Necrofilia.

February 6, 2017 § Leave a comment

Existem centenas de fetiches no mundo. Provavelmente um fetiche diferente para cada ser humano vivo. Ou ao menos para cada grupo pequeno de seres humanos. Eu posso estar errado, mas acho que se chutarmos um fetiche diferente para cada grupo de cinquenta seres humanos, estamos bem.

Fetiche por saltos altos. Certeza.

Fetiches por queijo cottage dentro de saltos altos? Deve ter.

Fetiche por mulheres asiáticas vestindo scarpins cheios de queijo cottage e pisando no mindinho esquerdo de um travesti vendado? Quase certeza que se eu publicar um site sobre isso alguém vai se interessar.

Dos diversos tipos de fetiches que existem, alguns são aceitáveis e outros não.

Tudo bem amarrar uma asiática e enrabá-la.

Sem problemas se vestir de Nazi e querer chicotear alguém.

Prender uma mulher em um móvel e usá-la de objeto sexual não é sem precedentes.

No entanto, pedofilia é um “no no”.

Bestialismo, apesar de não causar grandes problemas é socialmente reprovável.

E necrofilia é um tabu.

E para falar sobre isso hoje que eu vim aqui. Eu sou um Necrófilo.

Sim, eu sou um necrófilo.

Mas por favor, não me entendam mal. Nunca invadi cemitérios ou qualquer coisa do gênero. Isso seria muito baixo e bárbaro. Eu sou adepto de um tipo muito específico e simples de necrofilia. Me considero quase um connoisseur, com um nicho muito específico.

E tenho tesão por amores mortos.

Sim, isso mesmo. Eu fui amaldiçoado com a percepção da minha realidade. E fui amaldiçoado com o dom de ver as coisas mortas. É quase uma mediunidade, mas sem todos os poderes legais envolvidos nela. Eu vejo amores mortos. O tempo todo. Enxergo fantasmas andando pela casa. Vultos de flores mortas e cartas guardadas. Sou capaz de ver plenamente todos os sinais de um amor morto. Os olhos opacos, a boca seca, os lábios contraídos, o mau cheiro e rigor mortis.

Mas não consigo me desvencilhar deles. Eu sei que uma pessoa normal sentiria nojo ou ojeriza ao pensar em fazer amor com um amor morto. Mas eu não sou uma pessoa normal. Diante da certeza da morte do amor eu me sinto compelido a tentar mais. A tentar a ressuscitação mais um pouco (“Já são três dias, mais um pouco e vai dar!”). A me esforçar para ver se, tal qual um Lázaro, o amor morto sai da caverna caminhando sem chagas e dando o testemunho de um milagre.

Mas isso nunca acontece. O amor apodrece e se quebra, revelando o interior decomposto e carregado de vermes que eu sei, mas não quero acreditar.

No fim, enquanto escorre e se mistura, podre, com a terra eu sinto sair do cheiro de carniça, entranhas e vermes, que mastigam carne morta e viva como se uma única coisa fosse, a frase que joga na cara a incapacidade e incompetência:

“Podemos ser amigos.”

Soneto da Abissofobia.

February 2, 2017 § Leave a comment

Contemplando o Abismo antevejo
O vazio convidando pra bailar
Mãos geladas em profundo desespero
Danço a dança de uma pena com o ar.

Por mais breve que eu preveja tal romance
Ele dura até o voo acabar
É um voo em linha reta para o fundo
É um voo p’ra na sombra aterrizar.

Fosse um poço esperaria água ao fundo
Fosse um túnel uma luz para guiar
Preferível da certeza o desagrado

Ao terror dessa incerteza suportar.
O abismo não anuncia resultado
E cada escolha é um abismo a cortejar.

Feliz Ano Velho.

January 20, 2017 § Leave a comment

Cerca de cinco anos atrás eu tomei uma decisão: deixaria de advogar em escritório para me tornar professor de Língua Portuguesa. Entre 2013 e hoje eu tive a chance de, novamente, trabalhar como professor. Digo novamente pois já havia dado aula de matemática, química e física cerca de 13 anos antes.

(Cara… quando você começa a contar suas histórias com décadas de diferença entre os fatos é tão legal…)

Durante cinco anos eu tive a oportunidade de lecionar. Agora, por inúmeros problemas pessoais, tive que voltar a advogar. Consequentemente, uma vez que escritórios não gostam muito da ideia de dividir a sua alma com outras atividades profissionais, deixei de lado (ao menos por enquanto) o magistério.

Se alguém quiser saber o porquê, de forma resumida, eu precisava aumentar minhas receitas porque eu tenho dois gatos sob minha responsabilidade para cuidar. Aparentemente meu currículo como professor é muito ruim, mas como advogado é bem razoável.

A despeito de eu não gostar muito disso, as coisas mudaram e, consequentemente, meus planos de navegação tiveram que ser corrigidos.

Anos atrás eu disse que o mundo roda, roda, roda e para no mesmo lugar. Mas se o mundo parou no mesmo lugar, você não é mais o mesmo. E esses cinco anos foram de grande aprendizado.

Professor não é mal pago. Eu vou ganhar três vezes e meia como advogado o que eu ganhava como professor. E trabalhar quatro vezes mais. No mínimo. Economicamente isso é estúpido.

Mas ainda vivemos numa época em que poucas profissões podem se dar ao luxo de ter uma jornada variável.  As profissões que “pagam bem” exigem que você gaste bem. Gaste tempo de vida em trânsito, em almoço no escritório, em roupas, em imagem, em aparência. Ganhar bem é caro.

E isso coloca as coisas em outra perspectiva: uma coisa é você ganhar pouco com 16 anos. Outra é aos 34. Existe um tempo pra tudo. E fazer as coisas no tempo errado é muito caro. Tentei. Falhei. Talvez em tempos mais calmos eu tente de novo. Lição aprendida: não deixe nada para depois. Pode ficar impossível, muito difícil ou muito caro.

Advogar, em si, não é ruim. Eu adoro advogar de cuecas. Odeio sair de casa pra isso. Esse é o único problema.

Lecionar não é apenas bom. Deus, como eu odeio diários de classe.

Mas tem uma coisa que detona a comparação. Lecionar tem Salário Afetivo.

Eu brinquei que eu ficaria muito feliz se eu tivesse um aluno que queria ser fisiculturista. Não que eu ache uma carreira muito grandiosa. Mas porque eu gosto de ver gente com ambição, que quer algo diferente, que quer mais. E o fisiculturismo demanda um esforço e uma dedicação ímpar. E eu tive um aluno fisiculturista.

Um aluno meu quer ser padre. Padre mesmo, à moda antiga. Eu não acho que o catolicismo seja A Via. Mas é uma via. E embora eu não concorde com tudo o que ele fala, eu reconheço como útil que algúem defenda essa visão.

Gente que quer medicina, porque é só coração. Gente que quer medicina, porque é só cérebro.

Gente que odeia estudar, mas ama ler. E vice-versa.

Músicos. Escritores. Atrizes. Engenheiros.

Eu vi tanta gente que vocês não acreditariam. E tive a oportunidade de me dar um pouquinho pra eles. Espero que seja útil.

A palavra em Latim magus significa “o maior”. Duas carreiras usam essa palavra em sua nomenclatura: o Magistério e a Magistratura. Merecidamente.

Mas agora vou voltar a fazer o que eu já sabia que eu fazia bem.

Porque o mundo roda, roda, roda e para no mesmo lugar.

Mas não tem problema o mundo estar no mesmo lugar, porque eu não sou mais o mesmo.

Agora eu tenho gatos.

Saudades do Futuro.

January 9, 2017 § 2 Comments

Deveria existir uma palavra para saudades do futuro.

O ser humano vive crucificado entre o passado, o presente e o futuro. Carrega as cicatrizes do caminho, tem as mão ocupadas de presente e a cabeça cheia de futuro.

Na verdade, o futuro é uma parte importante do presente. Afinal, se soubessem se a morte é mesmo um sono sem sonhos, nada daria ao infortúnio tão longa vida. Objetivos sonhos e metas orientam. Ninguém planta uma árvore que sabe não vai nascer, cozinha um prato que sabe vai queimar ou dormiria se soubesse não acordar.

Vive-se, na pior das hipóteses, para ter um futuro. Ainda que ruim. Melhor amputar a gangrena do que gangrenar até a morte. Não que amputar seja bom, ou aleijar seja agradável. Mas ter uma vida para amputar e aleijar ainda é melhor que vida nenhuma at all.

Um ser humano saudável, porém, faz planos. E isso é bom. Raramente um construtor começa a empilhar tijolos pra ver no que dá. Não creio que um marceneiro golpeie a árvore até nascer um armário. Nem que um autor escorregue no banheiro, bata o coccix (que talvez não tenha esse nome anatômico, mas é um excelente nome pra um ossinho que dói muito quando batido) e de repente, pá, escreveu um romance.

Seres humanos saudáveis fazem planos bons, belos, de felicidade e conquista. Seres humanos sensatos fazem planos com base no presente.

Mas as coisas mudam. A dona aranha sobe pela parede. Mas a chuva forte derruba.

Acontece. A dona aranha não morre. Cai. Se machuca um pouco. Talvez passe umas semanas lambendo as feridas. Se preparando pra nova escalada. (Sim, porque uma aranha nunca se banha no mesmo rio duas vezes. Pera.). Ela recomeça. Talvez dê certo. Talvez não. Mas ela continua planejando o sucesso e, se necessário, readequando os planos.

Mas ninguém fala da saudades dos  antigos planos que morreram.

Deveria haver uma palavra pra saudades do futuro que se perdeu.

O truque pra escrever bem…

December 31, 2016 § Leave a comment

… é começar escrevendo um texto que você gostaria de ler. Depois criar senso crítico. Aí você tem que passar o resto da sua vida caminhando no fio da navalha: ampliando o senso crítico e a capacidade de escrever textos que te agradem.

***

Não escapa à percepção uma certa ironia, que poderia ser cortada com uma faca de pão de tão grossa, que eu escrevi mais textos no mês que decidi matar o blog do que no ano inteiro.

Mas a ironia (pelo menos essa ironia) me agrada. É sinal de que existe uma guerra dentro de mim. Uma guerra entre partes que não param e estão muito bem armadas. Por um lado efetivamente eu me questiono se ainda é sensato, inteligente e dotado de algum bom senso manter um blog. Meus amigos estão criando os filhos e eu aqui, escrevendo textão na internet. Shame. Blém blém.

Mas por outro lado, existe um pequeno detalhe que eu me esqueci. Um detalhe fundamental. Eu não escrevo pros outros. Eu escrevo pra mim. Sempre foi assim. Eu ecrevo textos que eu gostaria de ler.

Talvez isso tenha condenado meu blog a um eterno limbo. “Seus textos são muito grandes.” “Ninguém mais lê blog, a mídia do momento é o youtube.” “E eu lá vou perder meu tempo lendo blog?” “Você tem que se vender mais.” Todas essas críticas já foram feitas. E todas elas são pertinentes. Mas eu não escrevo pros outros, eu escrevo porque preciso e o que preciso.

E se os textos estão esparsos e… rasos… Acho que matar o blog não é solução.

***

Mas tudo isso é uma grande digressão necessária (pra mim). O tema do texto é 2016. E meus desejos para 2017.

2016 foi um ano difícil. Acho que objetivamente tem chance de ser o pior ano da minha vida. Não é todo ano que se perde uma amiga querida, dentre outras coisas.

Agora, apesar de objetivamente ter sido muito difícil, não me atrevo a chamá-lo de ruim. Acho que foi melhor que outros. Não sei se eu estou ficando calejado depois d tanta porrada ou se (finalmente) a tal da calma dos monges que eu sempre desejei finalmente tá chegando.

Besides, apesar de ter sido um ano muito difícil, eu estou MUITO melhor que MUITA gente: eu estou respirando.

Algumas pessoas podm falar que, talvez, morrer não seja tão ruim e que ou outro lado do véu tenha muito a ensinar (a amiga querida que faleceu esse ano é uma dessas pessoas). Mas percebam: eu não disse estar vivo, eu disse respirando.

***

Respirar é uma coisa muito legal.

Em resumo existem duas respirações, a mecânica e a bioquímica. A mecânica é a mais sussa: expande-se e restringe-se o volume dos pulmões pro ar entrar e sair. É a primeira coisa que a gente aprende quando nasce e uma das mais basilares. Engasgar com saliva é uma prova de incompetência. Pensem nisso na próxima engasgada.

Mas a bioquímica é mais complexa. Você pega oxigênio que vem do Ar, junta com glicose que vem dos alimentos produzidos na Terra e termina com vapor de Água, CO2 e Calor. É tão foda que tem até um 666: 6O2 + C6H12O6 = 6CO2 + 6H2O.

Piadas à parte, podemos ficar três dias sem água, mas seis minutos sem Oxigênio. Nossa mera existência demanda respiração. Pensar ou se movimentar então, demanda ainda mais.

Se eu ingiro mais calorias do que as que eu queimo respirando, eu engordo. Se eu ingiro menos calorias do que as que eu queimo respirando, eu definho.

Respirar é a capacidade de tirar do mundo e devolver para ele na forma de trabalho muscular ou cerebral. Tomamos o Ar que está disponível, os alimentos que a Terra produz, transformamos em Água, Calor e Força muscular ou cerebral. Respirar é a base de todas as nossas vidas e o elemento primordial para termos capacidade de mudarmos o mundo por meio da mudança de nossas vidas e de nós mesmos.

Sem respirar, nada disso é possível.

***

2016 foi difícil. Eu saio dele machucado, com cicatrizes, medos, rancores, temores, sustos, carências, inseguranças, incertezas, desafios e um aperto no peito que não morre de jeito nenhum.

Mas eu ainda estou respirando. E enquanto eu estiver respirando, eu tenho tudo o que eu preciso pra conseguir o que eu preciso.

***

Em 2017, desejo a vocês que vocês respirem.

Discurso de Formatura Proferido na Cerimônia de Dezembro de 2016.

December 19, 2016 § 2 Comments

Esse é o discurso que tive o privilégio de proferir como paraninfo da turma do 3º ano do Ensino Médio do Colégio onde trabalho. Como o discurso foi proferido de cor, é possível que eu tenha, no sabor do momento, alterado, incluído ou suprimido algumas passagens.

***

Meus amores, boa noite.

Peço desculpas a todos, mas, infelizmente, não tive tempo de preparar um discurso, então eu resolvi simplificar tudo e dar uma aula mesmo. Mas eu não tive tempo de preparar uma aula também. Então eu resolvi fazer o que todo professor faz quando não tem aula preparada: dar uma atividade, no caso, uma redação.

Mas eu não tive tempo de preparar um tema para redação, então eu resolvi trazer para vocês um tema que vocês com certeza já trabalharam, mas não comigo. Então a gente vai debater um pouquinho sobre o tema e depois vocês fazem uma redação que a gente combina a entrega.

O tema é “O que eu vou ser quando crescer”.

Eu imaginava uns de vocês com uma cara de “que saco, eu estou me formando no Ensino Médio, não entrando no Fundamental!”. Outros “mas eu não sei o que eu vou ser quando crescer! Eu não quero pensar nisso!!!”. Calma, o meu papel é desenvolver com vocês o tema para que vocês produzam o texto.

Pois bem, esse é um tema que é recorrente na escola. Vira e mexe perguntam e vocês tem que responder. Astronauta, médico, jogador de futebol, advogado, psicóloga, enfermeira, músico, e sei lá mais o quê. Mas essa pergunta está errada e isso atrapalha muito a nossa vida porque ela nos induz em erro.

E para começar a produzir esse texto, temos que analisar a proposta. Nesse caso temos uma locução verbal, que, para fins de análise, eu vou simplificar: Vou Ser é Serei. O que eu serei quando eu crescer ou, em ordem “Sujeito-Verbo-Objeto”:  “Eu serei o que quando eu crescer?”.

A gente começa com o sujeito. Eu. Primeira pessoa do singular. Aquele que fala. E sobre o “Eu”, existem infinitas teorias a se falar. Tem gente materialista, espiritualista, que crê no Livre Arbítrio, na primazia do meio social, mas por enquanto, prestem atenção apenas em uma coisa:  “a existência de um Eu pressupõe a existência de um não-Eu”.

Isso parece estranho mas é muito simples: Falar que existe alguma coisa presume a existência  de infinitas coisas que não são essa coisa. Se eu falo “cachorro”, existem infinitas coisas que não são “cachorro”: gato, carro, galinha, papagaio, brigadeiro, whatever. E esse é o primeiro ponto que vocês vão ter que responder: O que Eu sou e o que Eu não sou. Se individualizar.

E isso vai demandar traçar uma fronteira. Eu gosto de algumas coisas, não gosto de outras, faço algumas, não faço outras, sou bom em umas, não sou bom em outras. Esse é o primeiro trabalho de vocês: se conhecerem. Se dediquem a ele. Vocês são únicos e descobrir o que é a essência de vocês e o que não é é fundamental.

Agora, quando eu falo “quando eu crescer”, é uma Oração Subordinada Adverbial Temporal Reduzida de Infinitivo. Isso é um jeito muito complicado de falar que é um tempo.

E a presença desse tempo dará a segunda questão a ser respondida: tempos diferentes pessoas diferentes. Vocês eram alguém no começo da escola. Hoje são diferentes. Cresceram. E ainda passarão pela faculdade e mudarão mais. Vocês mudarão. Reconheçam e aceitem. “Formatura” é uma palavra errada: vocês não estão formados. Estão se formando. Mas não se preocupem: eu também. “O bonito da vida é isso, seu moço: gente não tá acabada, gente tá se terminando.”

Agora, pra finalizar, a parte mais importante da oração. A cereja do bolo: O Verbo Ser, no futuro, Serei.

Primeiro, em outras línguas, existem verbos “ser” diferentes. Por exemplo, em inglês, usa-se o verbo “to be”, traduzido como “Ser ou Estar”. De cara temos uma diferença: Em inglês, Ser e Estar se diz como uma palavra só. Eu estou feliz e eu sou feliz se diz da mesma forma “I am happy”. Depende da intenção. Eu fico sempre pensando que isso deve gerar tanta reflexão na cabeça dos ingleses: se eu digo I am happy eu quero dizer que eu sou feliz e isso é um caráter essencial do meu Eu ou que eu estou feliz e isso passará? São coisas muito diferentes.

Além disso, a construção do tempo verbal futuro em inglês usa a palavra “will”. I will be. Mas Will também significa vontade. E aí começamos a finalmente juntar as pontas: Will Be é ao mesmo tempo Serei e Vontade de Ser. Ou seja, vocês serão aquilo que vocês tiverem Vontade de Ser. Vocês podem ser o que vocês quiserem.

Mas tem uma pegadinha nisso tudo: Vocês podem ser o que vocês quiserem, mas vocês não podem querer qualquer coisa.

Porque Vontade é atributo do Eu, e cada um é diferente e a pior coisa que pode acontecer é vocês acharem que devem querer Ser algo que não São. Isso mata a gente por dentro.

Pra descobrir o que vocês vão ser quando crescer, portanto, vocês tem que decobrir o que vocês querem. E pra isso é “só” saber quem vocês são. Descubram quem vocês são e vocês saberão o que vocês querem. Sabendo o que vocês querem, ocupem-se de crescer nessa direção.

Mas aí vem a grande pergunta: Se o que queremos depende de quem somos, afinal, quem somos nós?

Eu não tenho a pretensão de responder a essa pergunta de forma definitiva, mas outra ferramenta que eu encontrei para responder essa pergunta vem do Hebraico, que não tem o verbo ser no presente do indicativo. Exato. Não tem. Então se eles querem falar, por exemplo, “eu sou um professor” eles falam apenas “eu professor”, no caso, “Ani Moré”.

Mas embora o hebraico não tenha presente do indicativo pro verbo Ser, ele tem um verbo para o pretérito do verbo ser, iahi. Esse verbo tem várias conjugações e vários tempos verbais e eu queria destacar um, que não existem em português, que é um tempo verbal que mistura gerúndio e infinitivo. Traduziria-se como “estar sendo”: a conjugação é Iahô. Iud Heh Vav Heh. Quem aqui conhece essa palavra? É isso que deus responde pra Abrão quando ele pergunta “quem és tu”. Deus responde Iahô. Traduziram como “eu sou aquele que é”. Erro de tradução: usaram o presente do indicativo, que sugere um processo acabado. Ele responde Iahô e o correto seria “Eu sou Aquele que Está Sendo”.

Gente, se alguns de vocês podem ser religiosos e achar que eu estou quebrando aquele mandamento de “não usar o nome de Deus em vão”. Eu não estou preocupado com isso.

Em primeiro lugar, porque não é em vão. Se eu pudesse eu traria os quatro arcanjos do céu, Rafael, Miguel, Gabriel e Uriel, colocava um em cada canto dessa sala com uma estrela do céu e o nome de Deus para vocês porque vocês merecem. Vocês são a coisa mais importante no mundo hoje.

Mas mais importante do que isso é uma coisa que eu ainda não tenho muita certeza… preciso estudar mais… Mas eu ACHO que o nome de Deus não é uma palavra.

Eu ACHO que o nome d Deus é uma palavra, e uma cor, e um som, e uma luz, e um sabor, e um perfume, e uma textura, e uma emoção e um pensamento, e uma ideia. Tudo isso ao mesmo tempo em movimento.

E vocês são a imagem e semelhança de deus. Então eu acredito que vocês são uma palavra, e uma cor, e um som, e uma luz, e um sabor, e um perfume, e uma textura, e uma emoção e um pensamento, e uma ideia. Tudo isso ao mesmo tempo em movimento.

Por isso a pergunta “o que eu vou ser quando crescer” é errada: induz vocês a responderem uma coisa só. E vocês não são uma coisa só. Vocês são um todo em movimento.

E por isso essa redação não será entregue em uma folha de redação. Entre vinte a trinta linhas. Com parágrafo de três centímetros. Ela vai ser entregue em um abraço. Uma palavra. Uma conversa.

Queridos pais, queridas mães, caros professores, nossa senhora diretora, queridos alunos, queridas alunas… e Xxxxx (pausa para as risadas). Antes de prosseguir ao encerramento, gostaria de aqui lhes render minhas homenagens e pedir desculpas por esse teatrinho de um discurso que finge não ser discurso. Meus amores, o discurso foi preparado sim. E foi muito bem preparado. E eu estou o proferindo de cor.

Mas o discurso de formatura é um gênero do discurso. E é um gênero do discurso que serve para agradecer e dar conselhos. E embora eu tenha muito a agradecer, eu detesto dar conselhos. São muito cômodos: “faça o que eu digo e boa sorte.”

Por isso eu preferi o formato aula. Porque eu quero dar para vocês o que eu tenho de mais precioso. E isso é o que eu tenho de mais precioso. “Se eu fosse rico e tivesse posses, contratava os anjos e arcanjos do céu e mandava trazer as cortinas de ouro e prata de sol e de lua para que caminhem. Mas tenho apenas meus sonhos. E os estendi diante de vocês. Caminhem com cuidado, pois caminham sobre os meus sonhos.”

Saibam que cada homem e cada mulher é uma estrela. É único. Está em movimento. O que serve pra mim não pode não servir para vocês. E tá tudo certo.

Por fim, uma vez que eu não gosto de dar conselhos, gostaria de terminar esse discurso com meus desejos. Porque eu desejo para vocês aquilo que eu desejo para mim.

Desejos que vocês falem sempre a verdade, não porque mentir seja feio ou não funcione. Funciona e muito bem. Mas desejo que vocês falem semore a verdade porque a mentira é a arma do fraco e eu desejo que vocês sejam fortes.

Sendo fortes, desejo que sejamos íntegros diante dos mais fortes e misericordiosos diante de quem ainda não é tão forte, porque isso é ser corajoso e ter coragem é agir com o coração.

Sendo corajosos eu desejo que tenham sabedoria pois é ela que vai permitir que nossos esforços rendam frutos, e é muito importante colher os frutos dos esforços: eles que mostram que estamos no caminho certo.

E, por fim, desejo que tenham algo que, na falta de palavra melhor, eu vou chamar de “Amor”. Porque Amor é uma palavra gasta, que a gente usa, mas ainda não sente a amplitude dela. Para nós, hoje, aqui, Amor é aquilo que enche o coração, dá vida, vitalidade, força, coragem, ânimo, faz ver a beleza na existência e faz com que consigamos sair da cama todos os dias de manhã e ver que a vida é bela, doce e importante. Eu desejo que vocês tenham esse amor que faz a Vida valer à pena.

Porque é por isso que todos os dias de manhã quando eu entro na sala de aula eu cumprimento vocês chamando vocês de “meus amores”.

Muito obrigado.

Amém.

Shelá.

Último Post de Blog de um Homem que Ficou Velho de Repente.

December 1, 2016 § 3 Comments

Uma das melhores histórias em quadrinhos que já foram escritas se chama Transmetropolitan (fic aqui o link da Amazon, mas eu vi que foi lançado no brasil e, sobrando uma grana, TENHO que comprar).

Transmetropolitan fala sobre um Jornalista (Spider Jerusalem) no século XXIII que é retirado de um exílio auto-imposto nas montanhas para cumprir um dever contratual de escrever dois livros.

O livro se passa em um futuro distópico Cyberpunk. Como o câncer foi curado com facilidade e a maior parte das doenças também, drogas são plenamente legalizadas. A tecnologia é tão avançada que entretenimento e bens de consumo são praticamente infinitos.

Mas como em toda distopia, a tecnologia mudou, mas a humaniade continuou a mesma.

Grupos de “trans” fazem protestos pelos seus direitos e são massacrados pela polícia (Transespécies, que injetam dna alienígena em si, não transgêneros). O Presidente declara que o trabalho dele é conquistar 51% dos votos e proteger esses 51% dos 49% restantes. Religiões são criadas para explorar a fé alheia. E por aí vai.

Mas o ponto principal e que levou Spider ao autoexílio é que a quantidade de informação é tão imensurável que afoga qualquer expectativa de Verdade. A frase mais emblemática da série toda é “Lies are news and the Truth is obsolete!” Mentiras são notícia e a Verdade está obsoleta.

***

O Dicionário Oxford elegeu a palavra “Pós-Verdade” como a Palavra do Ano em 2016.

Pra mim isso e eleger “estupro infantil” como palavra do ano é quase a mesma coisa.

Pós-Verdade é um conceito no qual acontecimentos objetivos são menos relevantes para a formação de uma convicção pessoal do que apelos a ideais ou emoções.

Eu gostaria de dar exemplos, mas esse é um post de despedida e não quero maculá-lo com vieses.

***

 

Deram um substantivo para a frase “Lies are news and the truth is obsolete.”

Chamaram de Pós-Verdade.

E isso destrói a finalidade desse blog.

Muito tempo atrás ele surgiu como minha busca pela Verdade. Minha verdade.

Mas a verdade é inútil. Mera circunstância. Massinha de modelar para aquilo que eu quero.

***

Em um mundo de Pós-Verdade, nada é verdadeiro. O Palmeiras tem quatro ou nove títulos sei-lá-do-quê? Gente, é um campeonato, como é possível não haver concordância com isso? Ou do Palmeiras ou dos outros Times? É documental!

Percebem? E percebem que isso é a parte menos relevante de tudo? Do time de futebol ao partido político. Do sexo ao amor. Da Economia à Religião.

 

“Errado está o mundo, que não se curva à minha genialidade.”

***

Não sei o que vou fazer. Certamente impossível deixar de escrever. Mas eu preciso dar um passo adiante. Escrever algo maior do que eu mesmo. Algo que seja Verdadeiro de tal forma que seja impossível refutar. Talvez literatura, não sei.

Mas se eu não conseguir me libertar do que sou hoje, uma pessoa escrevendo sobre o mundo, melhor que eu não escreva at all.

Esse ano eu ainda tenho um último post para escrever. Mas depois o blog deverá definhar e morrer (como já vem definhando e morrendo há anos).

***

Se tudo der certo, só saio da caverna pra escrever dois livros.

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