Discurso de Formatura Proferido na Cerimônia de Dezembro de 2016.

December 19, 2016 § 2 Comments

Esse é o discurso que tive o privilégio de proferir como paraninfo da turma do 3º ano do Ensino Médio do Colégio onde trabalho. Como o discurso foi proferido de cor, é possível que eu tenha, no sabor do momento, alterado, incluído ou suprimido algumas passagens.

***

Meus amores, boa noite.

Peço desculpas a todos, mas, infelizmente, não tive tempo de preparar um discurso, então eu resolvi simplificar tudo e dar uma aula mesmo. Mas eu não tive tempo de preparar uma aula também. Então eu resolvi fazer o que todo professor faz quando não tem aula preparada: dar uma atividade, no caso, uma redação.

Mas eu não tive tempo de preparar um tema para redação, então eu resolvi trazer para vocês um tema que vocês com certeza já trabalharam, mas não comigo. Então a gente vai debater um pouquinho sobre o tema e depois vocês fazem uma redação que a gente combina a entrega.

O tema é “O que eu vou ser quando crescer”.

Eu imaginava uns de vocês com uma cara de “que saco, eu estou me formando no Ensino Médio, não entrando no Fundamental!”. Outros “mas eu não sei o que eu vou ser quando crescer! Eu não quero pensar nisso!!!”. Calma, o meu papel é desenvolver com vocês o tema para que vocês produzam o texto.

Pois bem, esse é um tema que é recorrente na escola. Vira e mexe perguntam e vocês tem que responder. Astronauta, médico, jogador de futebol, advogado, psicóloga, enfermeira, músico, e sei lá mais o quê. Mas essa pergunta está errada e isso atrapalha muito a nossa vida porque ela nos induz em erro.

E para começar a produzir esse texto, temos que analisar a proposta. Nesse caso temos uma locução verbal, que, para fins de análise, eu vou simplificar: Vou Ser é Serei. O que eu serei quando eu crescer ou, em ordem “Sujeito-Verbo-Objeto”:  “Eu serei o que quando eu crescer?”.

A gente começa com o sujeito. Eu. Primeira pessoa do singular. Aquele que fala. E sobre o “Eu”, existem infinitas teorias a se falar. Tem gente materialista, espiritualista, que crê no Livre Arbítrio, na primazia do meio social, mas por enquanto, prestem atenção apenas em uma coisa:  “a existência de um Eu pressupõe a existência de um não-Eu”.

Isso parece estranho mas é muito simples: Falar que existe alguma coisa presume a existência  de infinitas coisas que não são essa coisa. Se eu falo “cachorro”, existem infinitas coisas que não são “cachorro”: gato, carro, galinha, papagaio, brigadeiro, whatever. E esse é o primeiro ponto que vocês vão ter que responder: O que Eu sou e o que Eu não sou. Se individualizar.

E isso vai demandar traçar uma fronteira. Eu gosto de algumas coisas, não gosto de outras, faço algumas, não faço outras, sou bom em umas, não sou bom em outras. Esse é o primeiro trabalho de vocês: se conhecerem. Se dediquem a ele. Vocês são únicos e descobrir o que é a essência de vocês e o que não é é fundamental.

Agora, quando eu falo “quando eu crescer”, é uma Oração Subordinada Adverbial Temporal Reduzida de Infinitivo. Isso é um jeito muito complicado de falar que é um tempo.

E a presença desse tempo dará a segunda questão a ser respondida: tempos diferentes pessoas diferentes. Vocês eram alguém no começo da escola. Hoje são diferentes. Cresceram. E ainda passarão pela faculdade e mudarão mais. Vocês mudarão. Reconheçam e aceitem. “Formatura” é uma palavra errada: vocês não estão formados. Estão se formando. Mas não se preocupem: eu também. “O bonito da vida é isso, seu moço: gente não tá acabada, gente tá se terminando.”

Agora, pra finalizar, a parte mais importante da oração. A cereja do bolo: O Verbo Ser, no futuro, Serei.

Primeiro, em outras línguas, existem verbos “ser” diferentes. Por exemplo, em inglês, usa-se o verbo “to be”, traduzido como “Ser ou Estar”. De cara temos uma diferença: Em inglês, Ser e Estar se diz como uma palavra só. Eu estou feliz e eu sou feliz se diz da mesma forma “I am happy”. Depende da intenção. Eu fico sempre pensando que isso deve gerar tanta reflexão na cabeça dos ingleses: se eu digo I am happy eu quero dizer que eu sou feliz e isso é um caráter essencial do meu Eu ou que eu estou feliz e isso passará? São coisas muito diferentes.

Além disso, a construção do tempo verbal futuro em inglês usa a palavra “will”. I will be. Mas Will também significa vontade. E aí começamos a finalmente juntar as pontas: Will Be é ao mesmo tempo Serei e Vontade de Ser. Ou seja, vocês serão aquilo que vocês tiverem Vontade de Ser. Vocês podem ser o que vocês quiserem.

Mas tem uma pegadinha nisso tudo: Vocês podem ser o que vocês quiserem, mas vocês não podem querer qualquer coisa.

Porque Vontade é atributo do Eu, e cada um é diferente e a pior coisa que pode acontecer é vocês acharem que devem querer Ser algo que não São. Isso mata a gente por dentro.

Pra descobrir o que vocês vão ser quando crescer, portanto, vocês tem que decobrir o que vocês querem. E pra isso é “só” saber quem vocês são. Descubram quem vocês são e vocês saberão o que vocês querem. Sabendo o que vocês querem, ocupem-se de crescer nessa direção.

Mas aí vem a grande pergunta: Se o que queremos depende de quem somos, afinal, quem somos nós?

Eu não tenho a pretensão de responder a essa pergunta de forma definitiva, mas outra ferramenta que eu encontrei para responder essa pergunta vem do Hebraico, que não tem o verbo ser no presente do indicativo. Exato. Não tem. Então se eles querem falar, por exemplo, “eu sou um professor” eles falam apenas “eu professor”, no caso, “Ani Moré”.

Mas embora o hebraico não tenha presente do indicativo pro verbo Ser, ele tem um verbo para o pretérito do verbo ser, iahi. Esse verbo tem várias conjugações e vários tempos verbais e eu queria destacar um, que não existem em português, que é um tempo verbal que mistura gerúndio e infinitivo. Traduziria-se como “estar sendo”: a conjugação é Iahô. Iud Heh Vav Heh. Quem aqui conhece essa palavra? É isso que deus responde pra Abrão quando ele pergunta “quem és tu”. Deus responde Iahô. Traduziram como “eu sou aquele que é”. Erro de tradução: usaram o presente do indicativo, que sugere um processo acabado. Ele responde Iahô e o correto seria “Eu sou Aquele que Está Sendo”.

Gente, se alguns de vocês podem ser religiosos e achar que eu estou quebrando aquele mandamento de “não usar o nome de Deus em vão”. Eu não estou preocupado com isso.

Em primeiro lugar, porque não é em vão. Se eu pudesse eu traria os quatro arcanjos do céu, Rafael, Miguel, Gabriel e Uriel, colocava um em cada canto dessa sala com uma estrela do céu e o nome de Deus para vocês porque vocês merecem. Vocês são a coisa mais importante no mundo hoje.

Mas mais importante do que isso é uma coisa que eu ainda não tenho muita certeza… preciso estudar mais… Mas eu ACHO que o nome de Deus não é uma palavra.

Eu ACHO que o nome d Deus é uma palavra, e uma cor, e um som, e uma luz, e um sabor, e um perfume, e uma textura, e uma emoção e um pensamento, e uma ideia. Tudo isso ao mesmo tempo em movimento.

E vocês são a imagem e semelhança de deus. Então eu acredito que vocês são uma palavra, e uma cor, e um som, e uma luz, e um sabor, e um perfume, e uma textura, e uma emoção e um pensamento, e uma ideia. Tudo isso ao mesmo tempo em movimento.

Por isso a pergunta “o que eu vou ser quando crescer” é errada: induz vocês a responderem uma coisa só. E vocês não são uma coisa só. Vocês são um todo em movimento.

E por isso essa redação não será entregue em uma folha de redação. Entre vinte a trinta linhas. Com parágrafo de três centímetros. Ela vai ser entregue em um abraço. Uma palavra. Uma conversa.

Queridos pais, queridas mães, caros professores, nossa senhora diretora, queridos alunos, queridas alunas… e Xxxxx (pausa para as risadas). Antes de prosseguir ao encerramento, gostaria de aqui lhes render minhas homenagens e pedir desculpas por esse teatrinho de um discurso que finge não ser discurso. Meus amores, o discurso foi preparado sim. E foi muito bem preparado. E eu estou o proferindo de cor.

Mas o discurso de formatura é um gênero do discurso. E é um gênero do discurso que serve para agradecer e dar conselhos. E embora eu tenha muito a agradecer, eu detesto dar conselhos. São muito cômodos: “faça o que eu digo e boa sorte.”

Por isso eu preferi o formato aula. Porque eu quero dar para vocês o que eu tenho de mais precioso. E isso é o que eu tenho de mais precioso. “Se eu fosse rico e tivesse posses, contratava os anjos e arcanjos do céu e mandava trazer as cortinas de ouro e prata de sol e de lua para que caminhem. Mas tenho apenas meus sonhos. E os estendi diante de vocês. Caminhem com cuidado, pois caminham sobre os meus sonhos.”

Saibam que cada homem e cada mulher é uma estrela. É único. Está em movimento. O que serve pra mim não pode não servir para vocês. E tá tudo certo.

Por fim, uma vez que eu não gosto de dar conselhos, gostaria de terminar esse discurso com meus desejos. Porque eu desejo para vocês aquilo que eu desejo para mim.

Desejos que vocês falem sempre a verdade, não porque mentir seja feio ou não funcione. Funciona e muito bem. Mas desejo que vocês falem semore a verdade porque a mentira é a arma do fraco e eu desejo que vocês sejam fortes.

Sendo fortes, desejo que sejamos íntegros diante dos mais fortes e misericordiosos diante de quem ainda não é tão forte, porque isso é ser corajoso e ter coragem é agir com o coração.

Sendo corajosos eu desejo que tenham sabedoria pois é ela que vai permitir que nossos esforços rendam frutos, e é muito importante colher os frutos dos esforços: eles que mostram que estamos no caminho certo.

E, por fim, desejo que tenham algo que, na falta de palavra melhor, eu vou chamar de “Amor”. Porque Amor é uma palavra gasta, que a gente usa, mas ainda não sente a amplitude dela. Para nós, hoje, aqui, Amor é aquilo que enche o coração, dá vida, vitalidade, força, coragem, ânimo, faz ver a beleza na existência e faz com que consigamos sair da cama todos os dias de manhã e ver que a vida é bela, doce e importante. Eu desejo que vocês tenham esse amor que faz a Vida valer à pena.

Porque é por isso que todos os dias de manhã quando eu entro na sala de aula eu cumprimento vocês chamando vocês de “meus amores”.

Muito obrigado.

Amém.

Shelá.

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§ 2 Responses to Discurso de Formatura Proferido na Cerimônia de Dezembro de 2016.

  • Lucas Faria says:

    O blog vai acabar mesmo?
    Sempre leio e releio os posts, mas nunca comento. Pelo menos não até agora..
    Espero que não pare de escrever aqui ou que se isso acontecer, que pelo menos o blog não desapareça.

    Até..

    Like

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