, mas ama ler. E vice-versa.

Músicos. Escritores. Atrizes. Engenheiros.

Eu vi tanta gente que vocês não acreditariam. E tive a oportunidade de me dar um pouquinho pra eles. Espero que seja útil.

A palavra em Latim magus significa “o maior”. Duas carreiras usam essa palavra em sua nomenclatura: o Magistério e a Magistratura. Merecidamente.

Mas agora vou voltar a fazer o que eu já sabia que eu fazia bem.

Porque o mundo roda, roda, roda e para no mesmo lugar.

Mas não tem problema o mundo estar no mesmo lugar, porque eu não sou mais o mesmo.

Agora eu tenho gatos.

Saudades do Futuro.

January 9, 2017 § 2 Comments

Deveria existir uma palavra para saudades do futuro.

O ser humano vive crucificado entre o passado, o presente e o futuro. Carrega as cicatrizes do caminho, tem as mão ocupadas de presente e a cabeça cheia de futuro.

Na verdade, o futuro é uma parte importante do presente. Afinal, se soubessem se a morte é mesmo um sono sem sonhos, nada daria ao infortúnio tão longa vida. Objetivos sonhos e metas orientam. Ninguém planta uma árvore que sabe não vai nascer, cozinha um prato que sabe vai queimar ou dormiria se soubesse não acordar.

Vive-se, na pior das hipóteses, para ter um futuro. Ainda que ruim. Melhor amputar a gangrena do que gangrenar até a morte. Não que amputar seja bom, ou aleijar seja agradável. Mas ter uma vida para amputar e aleijar ainda é melhor que vida nenhuma at all.

Um ser humano saudável, porém, faz planos. E isso é bom. Raramente um construtor começa a empilhar tijolos pra ver no que dá. Não creio que um marceneiro golpeie a árvore até nascer um armário. Nem que um autor escorregue no banheiro, bata o coccix (que talvez não tenha esse nome anatômico, mas é um excelente nome pra um ossinho que dói muito quando batido) e de repente, pá, escreveu um romance.

Seres humanos saudáveis fazem planos bons, belos, de felicidade e conquista. Seres humanos sensatos fazem planos com base no presente.

Mas as coisas mudam. A dona aranha sobe pela parede. Mas a chuva forte derruba.

Acontece. A dona aranha não morre. Cai. Se machuca um pouco. Talvez passe umas semanas lambendo as feridas. Se preparando pra nova escalada. (Sim, porque uma aranha nunca se banha no mesmo rio duas vezes. Pera.). Ela recomeça. Talvez dê certo. Talvez não. Mas ela continua planejando o sucesso e, se necessário, readequando os planos.

Mas ninguém fala da saudades dos  antigos planos que morreram.

Deveria haver uma palavra pra saudades do futuro que se perdeu.