O truque pra escrever bem…

December 31, 2016 § Leave a comment

… é começar escrevendo um texto que você gostaria de ler. Depois criar senso crítico. Aí você tem que passar o resto da sua vida caminhando no fio da navalha: ampliando o senso crítico e a capacidade de escrever textos que te agradem.

***

Não escapa à percepção uma certa ironia, que poderia ser cortada com uma faca de pão de tão grossa, que eu escrevi mais textos no mês que decidi matar o blog do que no ano inteiro.

Mas a ironia (pelo menos essa ironia) me agrada. É sinal de que existe uma guerra dentro de mim. Uma guerra entre partes que não param e estão muito bem armadas. Por um lado efetivamente eu me questiono se ainda é sensato, inteligente e dotado de algum bom senso manter um blog. Meus amigos estão criando os filhos e eu aqui, escrevendo textão na internet. Shame. Blém blém.

Mas por outro lado, existe um pequeno detalhe que eu me esqueci. Um detalhe fundamental. Eu não escrevo pros outros. Eu escrevo pra mim. Sempre foi assim. Eu ecrevo textos que eu gostaria de ler.

Talvez isso tenha condenado meu blog a um eterno limbo. “Seus textos são muito grandes.” “Ninguém mais lê blog, a mídia do momento é o youtube.” “E eu lá vou perder meu tempo lendo blog?” “Você tem que se vender mais.” Todas essas críticas já foram feitas. E todas elas são pertinentes. Mas eu não escrevo pros outros, eu escrevo porque preciso e o que preciso.

E se os textos estão esparsos e… rasos… Acho que matar o blog não é solução.

***

Mas tudo isso é uma grande digressão necessária (pra mim). O tema do texto é 2016. E meus desejos para 2017.

2016 foi um ano difícil. Acho que objetivamente tem chance de ser o pior ano da minha vida. Não é todo ano que se perde uma amiga querida, dentre outras coisas.

Agora, apesar de objetivamente ter sido muito difícil, não me atrevo a chamá-lo de ruim. Acho que foi melhor que outros. Não sei se eu estou ficando calejado depois d tanta porrada ou se (finalmente) a tal da calma dos monges que eu sempre desejei finalmente tá chegando.

Besides, apesar de ter sido um ano muito difícil, eu estou MUITO melhor que MUITA gente: eu estou respirando.

Algumas pessoas podm falar que, talvez, morrer não seja tão ruim e que ou outro lado do véu tenha muito a ensinar (a amiga querida que faleceu esse ano é uma dessas pessoas). Mas percebam: eu não disse estar vivo, eu disse respirando.

***

Respirar é uma coisa muito legal.

Em resumo existem duas respirações, a mecânica e a bioquímica. A mecânica é a mais sussa: expande-se e restringe-se o volume dos pulmões pro ar entrar e sair. É a primeira coisa que a gente aprende quando nasce e uma das mais basilares. Engasgar com saliva é uma prova de incompetência. Pensem nisso na próxima engasgada.

Mas a bioquímica é mais complexa. Você pega oxigênio que vem do Ar, junta com glicose que vem dos alimentos produzidos na Terra e termina com vapor de Água, CO2 e Calor. É tão foda que tem até um 666: 6O2 + C6H12O6 = 6CO2 + 6H2O.

Piadas à parte, podemos ficar três dias sem água, mas seis minutos sem Oxigênio. Nossa mera existência demanda respiração. Pensar ou se movimentar então, demanda ainda mais.

Se eu ingiro mais calorias do que as que eu queimo respirando, eu engordo. Se eu ingiro menos calorias do que as que eu queimo respirando, eu definho.

Respirar é a capacidade de tirar do mundo e devolver para ele na forma de trabalho muscular ou cerebral. Tomamos o Ar que está disponível, os alimentos que a Terra produz, transformamos em Água, Calor e Força muscular ou cerebral. Respirar é a base de todas as nossas vidas e o elemento primordial para termos capacidade de mudarmos o mundo por meio da mudança de nossas vidas e de nós mesmos.

Sem respirar, nada disso é possível.

***

2016 foi difícil. Eu saio dele machucado, com cicatrizes, medos, rancores, temores, sustos, carências, inseguranças, incertezas, desafios e um aperto no peito que não morre de jeito nenhum.

Mas eu ainda estou respirando. E enquanto eu estiver respirando, eu tenho tudo o que eu preciso pra conseguir o que eu preciso.

***

Em 2017, desejo a vocês que vocês respirem.

Discurso de Formatura Proferido na Cerimônia de Dezembro de 2016.

December 19, 2016 § 2 Comments

Esse é o discurso que tive o privilégio de proferir como paraninfo da turma do 3º ano do Ensino Médio do Colégio onde trabalho. Como o discurso foi proferido de cor, é possível que eu tenha, no sabor do momento, alterado, incluído ou suprimido algumas passagens.

***

Meus amores, boa noite.

Peço desculpas a todos, mas, infelizmente, não tive tempo de preparar um discurso, então eu resolvi simplificar tudo e dar uma aula mesmo. Mas eu não tive tempo de preparar uma aula também. Então eu resolvi fazer o que todo professor faz quando não tem aula preparada: dar uma atividade, no caso, uma redação.

Mas eu não tive tempo de preparar um tema para redação, então eu resolvi trazer para vocês um tema que vocês com certeza já trabalharam, mas não comigo. Então a gente vai debater um pouquinho sobre o tema e depois vocês fazem uma redação que a gente combina a entrega.

O tema é “O que eu vou ser quando crescer”.

Eu imaginava uns de vocês com uma cara de “que saco, eu estou me formando no Ensino Médio, não entrando no Fundamental!”. Outros “mas eu não sei o que eu vou ser quando crescer! Eu não quero pensar nisso!!!”. Calma, o meu papel é desenvolver com vocês o tema para que vocês produzam o texto.

Pois bem, esse é um tema que é recorrente na escola. Vira e mexe perguntam e vocês tem que responder. Astronauta, médico, jogador de futebol, advogado, psicóloga, enfermeira, músico, e sei lá mais o quê. Mas essa pergunta está errada e isso atrapalha muito a nossa vida porque ela nos induz em erro.

E para começar a produzir esse texto, temos que analisar a proposta. Nesse caso temos uma locução verbal, que, para fins de análise, eu vou simplificar: Vou Ser é Serei. O que eu serei quando eu crescer ou, em ordem “Sujeito-Verbo-Objeto”:  “Eu serei o que quando eu crescer?”.

A gente começa com o sujeito. Eu. Primeira pessoa do singular. Aquele que fala. E sobre o “Eu”, existem infinitas teorias a se falar. Tem gente materialista, espiritualista, que crê no Livre Arbítrio, na primazia do meio social, mas por enquanto, prestem atenção apenas em uma coisa:  “a existência de um Eu pressupõe a existência de um não-Eu”.

Isso parece estranho mas é muito simples: Falar que existe alguma coisa presume a existência  de infinitas coisas que não são essa coisa. Se eu falo “cachorro”, existem infinitas coisas que não são “cachorro”: gato, carro, galinha, papagaio, brigadeiro, whatever. E esse é o primeiro ponto que vocês vão ter que responder: O que Eu sou e o que Eu não sou. Se individualizar.

E isso vai demandar traçar uma fronteira. Eu gosto de algumas coisas, não gosto de outras, faço algumas, não faço outras, sou bom em umas, não sou bom em outras. Esse é o primeiro trabalho de vocês: se conhecerem. Se dediquem a ele. Vocês são únicos e descobrir o que é a essência de vocês e o que não é é fundamental.

Agora, quando eu falo “quando eu crescer”, é uma Oração Subordinada Adverbial Temporal Reduzida de Infinitivo. Isso é um jeito muito complicado de falar que é um tempo.

E a presença desse tempo dará a segunda questão a ser respondida: tempos diferentes pessoas diferentes. Vocês eram alguém no começo da escola. Hoje são diferentes. Cresceram. E ainda passarão pela faculdade e mudarão mais. Vocês mudarão. Reconheçam e aceitem. “Formatura” é uma palavra errada: vocês não estão formados. Estão se formando. Mas não se preocupem: eu também. “O bonito da vida é isso, seu moço: gente não tá acabada, gente tá se terminando.”

Agora, pra finalizar, a parte mais importante da oração. A cereja do bolo: O Verbo Ser, no futuro, Serei.

Primeiro, em outras línguas, existem verbos “ser” diferentes. Por exemplo, em inglês, usa-se o verbo “to be”, traduzido como “Ser ou Estar”. De cara temos uma diferença: Em inglês, Ser e Estar se diz como uma palavra só. Eu estou feliz e eu sou feliz se diz da mesma forma “I am happy”. Depende da intenção. Eu fico sempre pensando que isso deve gerar tanta reflexão na cabeça dos ingleses: se eu digo I am happy eu quero dizer que eu sou feliz e isso é um caráter essencial do meu Eu ou que eu estou feliz e isso passará? São coisas muito diferentes.

Além disso, a construção do tempo verbal futuro em inglês usa a palavra “will”. I will be. Mas Will também significa vontade. E aí começamos a finalmente juntar as pontas: Will Be é ao mesmo tempo Serei e Vontade de Ser. Ou seja, vocês serão aquilo que vocês tiverem Vontade de Ser. Vocês podem ser o que vocês quiserem.

Mas tem uma pegadinha nisso tudo: Vocês podem ser o que vocês quiserem, mas vocês não podem querer qualquer coisa.

Porque Vontade é atributo do Eu, e cada um é diferente e a pior coisa que pode acontecer é vocês acharem que devem querer Ser algo que não São. Isso mata a gente por dentro.

Pra descobrir o que vocês vão ser quando crescer, portanto, vocês tem que decobrir o que vocês querem. E pra isso é “só” saber quem vocês são. Descubram quem vocês são e vocês saberão o que vocês querem. Sabendo o que vocês querem, ocupem-se de crescer nessa direção.

Mas aí vem a grande pergunta: Se o que queremos depende de quem somos, afinal, quem somos nós?

Eu não tenho a pretensão de responder a essa pergunta de forma definitiva, mas outra ferramenta que eu encontrei para responder essa pergunta vem do Hebraico, que não tem o verbo ser no presente do indicativo. Exato. Não tem. Então se eles querem falar, por exemplo, “eu sou um professor” eles falam apenas “eu professor”, no caso, “Ani Moré”.

Mas embora o hebraico não tenha presente do indicativo pro verbo Ser, ele tem um verbo para o pretérito do verbo ser, iahi. Esse verbo tem várias conjugações e vários tempos verbais e eu queria destacar um, que não existem em português, que é um tempo verbal que mistura gerúndio e infinitivo. Traduziria-se como “estar sendo”: a conjugação é Iahô. Iud Heh Vav Heh. Quem aqui conhece essa palavra? É isso que deus responde pra Abrão quando ele pergunta “quem és tu”. Deus responde Iahô. Traduziram como “eu sou aquele que é”. Erro de tradução: usaram o presente do indicativo, que sugere um processo acabado. Ele responde Iahô e o correto seria “Eu sou Aquele que Está Sendo”.

Gente, se alguns de vocês podem ser religiosos e achar que eu estou quebrando aquele mandamento de “não usar o nome de Deus em vão”. Eu não estou preocupado com isso.

Em primeiro lugar, porque não é em vão. Se eu pudesse eu traria os quatro arcanjos do céu, Rafael, Miguel, Gabriel e Uriel, colocava um em cada canto dessa sala com uma estrela do céu e o nome de Deus para vocês porque vocês merecem. Vocês são a coisa mais importante no mundo hoje.

Mas mais importante do que isso é uma coisa que eu ainda não tenho muita certeza… preciso estudar mais… Mas eu ACHO que o nome de Deus não é uma palavra.

Eu ACHO que o nome d Deus é uma palavra, e uma cor, e um som, e uma luz, e um sabor, e um perfume, e uma textura, e uma emoção e um pensamento, e uma ideia. Tudo isso ao mesmo tempo em movimento.

E vocês são a imagem e semelhança de deus. Então eu acredito que vocês são uma palavra, e uma cor, e um som, e uma luz, e um sabor, e um perfume, e uma textura, e uma emoção e um pensamento, e uma ideia. Tudo isso ao mesmo tempo em movimento.

Por isso a pergunta “o que eu vou ser quando crescer” é errada: induz vocês a responderem uma coisa só. E vocês não são uma coisa só. Vocês são um todo em movimento.

E por isso essa redação não será entregue em uma folha de redação. Entre vinte a trinta linhas. Com parágrafo de três centímetros. Ela vai ser entregue em um abraço. Uma palavra. Uma conversa.

Queridos pais, queridas mães, caros professores, nossa senhora diretora, queridos alunos, queridas alunas… e Xxxxx (pausa para as risadas). Antes de prosseguir ao encerramento, gostaria de aqui lhes render minhas homenagens e pedir desculpas por esse teatrinho de um discurso que finge não ser discurso. Meus amores, o discurso foi preparado sim. E foi muito bem preparado. E eu estou o proferindo de cor.

Mas o discurso de formatura é um gênero do discurso. E é um gênero do discurso que serve para agradecer e dar conselhos. E embora eu tenha muito a agradecer, eu detesto dar conselhos. São muito cômodos: “faça o que eu digo e boa sorte.”

Por isso eu preferi o formato aula. Porque eu quero dar para vocês o que eu tenho de mais precioso. E isso é o que eu tenho de mais precioso. “Se eu fosse rico e tivesse posses, contratava os anjos e arcanjos do céu e mandava trazer as cortinas de ouro e prata de sol e de lua para que caminhem. Mas tenho apenas meus sonhos. E os estendi diante de vocês. Caminhem com cuidado, pois caminham sobre os meus sonhos.”

Saibam que cada homem e cada mulher é uma estrela. É único. Está em movimento. O que serve pra mim não pode não servir para vocês. E tá tudo certo.

Por fim, uma vez que eu não gosto de dar conselhos, gostaria de terminar esse discurso com meus desejos. Porque eu desejo para vocês aquilo que eu desejo para mim.

Desejos que vocês falem sempre a verdade, não porque mentir seja feio ou não funcione. Funciona e muito bem. Mas desejo que vocês falem semore a verdade porque a mentira é a arma do fraco e eu desejo que vocês sejam fortes.

Sendo fortes, desejo que sejamos íntegros diante dos mais fortes e misericordiosos diante de quem ainda não é tão forte, porque isso é ser corajoso e ter coragem é agir com o coração.

Sendo corajosos eu desejo que tenham sabedoria pois é ela que vai permitir que nossos esforços rendam frutos, e é muito importante colher os frutos dos esforços: eles que mostram que estamos no caminho certo.

E, por fim, desejo que tenham algo que, na falta de palavra melhor, eu vou chamar de “Amor”. Porque Amor é uma palavra gasta, que a gente usa, mas ainda não sente a amplitude dela. Para nós, hoje, aqui, Amor é aquilo que enche o coração, dá vida, vitalidade, força, coragem, ânimo, faz ver a beleza na existência e faz com que consigamos sair da cama todos os dias de manhã e ver que a vida é bela, doce e importante. Eu desejo que vocês tenham esse amor que faz a Vida valer à pena.

Porque é por isso que todos os dias de manhã quando eu entro na sala de aula eu cumprimento vocês chamando vocês de “meus amores”.

Muito obrigado.

Amém.

Shelá.

Último Post de Blog de um Homem que Ficou Velho de Repente.

December 1, 2016 § 3 Comments

Uma das melhores histórias em quadrinhos que já foram escritas se chama Transmetropolitan (fic aqui o link da Amazon, mas eu vi que foi lançado no brasil e, sobrando uma grana, TENHO que comprar).

Transmetropolitan fala sobre um Jornalista (Spider Jerusalem) no século XXIII que é retirado de um exílio auto-imposto nas montanhas para cumprir um dever contratual de escrever dois livros.

O livro se passa em um futuro distópico Cyberpunk. Como o câncer foi curado com facilidade e a maior parte das doenças também, drogas são plenamente legalizadas. A tecnologia é tão avançada que entretenimento e bens de consumo são praticamente infinitos.

Mas como em toda distopia, a tecnologia mudou, mas a humaniade continuou a mesma.

Grupos de “trans” fazem protestos pelos seus direitos e são massacrados pela polícia (Transespécies, que injetam dna alienígena em si, não transgêneros). O Presidente declara que o trabalho dele é conquistar 51% dos votos e proteger esses 51% dos 49% restantes. Religiões são criadas para explorar a fé alheia. E por aí vai.

Mas o ponto principal e que levou Spider ao autoexílio é que a quantidade de informação é tão imensurável que afoga qualquer expectativa de Verdade. A frase mais emblemática da série toda é “Lies are news and the Truth is obsolete!” Mentiras são notícia e a Verdade está obsoleta.

***

O Dicionário Oxford elegeu a palavra “Pós-Verdade” como a Palavra do Ano em 2016.

Pra mim isso e eleger “estupro infantil” como palavra do ano é quase a mesma coisa.

Pós-Verdade é um conceito no qual acontecimentos objetivos são menos relevantes para a formação de uma convicção pessoal do que apelos a ideais ou emoções.

Eu gostaria de dar exemplos, mas esse é um post de despedida e não quero maculá-lo com vieses.

***

 

Deram um substantivo para a frase “Lies are news and the truth is obsolete.”

Chamaram de Pós-Verdade.

E isso destrói a finalidade desse blog.

Muito tempo atrás ele surgiu como minha busca pela Verdade. Minha verdade.

Mas a verdade é inútil. Mera circunstância. Massinha de modelar para aquilo que eu quero.

***

Em um mundo de Pós-Verdade, nada é verdadeiro. O Palmeiras tem quatro ou nove títulos sei-lá-do-quê? Gente, é um campeonato, como é possível não haver concordância com isso? Ou do Palmeiras ou dos outros Times? É documental!

Percebem? E percebem que isso é a parte menos relevante de tudo? Do time de futebol ao partido político. Do sexo ao amor. Da Economia à Religião.

 

“Errado está o mundo, que não se curva à minha genialidade.”

***

Não sei o que vou fazer. Certamente impossível deixar de escrever. Mas eu preciso dar um passo adiante. Escrever algo maior do que eu mesmo. Algo que seja Verdadeiro de tal forma que seja impossível refutar. Talvez literatura, não sei.

Mas se eu não conseguir me libertar do que sou hoje, uma pessoa escrevendo sobre o mundo, melhor que eu não escreva at all.

Esse ano eu ainda tenho um último post para escrever. Mas depois o blog deverá definhar e morrer (como já vem definhando e morrendo há anos).

***

Se tudo der certo, só saio da caverna pra escrever dois livros.

Feliz dia dos mortos. Feliz dia do Amor.

October 31, 2016 § Leave a comment

O grande desafio, pra mim, de tentar levar uma vida espiritualizada é deixar de lado velhas crenças. Crenças científicas. E a internet ferra muito a nossa vida nisso.

O primeiro problema vem quando a gente fala em crenças científicas. Porque ciência funciona. Simples assim. Como disse um amigo meu, “penicilina não precisa de fé, não tem que acreditar pra funcionar”. Toda a religiosidade, em compensação, precisa. E piora muito porque a religiosidade está muito relacionada com as sincronicidades/coinciências.

Sincronicidade é uma palavra bonita pra falar que existe uma causalidade implícita nas coisas. Uma causalidade não evidente. Coincidência é uma palavra pra falar que não existe causalidade entre dois eventos que ocorrem em um determinado momento. Normalmente, “coincidência” é um super-trunfo. “A janela abriu quando eu perguntei se tinha alguém!” “Coincidência.” Cabô discussão.

E as coisas pioram quando você começa a trabalhar com exercícios comparativos.

Por exemplo, o mundo todo hoje comemora Halloween. O Halloween foi atribuído a 31 de outubro em virtude das festividades pagãs do Sabbat de Samhain. Que é basicamente o dia dos mortos. Essa data era comemorada no meio do outono (então às vezes cai no dia 30, às vezes no 31, depende do calendário) e era a data na qual as pessoas celebravam a morte. Meio bizarro celebrar a morte, mas é mais ou menos isso: os entes queridos que partiram eram lembrados, homenagens eram feitas e de todas as festividades, essa era a única na qual o consumo de carne era autorizado.

O problema é que no Hemisfério Sul se comemora o auge da primavera. A Celebração do Amor por excelência. Era o grande festival da fertilidade no qual as pessoas transavam como coelhinhos.

E agora nós estamos no auge da primavera, mas sabemos que o outro lado do mundo celebra a morte. E aí? Qual que tá valendo de verdade? Daqui a dois dias é finados, hoje é halloween, amanhã é dia de los muertos, ontem foi Beltane aqui e foi Samhain do outro lado do Equador.

Ontem foi a celebração do sepultamento de uma grande amiga. Vai deixar saudades e muito amor. Foi feito o serviço religioso, foram entregues flores e seu nome foi celebrado com um churrasco. Normalmente na casa não se come carne. Mas uma criança pediu então se fez essa exceção.

Eu gostaria de fazer um imenso texto a respeito de tudo isso, mas ela ensinou que o silêncio é a demonstração maior de devoção.

Portanto, Silêncio.

 

 

The Times, they are a’changing.

October 6, 2016 § 2 Comments

Prólogo: Provavelmente é assim que morre um blog: aos poucos e lentamente.

***

O STF determinou e manteve o entendimento de que a prisão do condenado pode ocorrer após o julgamento em segundo grau, sem a necessidade de se esgotar os recursos.

O STF entendeu que a autoridade policial pode entrar em residências, sem mandado, mediante justificativa posterior comprovada.

O TJSP anulou o julgamento do Massacre do Carandiru.

Vítima de boato na Internet é ameaçado e tem medo de sair de casa.

***

É muito bonito falar que a única coisa certa é a mudança quando a mudança é pro lado que a gente quer. E a gente nunca acha que está errado, afinal, se estivéssemos errados, nós perceberíamos, né?

***

Nos últimos meses uma série de decisões judiciais (não de qualquer Corte, da Suprema Corte) vêm “flexibilizando” os direitos e garantias individuais. Pros advogados isso é desesperador. E pros outros cidadãos também deveria.

Os Direitos Humanos são uma garantia do indivíduo diante do Poder do Estado. Toda evolução do direito caminhou em direção à proteção dos direitos individuais. Hoje vemos um passinho em sentido contrário.

Não sei se esse passinho vai se consolidar, mas é um passinho. E ele parece coerente com muito mais coisa correndo.

O Código de Processo Civil positivou a possibilidade de julgamento e execução de parte incontroversa do pedido. O STF entende ser possível a prisão após o julgamento de segundo grau. A redução da maioridade penal ficou bem próxima de aprovada (se não vier a ser). Criou-se o crime de feminicídio. O Direito Penal está endurecendo.

(E sim, apesar do TJSP ter anulado o julgamento do Carandiru por um argumento garantista, a última coisa que ele foi foi garantista).

Porque a sociedade está endurecendo.

Parece (talvez seja pessimismo meu) que as pessoas querem a punição logo. O Direito Penal Liberal entende que é melhor absolver um culpado do que condenar um inocente. Mas parece que “A Sociedade” vem entendendo que é tanto culpado absolvido que é melhor dificultar a vida deles.

Por um lado, isso é muito ruim. E muito perigoso.

Mas a sociedade não quer o que é certo. Ela quer resolver os problemas dela. Em todos os sentidos: Político, social, econômico, jurídico.

A mudança da percepção da sociedade implica na mudança da percepção das Leis. Foi assim com a “Legítima Defesa da Honra”. Vai ser assim com invasão de domicílio pela Polícia.

Afinal, se tem gente que acha que pode divulgar vídeo acusando gente de ser estuprador, por quê não trancafiar na cadeia após um julgamento de segundo grau? Vamos combinar que no julgamento o réu teve mais direito de defesa.

***

O que mais me chama a atenção nisso é que cada vez mais parece haver uma correlação direta entre povo e governo (ou entre povo e lei, nesse caso). Leis que não pegam, governos que ficam ou que caem, quer algumas pessoas gostem ou não. Quer pareça certo ou não. O STF deu essas duas decisões. E foi mais ou menos essa composição que autorizou o casamento homossexual e está perto de descriminalizar o uso de drogas.

E é nessa questão que permaneço: é possível falar em certo e errado quando falamos em um processo histórico de larga escala? Parece que o pêndulo está indo pro lado contrário agora, a caminho da repressão ao indivíduo em prol do coletivo. E é tão possível evitar isso quanto é possível voltar ao tempo da “Legítima Defesa da Honra”.

Talvez a questão não seja se algo é certo ou errado, mas sim se é adequado ou não em um determinado tempo. E isso vale pras Leis e pros Governos.

But the Times, they are a’changing.

One Punch Man.

August 31, 2016 § Leave a comment

Dois fucking dias antes do meu aniversário e tudo que eu tenho a falar é sobre um fucking Mangá.

***

One Punch Man é uma homenagem ao anticlimax. É um Mangá/Anime sobre um herói que consegue derrotar todos os inimigos com apenas um soco.

Pense em todos os mangás e animês até agora criados. Pense em todas as horas de sofrimento que o protagonista passa para conseguir vencer um inimigo claramente superior.

OPM é o contrário.

Com um soco ele vaporiza os inimigos durante o discurso de ameaça deles. E logo em seguida fica puto porque esperava que aquela luta representasse ALGUM desafio.

Saitama (identidade do OPM) é um ex “salary man” (termo usado em japonês para indicar o trabalhador de colarinho branco em funções de pouco prestígio nas empresas) que decide, em virtude do tédio, virar “super-hero for a hobby”. Sua pretensão com isso é preencher o vazio de sua vida com a adrenalina do desafio.

Dedicando-se a treinar durante três anos (fazendo 100 flexões, 100 agachamentos, 100 barras e correndo 10 quilômetros todos os dias) Saitama alcançou o nível de poder capaz de esmigalhar um meteoro com um soco. Wait. Wut? Sim, isso mesmo.

Depois de derrotar um monstro com um tapa, um ciborgue pede para ser seu discípulo. Relutantemente (por acreditar que não tem nada a ensinar) ele aceita. E descobre que para ser um super-herói ele precisa se filiar ao Sindicato dos Super-Heróis, ou será considerado apenas um louco.

Ele se filia e descobre que seu discípulo ciborgue está ganhando muito mais notoriedade especialmente por ser… bonito.

Em suas tentativas de subir em classificação de herói Saitama enfrenta heróis mais antigos que decidem sabotá-lo fazendo bad publicity dele para o povo.

OPM acaba trabalhando a vertente do humor nonsense em todos os episódios: No fim trata-se da história de um herói que resolve tudo sem emoção alguma.

***

One Punch Man é um Mangá sobre um herói depressivo.

Um herói que era um white collar worker, sem razões para viver uma vida sem emoção, que não sentia prazer em nada, e que decidiu ser herói por hobby no tempo livre. Não estranhamente, ele se tornou melhor no hobby que no trabalho sem sentido que fazia mas, ainda assim, não encontrou qualquer prazer em nada.

Sua vida é sem desafios e mesmo o que pode parecer um grande risco se mostra apenas mais um dia. E a expressão bland and blank dele mostra isso.

Não bastasse isso, para ser reconhecido em seu hobby, ele precisa da aprovação de seus pares. Sem a aprovação do sindicato, liga, federação, whatever, não interessa o quão forte ele é: ele não existe.

E não basta fazer bem o trabalho: sem o famigerado “marketing pessoal” e o “networking” é muito mais difícil obter o sucesso.

***

One Punch Man é uma história tristemente parecida com a realidade: uma vida sem sentido num emprego fungível que só ganha cores aos finais de semana. Uma vida na qual sem o reconhecimento de um grupinho você não é parte da “comunidade”. Uma vida na qual o marketing pessoal cria Bel Pesces da vida enquanto empreendedores desembolsam economias da vida num negócio que, às vezes, falha.

Um dos meus maiores problemas é superanalizar coisas bobas. E eu fiz isso de novo.

Mas que faz sentido… isso faz.

 

 

Só é despedida quando você não quer que seja. Parte II.

August 7, 2016 § 2 Comments

Ou “Eu não amadureci tanto assim nos últimos dez anos”.

“A morte, o destino, tudo, estava fora de lugar. Eu vivo pra consertar.”

Mais de dez anos atrás um grande amigo saiu de sampa pra ir pro RJ. Por n motivos, mas resumindo, várias coisas ruins aconteceram e ele decidiu começar de novo. Ele fez uma festa de despedida na qual eu não consegui ir, mas como ele era meu colega de apartamento, não faltou a chance de uma última cerveja. E nesse dia eu falei “respeito sua decisão, mas não gosto. Eu gosto dos meus amigos perto de mim.” E ele me respondeu da forma ainda mais surpreendente: “Na minha despedida foram todos os meus amigos de faculdade e trabalho. Mas você foi o único que falou que queria que eu ficasse.”

E era verdade. Eu sabia o que ele queria. E eu queria outra coisa. Porque eu achava o melhor pra ele. Porque eu me importo com o mundo ao meu redor.

Em n motivos eu sou um filho da puta. Às vezes eu rezo pra que um meteoro me esmague e livre o mundo da minha existência. Eu sou bom em uma pá de coisas ruins. Eu sei mentir, eu sei brigar, eu sei tocar a música certa pra fazer as pessoas dançarem. Eu sou um desperdício de matéria orgânica na face da Terra. Seria melhor dividir meu corpo entre três etíopes. Mas eu tenho UMA coisa boa. Uma e apenas uma: eu quero ver as pessoas felizes.

Isso e apenas isso.

Mas tem um problema. Eu quero ver as pessoas felizes, mas não consigo fazer as pessoas felizes. Eu não consigo nem cuidar da minha vida, quanto mais cuidar da vida dos outros. Eu mal consigo cuidar de dois gatos. Quanto mais ajudar um amigo que está de mudança pra Alemanha porque a mãe da filha dele fez alienação parental e ele concluiu que não restou nada ora ele aqui se ele não tem a filha dele.

A morte. O Destino. Tudo. Está fora de lugar. Eu vivo pra consertar . E fracasso.

Eu falei anos atrás que eu queria o Algoritmo da Alma Humana. Porque eu queria consertar almas tortas. Deus do céu. E até hoje eu não consegui. Nem a minha. Nem dos meus familiares. Nem dos meus amigos. Não consegui. Nada. Eu sou aquele que vê a casa caindo e nem consegue tirar o carro da garagem. Pra quê eu sirvo na face da terra se eu não consigo nem ajudar as pessoas que eu amo?

Uma vez eu falei pra um amigo que tem polaridade política oposta à minha que eu só conversava com ele sobre política porque nós dois queremos a mesma coisa: Um mundo melhor. Discordamos do caminho pra isso. Mas desejamos.

E deus do céu… Como é difícil fazer alguma coisa que preste. A metáfora da semeadura é perfeita. Centenas de sementes pra dezenas de brotos e unidades de plantas. Deus do céu. Eu quero ver mais plantas.

Eu não sei o que vai ser do futuro. Mas eu vou consertar o mundo ou morrer tentanto. E se for pra não conseguir resolver nada, que pelo menos o morrer tentando chegue logo.

E sim. Isso é um post desabafo.

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